quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Maranharte Prestigia - Série Fundadores

No ultima terça-feira (09), a Academia Maranhense de Letras (AML) juntamente com a Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) lançaram a “Série Fundadores”, uma coleção formada por 12 livros de autores maranhenses que fundaram a AML. O evento foi aberto ao público e contou com a presença dos reitor da UEMA (José Augusto Silva Oliveira), do Presidente do AML (Lino Moreira), alguns imortais (como a escritora Ceres Costa Fernandes, foto) e os escritores Luis Augusto Cassas, José Neres e (pasmem!) Nauro Machado (que parecia se divertir muito com os discursos pomposos dos seus colegas).
Fundada em 10 de agosto de 1908, a Academia Maranhense de Letras comemora este ano seus 100 de existência, e como parte das atividades, que começaram na II Feira do Livro de São Luís (onde alguns imortais ministraram belíssimas palestras sobre os fundadores da AML), foram relançadas essas importantes obras. A edição dos livros foi dirigida pelo acadêmico Jomar Morais, que recuperou autores importantes da historiografia maranhense. “É um trabalho feito em conjunto, que só poderia dar bons resultados”, enfatizou o presidente da AML
A maioria das publicações foi lançada quando esses intelectuais ainda eram vivos (dentre os fundadores, o último faleceu em 1977), e estavam com edição esgotada. Na noite de lançamento a coleção estava sendo vendida por R$ 60,00, mais posteriormente seriam vendidas separadamente e com preços de iriam variar de R$ 5,00 à 20,00.

Confira as obras e seus respectivos autores:
* Coisas da Vida (Contos) – Alfredo de Assis
* Fundação do Maranhão – Ribeiro do Amaral
* Harpas de Fogo (Poesia) – Corrêa de Araújo
* História do Maranhão - Barbosa de Godóis
* O Maranhão: subsídios históricos e corográficos – Fran Paxeco
* Missas Negras (Poesia) – I. Xavier de Carvalho
* Natal (quadros) – Astolfo Marques
* O Palácio das Lágrimas – Clodoaldo Freitas.
* Os Novos Atenienses – Antônio Lobo
* Poesias – Vieira da Silva
* Por onde Deus não andou (Romance) – Godofredo Viana
* Silhuetas – Domingos Barbosa

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Maranharte Indica: " A mulher que matou Ana Paula Usher", de Luís Augusto Cassas

O maranhense Luís Augusto Cassas estreou no mundo das letras em 1981 aos 28 anos de idade com a obra República dos Becos e posteriormente publicou: A Paixão segundo Alcântara, O Retorno da Aura, Liturgia da Paixão, Ópera Barroca: Guia Erótico-Poético & Serpentário Lírico da Cidade de São Luís do Maranhão, Titanic-Boulogne: A Canção de Ana e Antonio, O Shopping de Deus & A Alma do Negócio, Bhagavad-Brita: A Canção do Beco, A Paixão segundo Alcântara e Novos Poemas e Evangelho dos Peixes para a Ceia de Aquário, entre outros, contabilizando 15 livros, ou melhor 16, já que o autor lançou "A Mulher que Matou Ana Paula Usher: História de uma Paixão",mais um exemplo de sua poesia que encontra em vaias áreas do conhecimento (como a Filosofia, História, Artes e até um certo misticismo) uma verticalidade poética própria do autor de se faz desafiador sobre, principalmente, os questionamentos sobre esse estranho ser que é o homem. Na obra o poeta conta em versos exultantes e voluptuoso todo o processo de fascinação e conflitos que pode acontecer entre aqueles que imaginam ter encontrado suas almas gêmeas tentando sempre chegar a um lugar de harmonia e completude.
Segundo a escritora e antropóloga Amnéris Maroni (para o site Badauê) a obra seria "Uma Iniciação Erótica, Poética e Mística". Em seu prefácio, sinaliza que "o poeta, mas também os amantes, os que vivem a iniciação, todos eles, enfrentam a confusão entre os dois mundos: o mundo divino e o mundo humano. Todos eles enfrentam o que Santo Agostinho, em As Confissões, chamou de a "luta das duas vontades". Uma delas iluminada pelo divino tenta dar-se a ele; a outra vontade aprisionada ao mundo afetivo, instintivo, fere toda a vez e a cada vez o chamado divino. Para caminhar, o homem, toda vez e a cada vez se trai. Eis o paradoxo da iniciação: mística, poética, erótica. É a confusão entre os dois mundos que “A Mulher que Matou Ana Paula Usher” retrata. Cassas tentou amar no mundo "demasiado humano" valendo-se da potência divina que Eros é, apesar do "amor líquido" em voga? Ou para me valer da expressão de Meister Eckhard ao se amarem, ele e sua companheira de alma, tentaram se apropriar da criatura amada como se fosse sua e não de Deus?" interroga Amnéris Maroni. Já o escritor e psiquiatra Paulo Urban, considera “A Mulher que Matou Ana Paula Usher", sobretudo, uma trágica história de amor, mas ao mesmo tempo uma tragédia de final feliz, em que o poeta, morto várias vezes em sua honesta condição egóica, encontra-se ao final de uma grande jornada sobe veneno das paixões por tê-las experimentado até a última gota". E afirma que Cassas entregou aos seus leitores "a essência do drama da existência humana, escrita à moda de um São Paulo enlouquecido pelo amor do Cristo, banhado na Luz da Grande Consciência, e que humildemente, já caído do cavalo, convida cada um, a aprender de uma vez por todas a principal lição da vida, razão pela qual estamos/somos todos entes viventes e encarnados".
Para o poeta e crítico Marco Lucchesi - em seu Bilhete em Chamas ao poeta Luís Augusto Cassas -"Ana Paula Usher teve de ser assassinada para que as partes contrárias do Feminino fossem, afinal, reintegradas na vasta coincidência de opostos, que crescem vigorosas nas terras agrestes de seu coração. Jeanne, Beatriz, Francesca foram como que de todo absorvidas, sem esconder, contudo, uma dura descida à gramática da sombra e das chamas". - "Cassas amigo, você desceu ao Hades porque não podia escolher outro modo de subir. Foi esta a sua altura. A profundidade das coisas vividas", concluiu Lucchesi.
E para os leitores do MARANHARTE uma pequena amostra do talento de Cassas, um trecho do poema “Um” que faz parte do novo livro do autor:
“quando estou em ti/ e tu estás em mim/ inverte-se o princípio/ do início ao fim/ no primeiro momento/ há movimento:/ eu sou tu és/ no segundo momento/ há desfalecimento:/ não sei quem sou/ acaso és?/ no terceiro momento/ viramos fragmentos:/ o nós e o vós/ habitam em nós/ depois não há nada/ e o espírito do só/ recolhe-se ao pó.”

Fonte:www.badaueonline.com.br.(depoimentos)
Adaptação: Flaviano Menezes

Encontrando as pedras XX


Flaviano Menezes é graduando do Curso de Filosofia (UFMA)

Encontrando as Pedras XIX


Sergio Baima é graduando do Curso de Licenciatura em Letras (Uniceuma)

sábado, 18 de outubro de 2008

Opinião de Pedra: 2ª Feira do Livro de São Luís

A II Feira do Livro teve uma média de 400 eventos, incluindo seminários, encontros, simpósios, ciclo de palestras, oficinas, cursos, rodas de conversa, oficina das obras para o vestibular 2009, exposição permanentes, lançamento de livros, cortejos literários, aulas show, exibição de filmes e programações especiais para os públicos infantil e juvenil. No espaço de comercialização de livros, 500 editoras ocuparam 87 estandes para exposição e venda de 70 mil títulos. A movimentação financeira ficou acima dos 3 milhões de reais. A Feira atraiu cerca de 220 mil pessoas e inovou levando novos espaços e atividades, tais como: Feira do Livro Itinerante, Espaço Arena da Juventude, Espaço França-Brasil, Estação Memória, Espaço Notícias, Teatro Reynaldo Faray e Corredor da Literatura. Ao todo foram 40 espaços, além das instalações do Espaço Cultural, área do estacionamento da praça, Casa do Professor, Palácio Cristo Rei, Praça Gonçalves Dias e Teatro Artur Azevedo. O patrono do evento deste ano foi o escritor e teatrólogo Artur Azevedo, em uma homenagem aos 100 anos da imortalidade do escritor maranhense.
Jornal Pequeno
Data de Publicação: 21 de outubro de 2008


Das anunciadas “500 editoras” presentes nesta Feira do Livro de São Luís, sem dúvida a Ética foi a que mais apresentou lançamentos — mais de 30, quase todos de autores ou temáticas maranhenses. Não por poderio econômico de fazê-lo — já que é certamente uma das de menor capital dentre todas –, e sim por comprometimento, ânsia e tecnologia diferenciada, de menor custo. Nem sei se por capacidade empreendedora, como afirmou Jomar Moraes em sua crônica semanal da quarta-feira, 15 de outubro, no jornal “O Estado do Maranhão”, que titulou “Milagre maranhense: a Ética Editora”.Dezenas de homens e mulheres das letras maranhenses reverenciaram a Ética Editora e sua ousadia em fazer publicações autônomas (entenda-se aqui, sem o financiamento público) para o mercado regional, coisa a que até agora ninguém havia se atrevido. Tanto que Jomar termina sua crônica afirmando que “temos agora uma editora de verdade no Maranhão, e essa é uma notícia muito auspiciosa.”
Adalberto Franklin, escritor.
Fonte: blog do autor.

A 2ª Feira do Livro de São Luís, que aconteceu na Praça Maria Aragão e adjacências, quem diria, bombou com a presença de gente jovem. Em particupar um espaço que atraiu demais a galera. A Arena da Juventude, onde o público adolescente participou de discussões e debates relacionados à realidade dos jovens. Montado acima do palco da Maria Aragão, em um auditório no melhor estilo “Altas Horas”, de Serginho Grossman, os jovens assistiram a palestras, relato de experiências, painéis, rodas e conversas, exercícios artísticos pedagógicos e outros.
Jornal O Estado do Maranhão (suplemento Galera)

As atividades foram idealizadas pensando no público dessa área, que está tão perto dos centros culturais da cidade e, às vezes, não tem como usufruir da produção cultural. Levar educação, arte, literatura e outras produções artístico-culturais para o maior número e pessoas é objetivo da Feira do Livro de São Luís e vamos continuar nesse intento nas edições que virão nos próximos anos.
Lúcia Nascimento, coordenadora geral da Feira, sobre a itinerância do evento na área do Itaqui-Bacanga e no bairro do Anjo da Guarda.

MARANHARTE N° 05 ANO I


sábado, 4 de outubro de 2008

Encontrando as Pedras XVII

O POEMARÁ - Festival Brasileiro de Poesia no Maranhão, sempre visou a levar o máximo de pessoas a apreciarem a produção poética feita no Maranhão. Promovido pela UFMA (Departamentos de Assuntos Culturais/PROEX e Comunicação Social/ CCSo), com o apoio do Instituto Guarnicê, da Rádio Universidade, da Fundação Sousândrade e tendo como organizador o dinâmico Euclides Moreira Neto, a 22ª edição do concurso realizou-se nesta quinta-feira (02/10) no Teatro Arthur Azevedo, na qual teve quase que todos os seus 750 lugares ocupados por aqueles que apreciam a arte poética.
Foram 27 finalistas que chegaram a essa final, ou por avaliação do júri técnico ou por votação do público no que tange a interpretação. O que se percebeu lendo os poemas entregues no rol do Teatro foi a ecleticidade dos temas e das formas, bastante influência do concretismo, da poesia indagada e de denúncia e um toque da arte de Gregório de Matos. Poemas produzidos por jovens e promissores artistas e por aqueles que entendem a poesia não apenas como um gênero literário, mas como escape da frágil condição de “ser” humano e sublimar-se (como se observou em “A curva que entorta a reta” do jovem-senhor Araújo Basethi). Infelizmente, muitos poemas se perderam no “borboletear’ de alguns intérpretes, que, na ânsia que ganharem o prêmio de melhor interpretação prejudicaram a real intenção do concurso. Nesse caso, ponto para os jovens Rafael Figueiredo com o seu “Desafogo” e a espevitada Luriana Barros com “Pensei em tudo, menos no título”, foram lá, declamaram seus poemas (originais e instigantes) e pronto, deixaram os seus poemas serem as verdadeiras atrações da noite. Nesta edição, concorreram 18 poemas na categoria Mérito Literário e 9 interpretações na categoria Performance Cênica, e o grande vencedor da noite foi o estudante da Faculdade São Luís, Ronald Kelps, que conquistou o 1º lugar tanto na opinião do Júri Técnico Literário, quanto na preferência do público como melhor interprete com o poema “Palavras”. No julgamento do mérito literário foram premiados; 2º Lugar: “Modus Operandis: Sobrevivente”, de Móises Abílio Costa; e 3º Lugar: “Negros versos Negros”, de Josélima Machado da Costa . E no julgamento técnico de interpretação a melhor interpretação coube ao jovem José Victor Vieira, que defendeu o poema de sua autoria “Impulsão da Mentira”.
A banca também concedeu cinco menções honrosas para: Jairo Martins dos Santos, pela interpretação de “Insólita Cena”; Raiza Pereira, pela interpretação do poema “Mórtida...”, de sua autoria; Nuno Lilah Lisboa, pela interpretação do poema “Crítica a André Bandeira”, de Thiago Augusto Ferreira Alves (numa interpretação irretocável e que merecia o 1° lugar); Luriana Barros, pela interpretação do poema “Pensei em tudo, menos no título”, de sua autoria; e Hercules de Sousa, pela interpretação do poema “Minha terra além da noite”,de Eduardo Borges Oliveira. O MARANHARTE selecionou alguns para vocês.

Flaviano Menezes

(clique para ampliá-las)



sábado, 27 de setembro de 2008

Encontrando as Pedras XVI

XIV(clique na figura para ampliá-la)Danyllo Araújo é poeta e especialista em Lingua Portuguesa e Literatura.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Caminho das Pedras: Concurso Literário

Estudantes do Ensino Médios e Universitários maranhenses e de outros Estados residentes no Maranhão, podem se preparar para mais uma edição do II Concurso Feira do Livro de São Luís de Litetura. Promovido pelo SESC, o concurso visa premiar textos inéditos, escritos em língua portuguesa, nas categorias CONTO e ENSAIO CIENTÍFICO. Os candidatos deverão encaminhar seu trabalho à Biblioteca Rosa Castro e Galeria de Arte / SESC Administração, de 9 a 30 de setembro. Os estudantes do ensino médio poderão se inscrever na categoria conto, que este ano traz como tema "Arthur Azevedo: Um maranhense nos palcos do Brasil". Os universitários concorrerão na categoria ensaio científico abordando o mesmo tema.
Informações: SESC Adminstração - Galeria de arte - Fone: 3216 3830

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

São Luís - 396 Anos

A capital maranhense, hoje conhecida mundialmente pelos seus casarões imponentes, azulejos portugueses e literatos brilhantes foi entre os anos de 200 e 600 a aldeia dos índios-guerreiros tupinambás que construíram a aldeia de Upaon-Açu. Em 1535, houve a divisão do país em capitanias hereditárias e esta região do Nordeste brasileiro foi dada ao tesoureiro português João de Barros, infelizmente a primeira oportunidade de colonizar a região não deu certo já que a cidade de Nazaré (fundada em 1550) acabou sendo abandonada devido a difícil acessibilidade e a hostilidade dos índios.
Em 1612 Daniel La Touche, conhecido também como Senhor de La Ravardière, acompanhado de cerca de 500 homens, chegou à região para fundar a França Equinocial. A missão foi acompanhada por religiosos capuchinos e a construção de um forte marcaram a data de fundação da nova cidade: 8 de setembro. Logo se aliaram aos índios, que foram fiéis companheiros na batalha contra portugueses vindos de Pernambuco decididos a reconquistar o território, o que acabou por acontecer alguns anos depois. Comandada por Alexandre de Moura, a tropa lusitana expulsou os franceses em 1615 e Jerônimo de Albuquerque foi destacado para comandar a cidade. Dos fundadores restou o nome de São Luís, uma homenagem ao rei francês Luís XIII estranhamente mantida pelos portugueses.


domingo, 7 de setembro de 2008

Encontrando as Pedras XV


O ANIMAL

Era uma manhã normal de domingo, o sol brilhava delicadamente, a manhã transcorria preguiçosa e eu tomava de forma tranquila o café. Minha mãe brigava incrivelmente pela minha incapacidade de levantar da mesa e começar com os afazeres domésticos, na verdade, nunca gostei muito disso, prefiro ficar dormindo ou curtindo uma preguiça cuidadosa, mas, enfim, fui para a luta diária, porém, por necessidade ou por alguma razão oculta aos nossos entendimentos humanos, minha mãe pediu-me para comprar alguns objetos que naquele momento faltavam em casa, sendo assim, me encaminhei rápido para esse trabalho árduo e larguei tudo para cumprir a ordem materna, afinal, temos que obedecer os pais, é um principio bíblico, então fui.
Saí de casa sem muito pensar, afinal comprar papel higiênico, fósforo e farinha não é tão difícil assim. No entanto, caminhando para o local de compra, vi jogado numa calçada um animal, pensei estar morto, me aproximei, mas não tive coragem de tocá-lo, pessoas iam e vinham e parecia não se importarem com o animal abandonado ali. Na verdade, não sei quem era o animal, se as pessoas que passavam alheias à cena ou ele próprio jogado na calçada, como morto, indigente, ele morreu antes da morte física.
Fiquei olhando assustada, não com o morto-vivo à minha frente, mas com a incapacidade humana de sentir compaixão, de pelo menos parar e olhar o ser "morto" na calçada. Em algum lugar está escrito que "nos fins dos tempos o amor esfriará", o amor não esfriará, congelou-se nos corações humanos, não há mais sentimentos, não há nem sequer pena por aqueles que vivem à margem de uma sociedade dita coerente e viva. Estamos tão acostumados a ver cenas chocantes pelos meios de comunicação, que os nossos sentidos ficaram embrutecidos, amortecidos, apáticos das mazelas que nos rodeiam, todas as destruições nos parecem alheias, distantes e continuamos seguindo o ritmo mesquinho de nossas vidas, nem paramos para refletir (não dá tempo) sobre o sentido da vida, do ser, da existência, só se pensa e se reflete nas várias formas de ganhar dinheiro, porque a nossa sociedade é tão desigual que só pensamos em sobreviver e esquecemos de viver.
O Homem se tornou um trapo, escravo, nada, foi coisificado. Realmente podemos dizer que o Homem elevou-se, elevou-se tanto que se perdeu na ambição de querer ser mais e acabou voltando ao estado natural do ser, um Animal, mas não racional, um animal no seu sentido mais puro. O homem que vi jogado na calçada é um homem como você e eu, mas não no seu estado de Homem, mas de animal, puro, instintivo e irracional, se tornou um verme, um cão vadio, naquele momento pude ver o ser desprezível que o Homem se tornou, vi sua essência revelada no "cão" jogado na calçada e também o egoísmo humano nos transeuntes ali. Enfim, é comum. Segui meu caminho, comprei os objetos necessários para casa e voltei pela outra calçada ignorando completamente o "cão" jogado na calçada ao lado.

Mariane Vieira
Graduada em Letras e Pós-graduanda em Língua Portuguesa e Literatura

Encontrando as Pedras XIV

(clique para mapliar)

Marcos Corrêa
Aluno do 5º período de Letras
do UNICEUMA III

sábado, 6 de setembro de 2008

Pedra Peciosa IV - Bandeira Tribuzi

Ao completar 50 anos o poeta e jornalista Bandeira Tribuzi recebeu como presente dos seus conterrâneos e admiradores uma grande festa que se estendeu durante três dias (com exposições, sarais e palestras), na qual o apogeu se deu no Teatro Arthur Azevedo onde os amigos e parentes prestaram uma emocionante homenagem ao filho do comerciante português Joaquim Pinheiro Ferreira Gomes e de Amélia Tribuzi Pinheiro Gomes. No palco, entre escritores como Jorge Amado, Luís Rego, Oswaldino Marques, Ferreira Gullar, Domingos Vieira Filho, Odylo Costa Filho e o pintor Floriano Teixeira e tendo como platéia Josué Montello, Lago Burnett, os membros da Academia Maranhense de Letras, amigos e família, o homem que um dia "entregou sua alma ao céu de Abril e a rebeldia" apenas sorria, com toda a dignidade e grandeza humana que lhe eram atribuído, mas também com um olhar de espanto, como se o ex-seminarista de Lisboa questionasse o real merecimento de tal tributo.
Durante a comemoração, Tribuzi lança seu livro de poesia Breve Memorial do Longo Tempo, na qual, no primeiro poema, profetiza:

Há cinqüenta anos estou
nascendo e hoje
antes que a morte me proíba
de renascer as manhãs,
quero ver a chorar outra vez
pela primeira vez e sentir o gosto
da vida, pela outra primeira vez.

A vida lhe deu mais alguns meses de choro-alegria junto aos amigos do jornal, dos botequins, dos torcedores do moto-clube, dos imortais, dos alunos, dos docentes, dos artistas e da família e no dia 08 de Setembro do mesmo ano o pegou pelos braços e o lvou ao encontro de seus tão admirados e mencionados pais. O dia em que se comemora o aniversário da Cidade de São Luís é também o dia de se lembrar de uma das figuras mais admiradas de nossa terra; o poeta, jornalista, cronista, compositor, professor, economista e teatrólogo Bandeira Tribuzi.

José Tribuzi Pinheiro Gomes nasceu em São Luís, a 2 de Fevereiro de 1927 e muito cedo foi estudar em Portugal para ser um “grande sacerdote’ como sonhava seu pai.
Mas a vida lhe reservava outra postura diante do mundo, e assim, de posse de livros sobre economia, filosofia e literatura (alemã, portuguesa e brasileira) Tribuzi, em 1948 chegava em sua terra natal e em pouco tempo tornava-se o principal expoente das idéias modernistas na Ilha dos Poetas (isso, quase vinte cinco anos depois da lendária Semana de Arte Moderna em São Paulo).
Errôneo seriam afirmar que outros não arriscaram produzir literatura modernista em nossas terras (e aqui vai a lembrando de um pioneiro Assis Garrido) mas todos, como afirmava um certo historiador, “ como alma parnasiana”.
A partir de “Alguma Existência” (seu primeiro livro publicado), Tribuzi agremiará ao redor de si (mesmo involuntariamente) um grupo de jovens entusiastas que mudarão a nossa Literatura. No mesmo ano, juntamente com Corrêa da Silva, J. Figueiredo, Lucy Teixeira, José Brasil e outros criará o pequeno jornal sobre literatura; “Malazarte” (nome da incompreendida peça teatral do maranhense Graça Aranha). Segundo alguns autores, será apenas nesse pequeno periódico que serão publicados os primeiros poemas de Drummond e dos Andrades na “Terra das Palmeiras”.
É concluída também neste ano a peça RosaMonde (o touro da morte) que só será publicado em 1985 e que infelizmente não se tem registro de uma adaptação em nossos palcos, talvez por sua proposta inovadora de combinar tragédia grega com o folclore maranhense.
No ano seguinte surgi a revista literária A Ilha, sendo que desta vez Tribuzi dividirá as responsabilidades (e críticas) com José Sarney (que bancará as edições), Murilo Ferreira, Domingos Vieira Filho, Belo Praga e Lucy Teixeira. Lentamente, outros periódicos surgirão e o modernismo com suas idéias de liberdade de criação se instalará até mesmo entre aqueles que criticavam tal atitude artística. No mesmo ano, casa-se com Maria dos Santos Pinheiro, (seu único e real “porto seguro”) e publicará seu segundo livro de poesia Rosa da Esperança, dedicado “aquela moça falante que discutia filosofia (era formada na área), poesia e política com a mesma desenvoltura”.
Por influência dos amigos começa a trabalhar em jornais (Jornal do Dia e Jornal da Tarde) e paralelamente no DNER (mais tarde será um dos principais economista do Estado criando três planos para o governo da época).
Ao logo da vida publicará obras poéticas, ensaios literários, trabalhos econômicos e centenas de artigos jornalísticos, sempre com uma preocupação clara para com os seus conterrâneos e amigos.
A morte inesperada de Bandeira Tribuzi em 08 de Setembro de 1978 (em decorrência de uma parada cardíaca) encerou uma carreira que parecia ainda está em plena elevação. Visto como umas das grandes mentes brilhantes da política, economia e literatura maranhense, Tribuzi nos deixou um legado lítero-filosófico incontestável.

Texto: Flaviano Menezes

Encontrando as pedras XIII


Os 60 anos da obra poética Alguma Existência, de Bandeira Tribuzi. *

Flaviano Menezes da Costa **

Um jovem poeta e suas primeiras inspirações
Há exatos sessenta anos o público leitor maranhense de literatura passou a conhecer um dos grandes marcos do modernismo em terras timbira. Primeiro obra publicada do escritor luso-maranhense José Tribuzi Pinheiro Gomes (02/02/1927 a 08/09/1977), o livro de poesia Alguma Existência foi recebido pelos colegas e cânones daquele período com um mar de opiniões divergentes entre si, porém com a mesma impressão final, nascia ali um poeta que adentraria audaciosamente na vida de uma literatura maranhense que até então não tivera ânimo de se libertar dos sonetões parnasianos que ainda imperavam na ilha.
Filho de uma brasileira (Amélia Tribuzi Ferreira Gomes) e um português (Joaquim Pinheiro Ferreira Gomes), este, sócio de uma empresa de exportações e importações (a Pinheiro Gomes & Cia) localizada próxima a Praça João Lisboa, Tribuzi ainda pequeno foi para Portugal com o sonho paterno de torna-se um sacerdote (estudando em Coimbra, Aveio e Porto). Porém, apesar de viver em um educandário religioso teve o livre-arbítrio de estudar outras disciplinas e talvez por isso, além de se formar em Filosofia, também alcançou o grau de Bacharel em Ciências Econômicas.
Mesmo com a primeira missa escrita em mãos e com toda consideração que tinha por aquela vida eclesiástica com seus dias calmos, ordenados e produtivos, o jovem brasileiro compreendeu que, o que prevalecia nos suas reflexões vocativas era o Tribuzi questionador que ansiava voltar para a sua terra natal, não como sacerdote, mas como um homem com uma formação humanística disposto a mudar uma realidade injusta tantas vezes descrita em cartas recebidas.
Em dezembro de 1946 desembarca em São Luís não mais o “José Tribuzi” filho do portuga Joaquim, mas o letrado Bandeira Tribuzi, que carregava consigo além dos livros de filosofia, economia e literatura (dentre eles alguns literatos europeus e os já admirados; Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade e o provável responsável pela escolha do seu pseudônimo anteposto ao sobrenome; Manuel Bandeira1) trazia também um pequeno caderno de poesia composto em Portugal intitulado “Canção no Exílio”, provável homenagem ao maior poeta brasileiro e conterrâneo.
Junto com a recepção calorosa dos familiares que o aguardavam no porto da Praia Grande, Tribuzi em um momento de distração e acaso-destino tropeça em uma das amigas que sua irmã levara e depara-se com aquela que viria a ser a sua musa inspiradora durante seus insuficiente cinquentas anos de vida, a jovem Maria dos Santos, posteriormente conhecida como Maria Tribuzi.
Temos então as primeiras inspirações para que Tribuzi produzisse seu livro de estreia; as ideias humanísticas, Fernando Pessoa, Sá-Carneiro, Lorca, Bandeira, Andrade, a saudade da terra natal, a realidade cultural maranhense e a descoberta do amor em Maria. Tudo isso revelada em uma poética de certa forma existencialista e emotiva na coragem lírica desconcertante de um jovem de 21 anos.

Amigos e patrocinadores
Enquanto os escritores da geração de 45 buscavam uma renovação literária cuja uma das principais preocupações era a própria linguagem e as expressões regionalistas, no Maranhão ainda imperava os sonetos parnasianos bradando aos quatro ventos os seus conflitos amorosos e suas aspirações gloriosas. Talvez por isso, quando o jovem Tribuzi defende algumas das revoluções que o Modernismo havia promovido, a recepção dos novos conhecidos não tenha sido o esperado.
Com uma passagem rápida no Centro Cultural Gonçalves Dias (um movimento cultural que agremiava célebres e novos escritores e que ajudou a suprimir o marasmo intelectual da época), por não ter se adaptado com o formato e não se identificar com as discussões estéticas passadistas, Tribuzi percebe que tanto aquela agremiação literária defendida por Nascimento Moraes Filho, Ferreira Gullar, Lago Burnett e os mestres Manoel Sobrinho e Nascimento Moraes (pai), quanto qualquer outra, certamente não lhes dariam a liberdade artística necessária.
Longe da agremiação, mas sempre tendo contato com os colegas adquiridos, principalmente na Movelaria Guanabara (do pinto Pedro Paiva, onde também se discutia arte, porém com mais independência) Tribuzi conhece aqueles na qual ele realmente se identificaria, entre eles; Lucy Teixeira, Erasmo Dias, Floriano Teixeira, J. Fiqueiredo e Cadmo Silva, dois escritores e três pintores aos quais será dedicado o primeiro livro do poeta. Curiosamente não aparece entre os homenageados o nome do amigo José Sarney que posteriormente o auxiliará na produção de alguns jornais e revistas como o Malazarte, também de 48, e logo depois a revista literária A Ilha.
O livro que abriria discussões estéticas na capital maranhense não teve grandes patrocinadores. O Centro Cultural Gonçalves Dias apenas publicava os seus e a Academia Maranhense de Letras somente possuía recursos para informativos literários, Tribuzi por sua vez teve que pedir ajuda aos familiares e amigos, principalmente seu pai Joaquim, um dos seus muitos incentivadores.
A capa foi um presente do amigo Floriano Teixeira, pintor que ainda ilustraria um ano depois as obras de estreia dos moços-poetas Lago Burnett e Ferreira Gullar, que ao contrário de Tribuzi tiveram além do apoio do Centro Cultural, o aval do padrinho-poeta Manoel Sobrinho para as suas respectivas obras “Estrela do Céu Perdido” e “Um pouco acima do chão”.
Nascido no município de Cajapió, Floriano de Araújo de Teixeira (8/03/1923 a 21/07/2000) viveu em São Luís até 1950 quando se mudou para o Ceará e depois para Bahia (onde conheceu os maiores pintores da época e residindo até a sua morte), porém, já levava do Maranhão um conhecimento consistente do expressionismo alemão e do impressionismo francês (adquirido através de alguns livros encontrados na biblioteca do amigo Erasmo Dias). As distorções das formas que se aproxima do caricatural do expressionismo mais do que a apoteose colorida do impressionismo podem ser facilmente percebida nas capas dos livros de Gullar e Burnett, porém, para Tribuzi, Floriano tentou reproduzir o que o poeta representava naquela estação; um jovem arrebatado pela existência de um sentimento tão forte que asfixiadamente chamava “amor”.
Um pouco além da célebre imagem das duas figuras bíblicas exiladas do Éden, pode-se afirmar que o desenho seja a representação de um eu lírico protegendo sua amada (personificada em Maria ou transfigurada na poesia), assim como a rosa no meio do caminho acarretará (depois de uma analise da obra) a relação de vida-harmonia-morte, talvez por isso, esses contornos pictóricos tenham sido idéia do próprio poeta, ele que se orgulhava de ter como ascendência paterna o famoso pinto Domingos Tribuzi, que na metade do século XIX movimentou as artes plásticas em São Luís.

Um certo título para alguns poemas
Não se tem registro ou depoimentos sobre o porquê da escolha do título Alguma Existência, o que se pode especular é que, sendo leitor do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, possivelmente tenha o nosso poeta se inspirado no titulo do primeiro livro de poesia daquele. Alguma Poesia foi publicada em 1930 e para alguns teóricos marca o início da segunda geração do Modernismo no Brasil, continuando as revoluções estéticas iniciadas por Oswald, Mário, Ronald e Manuel Bandeira. Além disso, temos alguns aspectos mais evidentes da herança (ou influência) deixada por Drummond em Tribuzi que seja na supressão da pontuação e na visão prosaica do cotidiano, seja do humor e na repetição proposital de termos.
Outro poeta, este português, que também influenciou Bandeira Tribuzi foi Fernando Pessoa. O poeta dos heterônimos publicou seu único livro em português em 1934 e certamente o jovem maranhense se encantou com essa epopeia moderna chamada Mensagem, não sendo difícil notar a preocupação singular de ambos com o tempo e com a própria função da poesia que inicialmente obscurece para depois infinitivamente iluminar. Nesse tocante, é válido lembrar que Tribuzi é considerado por muitos pesquisadores maranhenses como o primeiro divulgador de Pessoa no Estado, e a influência daquele perpassou o oficio de Homero no que tange uma vida dedicada a várias atividades, enquanto Pessoa foi tipógrafo, empresário, tradutor, jornalismo, economista e inventor, Tribuzi por sua vez será jornalista, economista, compositor, professor e pai.
Considerado um dos mais ousados renovador da poesia russa no século XX, o futurista Vladimir Maiakovski, filiou-se ao partido bolchevique (Moscou) ainda jovem e sempre abrigou em suas obras temas que instigasse as ideias inovadoras ("não há conteúdo revolucionário sem forma revolucionária"). Em sua poesia Tribuzi encontrou “uma representação em que as palavras se relacionam mais por suas equivalências sonoras e por sua localização gráfica na página do que por seus valores gramaticais”2, assim como um personagem sem nenhuma consideração pela divisão em temas e vocábulos “poéticos” e “não-poéticos”, mas com um posicionamento política extremamente consciente, postura esta que o nosso poeta teria que tomar poucos anos depois quando será convidado a ser redator-chefe no Jornal do Dia.
Com propostas, sem pontuações
Ao logo dos 40 poemas que compõem Alguma Existência, viajamos por um mundo de novas sensações, de mistura de dúvidas, evocação do novo, esperança na igualdade e a procura de uma forma próprio de se fazer anunciar. Algumas das composições apresentam como título apenas os patentes “Poema” ou “Soneto” sugerindo que, ao artista faltasse tempo ou uma preocupação maior para elaborar títulos supérfluos enquanto novos versos brotavam ininterruptamente em sua sensibilidade. Mas tarde alguns desses receberiam títulos como “Nosso Mundo” e “Programa”.
Em Poema, composição que abre o livro, já na primeira estrofe Tribuzi expressa o seu afeto por sua Maria e sua oposição tácita as regras ludovicenses. Vejamos o poema:

Entrego minha alma ao céu de Abril e à rebeldia
Descanso meus passos na sombra perdida no vão da memória
Meus braços repousam em teu corpo claro e azuis pensamentos
florescem dos olhos afeitos enfim à feição do milagre
O silêncio surge: - farrapo de nuvem cor-de-rosa e débil
e o ouvido apreende a canção sem rumor que em teu rosto perpassa
Maria claríssima de carne completa Meu corpo duplo
se perde em teus olhos teus seios teus lábios se encontra em teu sexo.”
3
O primeiro poema da obra, como se percebe, foi composto em São Luís, como se o autor quisesse sacramentar o fim de uma vida no exílio e o começo de uma outra nos braço de sua companheira, sem se esquecer de sua condução de homem-político como explica o também obstinado Nauro Machado:
“A um céu de abril corresponde a manhãs claras de uma Maria claríssima de carne completa, e à rebeldia que seria doravante o eixo sobre o qual girariam as molas e engrenagens frementes de uma ideologia a ganhar a estrada do amanhã, antevista por um homem corporal como os demais [...].” 4
A mesma Maria aparecerá como imagem dúbia de desejo (“Teus seios ásperos fendem o ar de uma carícia incrédula”
5), benfeitora (“E se posares a face em meu peito ou teus cabelos traçarem no ar a ternura mais tépida ficará sem limites e inconcreta a paisagem onde meu coração somente será rubro como a rubra malícia de teus seios” 6), como insígnia da fertilidade (“O vento estagna, o tempo pára para te olhar. Ó virgem fértil” 7) ou simplesmente a mulher imperfeita e pronta para ser adorada, como neste poema:

Quero só uma flor
para dar à metafísica
Quero só que o trigo
surja até da pedra
Quero só que o poeta
cante quando precisa
Quero só tudo
na verdade escondida
E quero que tu sejas
Como és Maria.
8
A eterna dialética filósofo-poética “eu x mundo” também será abordada em alguns poemas, mas ao contrário dos poetas modernistas mais antigos há uma ironia mais ácida sobre o cotidiano, como se o autor tentasse enfrentar o mundo (ou a sociedade local !?) de frente, sempre de braços dados com o lírico, dando a velha reflexão da natureza humana um toque de rebeldia (“E uns homens disseram: - que brutalidade. Só porque a verdade se tornara simples e as palavras seu sentido exato” 9).
Tribuzi também consegue exaltar sua terra e ser cosmopolita ao mesmo tempo. Ao mencionar a Grécia, Portugal e outros lugares menos específicos (mas não tão adjacentes), o poeta nos mostra um planeta tão diversificado quanto, as vezes, social e filosoficamente próximo, como se todos os percursos poéticos devessem nos levar a uma resposta na ideia utópica da igualdade. Temos assim, um sujeito poético sempre se mostrando inquieto com a indiferença sobre o novo e o desprezo para com o outro.
Em 1995 a professora Sonia Almeida publicou o livro Tribuzi, bandeira poética de São Luís, em que apresenta um oportuno trabalho de análise de alguns poemas de Bandeira Tribuzi, incluindo também a canção “Louvação a São Luís”, que ganhou o 1° Festival de Música Popular Maranhense e tornou-se o hino da Cidade dos Poetas. Do primeiro livro, o poema escolhido foi Recado para a poesia, em que o autor aparentemente apenas quer expressar a sua experiência poética.
Só vens quando me dóis
Ou a manhã é excessiva
Eu te queria sempre
junto de mim por tudo
no mínimo – suave e tão benéfica
Que fosses a mão terníssima
e de teus olhos brotasse a luz para os tempos confusos
e de teu ser imponderável a coragem de vida
Vem poesia
Perdi minha mãe muito precoce perdi a caricia
perdi o sorriso turvei o rosto claro
Que vai ficar de mim de encontro aos nossos dias ?
Vem poesia sem medo porém com pudor
Dilui em pureza ou em lágrimas a rudeza dos tempos
Áspera e dura que venha – Vem Poesia
10

O autor evoca a poesia como um anestésico contra os dias obscuro e a solidão que carrega desde a infância que se materializa no depor da carência e da ausência materna. Porém, seria na própria dor e na necessidade ser reservas, que ela (a poesia) se aproxima do eu lírico. Nesse diálogo do poeta, diante de seu mundo objetivo, necessitando da poesia evocada para gerar luz em dias confusos, revela o plano da enunciação e instaura a Metalinguagem do momento anterior ao enunciado do poema, mas que já é processo. Processo que no poema já está revelado.
11 Os poemas, aparentemente difícil e, paradoxalmente popular (pois fala de sentimentos de dor, amor e desejos carnal e sublime), tem a seu dispor aquilo que os modernistas chamavam de “um processo de interrogações, negação e renovação”, quando Tribuzi concebe uma investigações (através de poucas, mas atuais temática poética) da existência, com implicações metafísicas e sociais.
Desde a sua publicação, o livro vem recebendo espaço quando o assunto é Literatura Maranhense contemporânea. Vejamos algumas declarações sobre o livro:
[...] seu livro de estréia “Alguma Existência”, com poemas muitas vezes sem vírgulas, pontos ou outros quaisquer sinais lingüísticos utilizados para o discernimento linear da frase vocabularmente castiça e pura e no classicismo avesso a qualquer experimentalismo [...] a principio deve ter encontrado somente mofa e escárnio por parte daqueles que cultivavam civilmente o solene soneto parnasiano [...]12

Foi um dos maiores acontecimentos literários de São Luís nessa década [...] O livro tornou-se pedra de toque de todas as conversas e discussões literárias, e também pedra de escândalo para muitos. Exagero não seria afirmar que igualmente Alguma Existência tornou-se pedra angular da nova poesia maranhense.
13

Apesar de estréia,seria compreensível que apresentasse falhas e evidenciasse influências de outros autores. Porém, nenhuma dessas hipóteses verificamos em Alguma Existência que se impõe no contexto acadêmico pela sua alta qualidade literária.
14
Alguma Existência já nos dá poemas muito bons, Tribuzi exercendo neles a consciência poética que encontraria sua definitiva solidez no segundo livro “ Rosa da esperança”.
15
Bandeira Tribuzi anunciava, no primeiro livro, o complexo de potencialidade de que dispunha – talento poético, educação técnica e abertura para o real, componentes que, reunidos e em constante superação, sedimentariam uma aventura criativa, emergente como uma promessa de quem, somando duas décadas de alguma existência, conseguia linear, pela intervenção renovadora, um processo de adequação literária do Maranhão às conquistas do modernismo [...].
16
O que se percebe observando essa primeira e exemplar obra de Bandeira Tribuzi é o seu audaz caráter de não ter se deixado submeter pelo tempo. As palavras se tornaram donas de si e deliberadamente, eternas. Tornaram-se reflexos de afeição a justiça, confiança, humildade, solidão, fecundidade e ao próprio ato poético.


* A primeira edição é de 1948, tendo posteriormente aparecido em duas publicações póstumas; Poesias completas (Rio/Brasília, Cátedra/INL,1979) e Obra poética (Ed. Siciliano: São Paulo, 2002).
**Graduado em Letras (UniCEUMA) com especialização em Língua Portuguesa e Literatura (FAMA) e graduando do curso de Filosofia (UFMA)

1 Existem também outras duas teorias para o surgindo do pseudônimo, a homenagem aos bandeirantes brasileiros da qual o poeta sempre admirou e a escolha do nome por um simples encanto eufônico da palavra, como afirma Carlos Cunha na obra Memória e iconografia de Bandeira Tribuzi (1979)
2 SCHAIDERMAN, Boris. Poesia Russa Moderna.Brasília; Editora Brasiliense, 1985, p. 1112.
3 TRIBUZI, Bandeira. Alguma Existência. Ed. Correio da Tarde: São Luís, 1948. p.4.
4 MACHADO, Nauro. As esferas lineares; 4 estudos maranhenses.Edições SECMA: São Luís, 1996, p. 14.
5 TRIBUZI, Bandeira. Obra poética. Ed. Sciliano: São Paulo, 2002. p.47.
6 __________. Obra poética. Ed. Sciliano: São Paulo, 2002. p.50.
7 __________. Obra poética. Ed. Sciliano: São Paulo, 2002. p.56.
8 __________. Obra poética. Ed. Sciliano: São Paulo, 2002. p.43.
9 __________. Obra poética. Ed. Sciliano: São Paulo, 2002. p.60.
10 ALMEIDA, Sonia. Tribuzi, bandeira poética de São Luis. LITHOGRAF-Industria e Editora Ltda: São Luis, 1995, p. 27.
11 _____________. Tribuzi, bandeira poética de São Luis. LITHOGRAF-Industria e Editora Ltda: São Luis, 1995, p. 27.
12 MACHADO. Nauro. As Esferas Lineares.Edições SECMA: São Luis, 1996. p. 12
13 MORAES, Jomar. Tribuzi: homem comprometido com seu tempo e sua gente. Homenagem. SIOGE: São Luis, 1978.
14 CUNHA, Carlos. As lâmpadas do Sol. Cia Editora Fon-Fon e Seleta: Rio de Janeiro, 1980, p. 30.
15 CRUZ, Arlete Nogueira da. A Atual Poesia do Maranhão. Gráfica Olímpica Ed. Ltda.: Rio de Janeiro, 1976, p. 105.
16 CORRÊA, Rossini. Pela cidade do homem (uma interpretação de Bandeira Tribuzi). Edições UFMA: São Luis, 1982, p 32.

Encontrando as Pedras XII

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Flaviano Menezes é professor e granduando do Curso de Filosofia (UFMA)