sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Maranharte- Documentos e Obras Raras: Malazarte


Digitalizado ao lado está a primeira página do mensário cultural Malazarte, editado em São Luís em 1948 e que representou um dos marcos do início das idéias modernistas no Estado. Posteriormente, disponibilizaremos as edições em formato pdf, pois, nessa estrutura ‘blogosfera” temos ainda poucos recursos multimídia.

A primeira edição do Malazarte saiu em 29 de Julho de 1948 e no texto do editorial tem-se o porquê da homenagem ao escritor e diplomata Graça Aranha;

“Após haver publicado em Londres, em 1902 esse estupendo romance que é Canaã, soberba obra de filosofia e sociologia, de poeta e pensador, Graça Aranha publicou em Paris, em fevereiro de 1911, Maranharte, drama simbólico e indílico.

[...]

Um pequeno grupo formado de alguns dos modernos artistas e escritores do Maranhão atual achou, em boa hora de homenagear Graça Aranha, dando o nome do seu consagrado poema dramático a este mensário de cultura, que ora é oferecido ao nosso público leitor.

Tal arrancada, pela sua audácia, estamos certos, causará admiração e talvez até contrariedades, pequenas ou grandes. No entanto, eis uma realização que merece louvor, principalmente tendo em vista a indiferença já tradicional do meio diante de empreendimentos como o que no presente momento é iniciado.

[...]

O “empreendimento” de que profere o autor é nada menos que a estética modernista que já estava sendo desempenhada por alguns moços-artistas da cidade, e que, como os leitores do Maranharte já devem ter lido em alguns artigos aqui publicados, só foi divulgado (de forma menos acanhada) em 1946 com a chegada de Bandeira Tribuzi.

A direção do mensário era composta por Corrêa de Silva (poeta), Bandeira Tribuzi, J. Figueiredo (pintor) e José Brasil (teatrólogo). Colaboraram: Erasmo Dias, Lucy Teixeira, Carlos Madeira, Domingos Vieira Filho, Lago Burnett, José Sarney, entre outros.

É relevante também ressaltarmos que, na década de 30 houve o Cenáculo Graça Aranha, grupo estimulado por Antônio Lopes. Contudo, as promessas efervescentes de uma renovação da literatura maranhense não se concretizaram, houve um certo alvoroço quando a proposta da abolição do antigo sistema literário e artista, mas alguns literatos como Josué Montello, Oswaldino Marques e Odylo Costa Filho resolveram aperfeiçoar seus talentos em outras capitais.

Segundo Rossini Corrêa na obra-bibliográfica Pela Cidade do Homem, uma interpretação de Bandeira Tribuzi (1982, p.34)); “Foram esgotados, em menos de dois dias, todos os exemplares do primeiro número, onde escreveram intelectuais do contexto pré-45, como Flanklin de Oliveira, Oswaldino Marques e Erasmo Dias (o qual experimentou profunda ascendência sobre a formação literária e jornalística da “geração de 45” no Maranhão). Na seção “Poetas do Brasil”, foram publicados poemas como “Vou-me embora pra Pasárgada” (de Manuel bandeira) e “A Serra do Rola-Moça” ( de Mário de Andrade).

Outro autor maranhense homenageado neste primeiro número é o teatrólogo Artur Azevedo, “homem honesto e boníssimo” e “incontestavelmente, o escritor nº 1 do teatr maranhense” como distinto o autor (anônimo) da pequena biografia. A arte que aparece nesta primeira página é uma xilogravura de J. Figueiredo, produzido especialmente para a edição. Outra curiosidade está nas ‘chamadas” para o lançamento da obra poética Alguma Existência, de Bandeira Tribuzi, obra-marco do inicio do modernismo no Maranhão.

Nas poucas edições o jornal soube dosar as obras poética, como as críticas literários, os contos, as pequenas homenagens (mostrando uma consciência histórica que ia além das reivindicações estéticas) e respeito aos que ainda não absorviam sua inspirações nas fontes das propostas modernistas, como é o caso do Lago Burnett no seu poema Chuva.

O céu está se acabando

Como gelo.

Virou água

Virou chuva.

Todo homem, agora,

Pode beber o céu

Na concha das mãos.

Como gelo.

No entanto, a proposta era sim, mostrar uma possibilidade modernista que não poderia mais ficar de fora nas produções literárias do Estado, talvez por isso, não é de se estranhar que Tribuzi a partir do Nº 2 do jornal inicia uma “definição do modernismo” de forma mais didática possível, tentando mostrar .

“Aquele movimento artístico de que Graça Aranha e Anita Malfatti foi complemento circunstancial e veículo apresentou-se em 1922, na já histórica Semana de Arte Moderna, com todas as características da revolução que tem raízes no complexo social-econômico; idealismo, coragem e gosto de destruição. A inquietação social promovendo as inquietações religiosas, filosóficas e morais, vai refletir-se na arte por uma inquietação, correspondente que se caracterizará pelo “conhecimento que não está certo” e abuso de descobertas ainda não investigadas. Significa isto que, o primeiro período da revolução modernista se caracterizou, como não podia deixar de ser, pelo prazer de liquidar uma literatura e arte decadentes. [...]” (13/07/48, p. 1 e 6)

A definição, propostas e exposição dos principais autores do modernismo continuarão nas outras edições do Malazarte, o que nos faz deduzir que, até aquele momento realmente não houve uma preocupação por parte dos literatos de apresentar tal proposta artística. Algo que não devemos resumir apenas aos estados Norte/Nordeste do país. É também de 1948 o jornal SUL – Revista do Círculo de Arte Moderna, de Santa Catarina, que se apresentava como primeiro periódico de proposta modernista daquela região e que possuía como colaboradores; Aníbal Nunes filho (diretor), Salim Miguel, José Medeiro Vieira, entre outros. Não há muita diferença entre os dois jornais, entretanto, a Sul também trata de assuntos espinhosos pra época, como; política e educação. Possui uma qualidade gráfica melhor e também é ilustrada com fotos, talvez por isso a diferença de preço: esta custava Cr$ 2,00, a Malazarte; Cr$ 1,00.

O semanário foi tão revolucionário quanto se propôs no primeiro número e apresentou para a sociedade ludovicense aqueles que alguns anos depois se tornariam os grandes nomes das letras em nossa terra, com muitas proposta e nenhum empecilho tão grande quanto seus talentos. Como proferi Corrêa da Silva em “Legenda” publicado no Nº 2 do mensário.



O teu verso deve sair da tua pena

solto e simples, livre e claro, espontaneamente,

naturalmente.

Não

prendas nunca o teu pensamento de homem independente

ao ergastulo da rima

e jamais escravas tua emoção, nova

aos grilhões dos ritmos do metro !

Olha bem a terra onde nasceste;

Vibração e movimento,

alegria e agilidade,

liberdade e sol !

Deixa que o teu verso moço

faça lembrar

o vento correndo em disparada pelo espaço;

frutos maduros rorejados de orvalho matinal;

folhas secas cirandeiando no ar;

rosas caindo desfolhadas do hástil;

uma onda que se desfaz em renda de espuma

sobre o tapete das areias tostadas da praia;

cantos de pássaros felizes;

estrelas brilhando no azul;

águas correntes de fonte puras;

risos inocentes num rosto de criança

ou a música eterna e sem par

dos mendigos boêmios e dos errantes vagabundos.

Lembra-te

que o teu verso tem que traduzir

sempre, fielmente,

a indisciplina da tua imaginação criadora!

Legenda, de Corrêa da Silva


pesquisa: Flaviano Menezes

domingo, 20 de dezembro de 2009

Opinião de Pedra: José Neres.

MERAS COMPARAÇÕES

José Neres*

Algo que sempre me impressionou em nossa imprensa é o caderno de esportes. Ma-ra-vi-lho-so! Incrível como nossos jornais acompanham os eventos esportivos... Dependendo do horário em que termina a competição ou premiação esportiva, na edição seguinte do periódico, temos, estampados, em letras garrafais, os resultados, os nomes dos atletas mais destacados e fotos, muitas fotos... A equipe de esportes parece estar sempre preparada para os chamados furos de reportagem. Basta um atleta especular que mudará de clube e lá está a notícia em destaque, geralmente precedida de uma chamada na primeira página. Basta um craque da moda se pronunciar sobre determinado assunto que logo tal comentário é debatido, dissecado, esmiuçado por especialistas no assunto. Tudo em uma velocidade impressionante! Realmente, os cadernos de esporte mostram em suas páginas e entrelinhas toda a velocidade que a imprensa tem quando há um interesse em divulgar as notícias.

Por outro lado, sempre me causou tristeza e estranheza lentidão dos mesmos jornais quando se trata de comentar os eventos culturais locais. Excetuando-se os casos raros (raríssimos, na verdade), os periódicos sofrem de carência crônica de papel e de jornalistas para a cobertura de peças teatrais, lançamentos de livros, resenhas sobre as obras publicadas, divulgação de músicas e filmes que não façam parte do circuito das grandes distribuidoras, palestras, recitais... As páginas tidas como destinadas à cultura costumam ser descartadas aos primeiros sinais de crise econômica ou editorial e, a cada dia, emagrecem a olhos vistos, deixando a impressão de que não há notícias recentes, além daquelas que englobem a mercadológica e lucrativa indústria da cultura de massa.

Nada contra o esporte, o qual considero umas das melhores e mais saudáveis formas de inclusão social, mas se há verbas e profissionais disponíveis para os cadernos esportivos, para os luxuosos e coloridos encartes sobre atores, novelas e personalidades do meio televisivo, se há disponibilidade de espaço para as picuinhas amorosas de atores e atrizes, porque será que falta espaço tempo e dinheiro para falar de arte e de cultura? Será falta de patrocinador? Será falta de público consumidor? Ou será a tal da falta de vontade para com o que não trará lucro imediato? Perguntas sem resposta!

Para ilustrar o que foi dito nos parágrafos anteriores, relembro alguns fatos recentes. Horas depois da já tradicional premiação de “Atletas do Ano”, o Caderno de Esportes fazia uma síntese do acontecimento, detalhando a atuação de cada um dos ganhadores e com direito a um pôster que ocupava as páginas centrais do encarte. Semanas antes e um dia após a referida festa esportiva, houve a III Feira do Livro de São Luís e dois lançamentos coletivos das obras vencedoras do Concurso Literário Gonçalves Dias. Sinceramente não me lembro de ter encontrado em nossos jornais um destaque significativo para tais eventos. Não me recordo de ter visto uma cobertura aprofundada a respeito dos participantes da Feira ou dos lançamentos, nem mesmo de ter visto a fotos dos palestrantes ilustrando artigos relativos ao assunto.

Alguém poderia argumentar que os escritores reunidos não tinham renome nacional, que poucos eram conhecidos além dos limites da província natal. Mas essa ideia esbarra na constatação de que os atletas que tiveram ampla cobertura, com direito até a cupons para votação durante dias e dias, também não são conhecidos da maioria do público leitor dos jornais. Indicados por suas respectivas federações, alguns guerreiros do esporte saíram da premiação sobraçando o troféu, mas ainda continuavam e continuam com seus feitos praticamente desconhecidos até mesmo quem preencheu o formulário de votação sem ter noção sobre as reais habilidades dos concorrentes. Mesmo assim, auditório estava lotado, para o bem do esporte.

Por outro lado, na segunda parte do lançamento do Plano Editorial da SECMA, realizado no Museu Histórico e Artístico, mesmo com a presença da “nata intelectual”, como assinalou o Secretário Luís Bulcão, e de autoridades políticas, o público não foi suficiente para lotar o recinto. Também não me lembro de ter visto os escritores perfilados para uma foto oficial que fosse ilustrar as páginas centrais de um caderno cultural dos próximos dias.

Mas o importante é sempre ter em mente que Esporte e Cultura são essenciais para a formação de um povo e que, com ou sem divulgação, continuarão seus caminhos em busca da divulgação de seus valores.

OBS: É importante destaca o esforço do editor e escritor Alberico Carneiro, que em seu suplemento, tenta resenhar as obras publicadas nos eventos literários de nossa cidade.

* Professor Universitário em São Luís - MA

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Maranharte Informa: XII Encontro Maranhense de Estudantes de Letras - EMEL

Reconstruindo a Atenas Maranhense: um novo olhar sobre o Maranhão das Letras

Acontecerá em São Luís, no período de 15 a 18 de janeiro de 2010 no Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal do Maranhão - UFMA, o evento que pretende reunir os alunos do curso de Letras de todo o estado em torno de um mesmo tema: “Reconstruindo a Atenas Maranhense: um novo olhar sobre o Maranhão de Letras”. Serão ministrados minicursos, conferências e oficinas. O Encontro contará com grupos de discussões, mesas políticas, comunicações orais, feiras e noites culturais. As inscrições, que começaram no dia 05 de novembro, vão até o dia do evento.

Informações: http://emel2010.blogspot.com/

Literatura, câmera, ação: Artur Azevedo II



fonte: Contos da Meia-noite, da rede TVE.
Conto de Arthur Azevedo e interpretador por Mathues Nachtergaele.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Encontrando as Pedras XXXVI

Eu vi um poeta

Pessoas. Livros. Curiosidade. Calor. Cadeira. Mesa. Livro. Poeta. Anonimato. Feira do Livro. Será que alguém viu um poeta? Estranho fazer esta pergunta, não é? É. É realmente muito estranho, principalmente quando estamos na capital que já foi chamada de Atenas Brasileira e pior ainda quando estamos falando de um evento que reúne vários literatos da cidade e os de fora dela. São Luís respira literatura. Será?
Cheguei atrasada a feira do livro, um dos maiores eventos literários do estado, não menosprezando outros, mas este é especial, por razões que a própria razão desconhece, o importante é que nele entro em êxtase, tenho vontade de abraçar cada poeta e roubar cada livro exposto nos estandes, afinal, dinheiro pouco, livros muito caros, mas isso é outra história. Como ia dizendo, estava atrasada para encontrar uns amigos, vasculhei cada canto do Espaço Cultural e nada, não os achei, mas encontrei outra coisa, na verdade esbarrei com ele, quase um acidente, tropecei no pé da esposa dele, ninguém viu, aliás, ninguém o vê há muito tempo, anda escondido no meio da multidão, oculto, anda de cabeça baixa, despercebido pelos transeuntes, mais bem lembrado quando se refere a eventos na praça que leva o nome dele. Será que o viram ali, sentado naquela cadeira? Será que o viram lendo o jornal tranquilamente e nem parecendo ligar para as pessoas ao redor? Ninguém pareceu vê-lo, nem ele pareceu ver ninguém, estava tão absorto na leitura, relançava um livro, muito interessante, Esferas lineares, será que alguém conhece? Alguém sabe de que se trata o livro? Se não sabem dele como saberão sobre o que ele escreve? Pouco importa na verdade.
Uns acreditam que ele está morto, outros nem se preocupam em saber quem é a pessoa homenageada em uma das praças da cidade, e é porque bebem na escadaria todos os dias debaixo, praticamente, das barbas dele e na realidade seguem até o exemplo dele sem o saber, pois é boêmio, bebum, como preferem chamar alguns, não importa, isso não desfigura o valor que ele tem.
Fiquei algum tempo ali, parada, observando-o. Olhei-o atentamente, está velho, doente, cansado. Fiquei imaginando, como todas às vezes que o encontro pelas ruas da cidade, como aquele velhinho, aparentemente tão frágil e simples consegue criar poesia tal e de uma complexidade como poucos, um dos maiores sonetistas do país (sem exagero) que muitos criticam, por ainda ele fazer sonetos, mais eu acredito que os verdadeiros poetas são aqueles que conseguem fazer sonetos, pois versos livres qualquer um faz, até eu, que por vezes ensaio escrevinhar poemas, mal desenhados admito, mas soneto, nunca tentei, só os poetas, como ele. Fiquei imóvel, ali, vendo ele praticamente sozinho, ele e a esposa, escritora também, ninguém chegava perto, um, que movido pela curiosidade encostou-se à mesa, mas logo foi embora, não era importante, ninguém o viu, ninguém reconheceu o poeta ali sentado, tranquilo, relançando um livro. Só eu parecia vê-lo e admirava-o, porque ele odeia se expor, se estava ali era obrigado a isso, precisava, mas ninguém, ninguém o viu, só eu, só eu e eu fui procurar meus amigos e deixei Nauro Machado sozinho, porque poeta é duro e dura e consome toda uma existência.

Mariane Vieira

Opinião de Pedra: Alberico Carneiro, Antonio Aílton e Ivan Pessoa

Periodicamente reproduzimos alguns artigos publicados no Guesa Errante, o suplemento cultural e literário do Jornal Pequeno (e tornando a laureá-lo: único voltado para a nossa literatura). Citações estas que já foram autorizadas pelo editor do suplemento; o escritor Alberico Carneiro, que apenas pediu que não esquecêssemos de citar os devidos autores e fontes. Desta vez o Maranharte foi um pouco mais “atrevido”, reproduzindo a edição de Nº 213 (10 de dezembro de 2009) quase na íntegra - O porquê? Leiam vocês mesmos.

Editorial

Por mais que as evidências já tenham consagrado a Literatura como a forma de arte que projetou e projeta o Maranhão, tornando-o um Estado reconhecido nacional e internacionalmente em função de seus notáveis poetas, jornalistas, romancistas, ensaístas, críticos e cientistas, os poderes públicos, através de suas instituições culturais, insistem em ignorar essa tradição, negligenciando os compromissos e obrigações para com essa tradição cultural mais expressiva da maranhensidade. E mais uma vez, neste ano de 2009, a Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão deixa, inexplicável e injustificavelmente, de dar curso ao Plano Editorial Gonçalvesa Dias que, no ano passado, através de concurso literário, classificou, premiou e editou mais de vinte escritores, tendo ficado, inclusive, os livros prontos para serem lançados. Enquanto isso, descaracterizando-se o folclore maranhense, em sua tradição de cultura popular mais reconhecida, cria-se o Bumba-Ilha, tipo de Boi de trio elétrico, inclusive, sob o pretexto de divulgar o Turismo do Estado do Maranhão. Ora, me comprem um bode! , exclamaria o escritor mais inocente deste país, que insistem em manter como terra papagalorum, como se o povo maranhense quisesse ser alimentado por regurgitação, como pelicano. Pode-se, então, derramar uma dinheirama para diversão, distraindo o povo, quando se negligencia consuetudinariamente a Literatura. E o pior é que tal procedimento não é um vício de hoje. Basta prestar atenção e se constatará que os escritores, neste Estado, porque, com justa razão, sempre foram idologicamente aqueles modelos de cidadãos que os dirigentes das instituições culturais não têm como padrão, politicamente são de oposição a tudo que visa usar e premiar a ignorância ou a ingenuidade popular como massa de manobra. Sim, escritores e professores pensam e contribuem para que o povo pense, logo são indigestos ao controle e poder.

Nada contra o folclore, que é coisa nossa, mas tudo contra a descaracterização e os fins para que, suspeita-se, é usado. Por isso, na aurora dos 400 anos de Fundação de São Luís, é bom alertar a classe de escritores com aquela convocação irrecusável de Unamo-nos contra essa política cultural fascista do populismo e do protecionismo que já vai para três décadas de caveira de burro. Chega de usar o Folclore como trampolim eleitoreiro. Não é bom, é imperativo que o povo seja respeitado em suas tradições e não se deixe usar e desrespeitar.

E lembrem-se, os escritores que ora são lançados pelo Plano Editorial Gonçalves Dias não são safra deste ano de 2009. Muito pelo contrário, são o resultado de Projeto criado e executado pelo Núcleo de Literatura da SECMA/2008, constituído por Alberico Carneiro, Nauro Machado, José Maria Nascimento,Wilson Martins, Antonio Aílton e Zema Ribeiro. E o Guesa Errante tem o subido prazer de divulgar uma das melhores safras literárias dos últimos tempos, resgatada, nesta edição, pelos escritores Antonio Aílton e Ivan Pessoa. Deve-se conferir e dar os créditos a quem de direito. Pelo menos em Literatura o povo sabe e saberá quem é quem. Literatura não se faz com demagogia, mas com talento e invendível sacrifício.


CHAGAS VAL, FLAMES e FELIPE KALYMA: Poéticas imagens do simbólico

Antonio Aílton*


O escritor é um sujeito de certo modo sistemático, ele quer abraçar o mundo com suas palavras, reunir as coisas sob um dizer e um sentido que ele supôs achar, mesmo quando os elementos são diferentes ou díspares. É o que estou tentado fazer agora, com grande prazer. Acabo de receber três livros e um dever de casa administrado pelo querido mestre Alberico Carneiro. Um livro de poesia, um ensaio sobre um escultor maranhense e uma narrativa infanto-juvenil. E começo a namorar esses três livros, para sentir sua carne e ouvir o que eles me sussurram, para que ponham palavras na minha boca, para que minhas palavras possam dizer um mínimo de sua sagrada beleza. Eu tiro as sandálias, um livro, mesmo em tempos de “perda da aura” ou mesmo que muitos olhos o ignorem, é sempre um terreno sagrado: no meio deles há cardos e sarças ardentes, eles fluem, flamejam, eles nos ressignificam no voo para além da materialidade das folhas, e nos convocam: “que tu inflames!...” Eu começo a me achar: esses livros são completamente diferentes uns dos outros, mas há qualquer coisa de simbólico que une a voz que cada um traz de sua origem.

Um escritor deve começar do começo, e sempre partir de pés descalços.

Os três livros foram recentemente publicados pelo Plano Editorial SECMA – Prêmio Gonçalves Dias de Literatura. O livro de poesias Escritura do Silêncio é do poeta maranhense Chagas Val, poeta no sentido pleno da palavra, em vida e obra, cujo respeitável trabalho já perfaz quase quarenta anos. Autor de livros como Chão e Pedra (1972), Teoria do Naufrágio (1987) Floração das Águas (1992) e O Código do Vento (2004), dentre outros, tem suas publicações, na grande maioria, realizadas por via de concursos ou seleções de corpos editoriais, o que dá bem uma ideia do valor de seu trabalho. O ensaio de Flames Lima tem como título A Temática Feminina na Produção Escultórica de Celso Antonio de Menezes. A autora, licenciada em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Maranhão – UFMA, vem construindo uma história nas artes plásticas maranhenses, através de exposições e pesquisa, naquele itinerário que este Maranhão de Deus permite a seus artistas. A Águia e a Coruja é uma ficção infanto-juvenil amorosa e alegórica de Felipe M. Kalyma, um estreante (salvo engano) já senhor de sua proposta.

Não gratuitamente, o prefaciador de Chagas Val é um artista plástico, Victor Rego, que também assina a capa do livro e que é muito feliz em captar o fluido universo imagético do poeta. A orelha do livro é do professor, editor e também poeta Alberico Carneiro, num texto, não sem motivos, encantado e encantatório, a que chamou Escritura do silêncio: a odisseia dos minúsculos. Explorando a leveza e a ternura com que Chagas Val construiu seu “projeto ficcional poético”, Alberico aponta o elo que o poeta constrói entre seres humanos e um fantástico microcosmo vegetal e mineral que desabrocha em fluidos folíolos que se iluminam, tenuíssimas sombras e dedos de ventos que despontam no vértice das manhãs. Segundo Alberico, “Chagas Val nos convida com sutileza e ternura a entrar nesse jardim do Éden, a percorrer as campinas, a meditar à margem dos cursos d’água, a perceber o nascer, o crescer e o desabrochar dos caules e dos folíolos, o abrir-se de uma rosa em pétalas, que com ternura doma a tempestade.”

Eu gostaria, entretanto de descer um pouco ainda essa vau, até o rio a que Val nos conduz, até esse reino aquático a que tudo pertence, mesmo os vegetais, mesmo o branco papel em cujo silêncio branco o poeta mergulha, ca-in-do, branco, branco na Vertigem. O que são essas flores que ele acha no fundo do silêncio, no fundo do universo que resgata para nos trazer à tona? Pura superfície de um espelho. “O ser votado à água é um ser em vertigem”, diz Gaston Bachelard. Dessa água límpida, de quem que só chega à terra (úmida) por via da água, o universo torna-se, então, jardim do mínimo, de uma natureza criança refletida, a que assomam os pequeninos e as pequeninas coisas: “inhos”, “zinhos”, “rinhas” e “rinhos”, brisas e ternuras de um mundo que é avesso do intempestivo, do ruidoso, do avaro, de qualquer desejo de grandeza, de poder ou império. Nesse universo, o homem nasce de novo, junto com o superlativamente minúsculo: “escassas poeirinhas,/ finíssimas como leves cicatrizes [...]” (Superfície); “um levíssimo traço de vento que atinge um raminho de luar” (Brisa); “ou fluidas franjinhas semeando-se na luz como um luar na relva.” (Chuva na relva)

Abro ainda mais um parágrafo – porque é preciso –, para descer ainda mais, agora na correnteza vertiginosa de um rio-hábitat, que o poeta constrói como “A casa da água”, sendo ele mesmo o ser da linguagem, isto é, a própria casa de seu imaginário constante. Nessa, que é a segunda parte do livro, Chagas Val movimenta um denso rio, ora amanhecido, ora silencioso, ora assassinado, mas que se comunica sempre em seu desejo de vida, às vezes como fragmento na metonímia de um copo d’água, que floresce sobre a mesa, às vezes como memória de auroras arcaicas, de um mundo esvaído, rio abaixo, rio afora, destino do mundo que se entrega nas correntezas heraclitianas. Que belo e admirável poema esse rio nos traz: As sonâmbulas boiadas... (Aí o poeta não deve nada àquela simbólica ontologia do Guimarães Rosa de Sagarana...). Contudo sabemos que este mundo de floração de águas já é narcísico. Não o narcisismo egoísta, que se separa do mundo para encantar-se consigo mesmo, mas o narcisismo cósmico, que vê o mundo como doação, através da qual recupera a sua própria imagem, e à qual, contudo, tenta conservar em seus abismos e vertigens, enquanto o rio passa – só eterno em nós.

E para não dizer que não falei das flores, passemos a esta flor flamejante, Flames Lima, na sua também delicadeza e suavidade – tive a oportunidade de conhecer, a algum tempo, como colega da Mostra Brasil + 500 Maranhão, no Convento das Mercês, lá pelos idos de 2000. Ou melhor, passemos ao seu ensaio A Temática Feminina na Produção Escultórica de Celso Antonio de Menezes. Por coincidência, foi justamente por via da Mostra que ela conheceu a obra de Celso Antônio, quando, trabalhando como monitora educativa, apaixonou-se pela obra desse artista praticamente desconhecido em sua própria terra, o Maranhão, e que já foi aclamado o maior escultor brasileiro, segundo estudos mencionados pela autora. Vale a pena trazer uma explicação da autora, Flames, que João Carlos Pimentel Cantanhede destaca em seu lúcido prefácio: “A escolha desse tema como pesquisa deu-se pela constatação de ter sido Celso Antônio um dos primeiros escultores a retratar a mulher com características nacionais. Mas, apesar de toda a relevância que a produção possui como registro artístico e iconográfico de uma época, ela é quase desconhecida em seu estado natal”.

Flames faz no livro um histórico da escultura feminina, uma breve abordagem da escultura feminina pré-histórica, fala do Brasil e da escultura modernista brasileira, passando, então ao autor: sua origem caxiense, seu início de carreira, seus anos em Paris – quando a produção e a temática, a técnica e a estética do artista se renovam por via de influência de artistas como Rodin, Bourdelle, Maillol e Wilhelm Lehmbruck –, para deter-se na apreciação das particularidades escultóricas relativas a um feminino brasileiro que o artista teve a ousadia de trabalhar: um feminino não idealizado, mais rechonchudo, mulato, mediano, rústico, de alma meio brincalhona, enfim, esse feminino telúrico, de quadris largos, seios fartos e alta genitália que é bem a imagem da brasileira. Nisso a lembrar aquela primeira imagem que traz Flames (aliás, muito feliz nessa escolha), a da primitiva Vênus de Willendorf, deusa da fertilidade, que, sem dúvida, está implícita em todas as esculturas femininas de Celso Antônio. Flames une, assim, o telúrico, o ctônico e o autóctone ao erótico vital, à dinâmica do fogo que arde sem se ver.

Não poderia, por fim, deixar de falar da obra de Felipe Kalyma, A Água e a Coruja, embora não da forma que o livro merece, pois requer um estudo mais analítico e detalhado.

Importa num livro que ele seduza, que dê vontade continuar lendo até o final. Lendo a história de Cecília, uma coruja, que a partir de um encontro fortuito com Daniel, uma águia-pescadeira, são tocados pela necessidade de se verem cada vez mais, o que só pode acontecer no crepúsculo, pois ele tem o caminho do sol, e ela tem o caminho da noite. A bela história envolverá a família de Cecília, de pai doente e mãe doméstica, e que precisa ser sustentada por ela. Envolverá Harry, o sábio amigo de Daniel; envolverá as peripécias atrapalhadas e maquiavélicas de Ondaka, o rei águia-gritadeira; envolverá gangues de aves funestas e até um corvo perigoso, Lúcio Morales. Mas tudo acabará bem, e isso é o que importa.

Numa linguagem muito própria ao público a que se propõe, acostumado A Águia e a Coruja é uma alegoria que se utiliza dos seres alados e de o universo fabulístico de uma floresta à beira-mar que, sem retratar um local específico, espelha o nosso mundo, conseguindo falar do amor – idealizado e cinematográfico – e das relações humanas e mesmo de experiências sociais concretas. Lembrei-me outra vez de uma frase de Bachelard, que retrata bem a intenção do livro: quando um sentimento se eleva no coração humano, a imaginação evoca o céu e o pássaro.

As diferenças que separam esses três belos livros ficam, portanto, bem patentes, mas eles se tocam num outro plano: no sublime espaço do simbólico, dos elementos que unem homem e universo na experiência ao mesmo tempo cósmica e cotidiana do existir, que se expressa em sua plenitude no tenuíssimo silêncio da iluminação estética.

*escritor maranhense.


d’A Manguda de Flores & Labirintos

Ivan Pessoa*


(...)

Os homens têm medo do desconhecido, e por tê-lo, nada mais natural que representá-lo por meio de narrativas, registros orais e ditos proverbias, por vezes até para expulsá-lo, purgando-lhe caricaturalmente. É sobre o desconhecido fantasmal de mortos que intervêm no curso dos vivos, que trata o exemplar: A manguda de Flores, livro que ao lado de: As três princesas perderam o encanto na boca da noite do também maranhense Nagib Jorge Neto, versa sobre o modus vivendi do homem comum dessas paragens.

Conta-se que, misteriosamente, uma aparição trajando chambres compridos, com respectivas mangas muito largas, daí porque manguda, constantemente fazendo-se surgir próximo à igreja dos Remédios em São Luís, teria ensejado à crença em algo tão inusitado quanto horripilante.

Seguindo a mesma linha evolutiva, de um extremo que vem desde o persa Luciano de Samósata; com seu satírico: Diálogo dos mortos, até o mexicano Juan Rulfo, com seu romance: Pedro Páramo, a convivência entre vivos e mortos parece ser litigante em se tratando de literatura. Com a palavra Arimatea Coelho: “Flores era uma cidade atormentada realmente. As aparições da manguda, envolta em um lençol de linho branco, deixavam a todos os seus moradores desesperados.” (pg.37, A Manguda de Flores) Autran Dourado com seu: Ópera dos mortos, bem como Érico Veríssimo com seu: Incidente em Antares endossam a ideia de que as incidências do além em face do mundo dos vivos são mais constantes do que poderia atestar nossa vã filosofia.

Distanciados em função das particularidades individuais, mas acossados na mesma condição, os personagens partilham a mesma sina: esconjurar as aparições espúrias da manguda e congêneres, devolvendo-lhes ao bojo primordial do desconhecido. Como se a imemorial infância jamais tivesse se esvaído, cada personagem recomeça a contrapelo de sua maturidade, as mesmas perquirições de quando criança, com o respectivo medo do fantástico. Adúlteros, rameiras, agiotas, corruptos, todas as tipologias, todas as camarilhas, ainda que envolvidos nos mascaramentos da vida adulta, cedem às vacilações risíveis das crianças. Quintino, Guilhermina, Carmerindo, Zizi, dona Justina, Dagoberto, et caterva, a despeito da idade adulta, são como crianças em face da fantasia: “A alma de Carmerindo também não deixara a cidade em paz. Mesmo quando Dagoberto descobriu que Carmerindo na verdade era um bode preto, que vivia solto pelas ruas da cidade, ele continuou aparecendo da mesma forma como havia sido enterrado: com paletó e gravata pretos, camisa branca de tricoline, sapatos lustrosos de pelica.” (p. 37, A Manguda de Flores)

Como a lógica austera dos adultos, sempre cala, em se tratando dos limites daquilo que pode ser dito, pode-se pensar consequentemente que o fantástico, à maneira da poesia, ri descaradamente da pompa racional, como os fantasmas riem dos homens. Carregando-nos pelos arredores de uma cidade onde o tempo não passa, de tal feita que os mortos incidem sobre os vivos, levando-lhes ao reino delirante do fantástico, Arimatea Coelho não nos poupa o fôlego, afinal seu domínio poético lhe concede uma teia imagética tão viva, quanto entrecortante. A literatura se faz lâmina, e a lâmina se faz imagem.

Um dia, o poeta e naturalista romano Plínio, o Velho, ousou, à maneira de Platão, decidir o destino dos poetas, concebendo-lhes peremptoriamente como: monstrorum artifex, eternos criadores de monstros, urdidores de pesadelos. Com admirável habilidade, Arimatea Coelho, fazendo-se anfitrião do engenho poético, antecipa-nos, leitores, uma situação incomum: em que mundo estamos, no terreno movediço dos vivos, ou na quietude imorredoura dos mortos? Leia A manguda de Flores e descubra por si mesmo, antes que as luzes se apaguem.


II

Labirintos

(...)

Em seus Labirintos, Ubiratan Teixeira põe São Luís tencionada entre os extremos do real e do imaginário, das manifestações porosas de uma religiosidade originária versus uma religiosidade aculturada. Daí por que, assim admoesta Dom Justus às carolas da Igreja: “Segundo as tradições caríssimas ermãs, a devota figura que se dissolvera lá pelos confins da África, durante aquele embate de punição aos mouros sem fé, viera candidamente repousar seus fluídos etéreos, sob encantamento provisório, neste sítio consagrado a outro venerável súdito de Nosso Senhor; e aqui deveria permanecer purificando suas imperfeições, sem mais delongas, até o Dia do Juízo Final. Segundo é sabido e consabido, o encantado apenas ganhou restritas permissões para retornar à vida material, ou sob a forma de um imponente touro, que passearia sua figura imperial por entre os vivos, ou permaneceria em sono eterno nos subterrâneos da Ilha sob a forma de uma serpente, até que uma donzela nativa um dia a despertasse; e só. E nada mais se sabia, até essa versão marota, revelada por esse curandeiro nos pegar de ceroula na mão [...] E digo mais, atentas filhas de Maria que, diante dessa opção bastarda, o momento é de apreensão, reflexão profunda e decisões rápidas. Fomos colocados frente a frente a um desafio que não só nos questiona como dogma, como fere frontalmente a moral de nossas donzelas. Ou nos posicionamos como egreja zelosa e protetora, sem condescender ao tentador, ou caímos no descrédito materialista a quês está tentando nos arrastar esse pasquim aleivoso e aquele macumbeiro filho do tinhoso.” (p.39-40, Labirintos). Percebe-se que as maledicências pagãs de Negreiros, pouco a pouco enfraqueciam as certezas teológicas de Dom Justus, de modo que esta fraqueza reforçaria aquele antológico ensinamento contido no Evangelho Segundo Marcos: “Porque em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, tudo o que disser lhe será feito.” (Marcos. 11:23) Como se pode ler nas Meditações de Descartes, a dúvida quando hiperbólica só poderia mesmo ser produto de um gênio maligno, fornecedor de tropos e ilusões, que levaria inevitavelmente à confusão da consciência. Ubiratan Teixeira, consciente ou inconscientemente, nos faz crer nos infortúnios de Dom Justus, que em estado tal de receio, da história ser verdadeira, lhe põe por vezes nos limites do risível. É como se o mundo racional, representado pelos discursos límpidos de Dom Justus a contrapelo da falação de Negreiros, se perguntasse atônito: mas se for verdade? O atestado fantástico do velho Negreiros, proporcionalmente vai encorpando-se no imaginário popular, de sorte que até nas refeições habituais como a janta, são direcionadas ao fato inimaginável: “ Debaixo de cada um dos altares das sete igrejas desta vila repousa em sono encantado a legião de Dom Sebastião, protegida pela serpente guardiã do grande mistério.’ Cantavam, ou contavam, desde priscas eras os guias turísticos da cidade, acrescentando: ‘ Esta serpente adormecida repousa ao longo dos subterrâneos da cidade.’ E todos sabiam, desde as primeiras letras assim como está no livro de B.B. Sá Vale, confirmado na grande obra do etnólogo Nunes Pereira, Lendas e Visões da Nação Maranhense, que, no dia em que a grande encantada fosse ferida de amor por uma donzela casta e pura, de descendência maranãnguara, o reino de Dom Sebastião voltará à superfície na sua fantástica glória com toda sua corte, séquito de guerreiros, serviçais e pajens – e os habitantes da ilha, por sua vez, mergulharão em sono encantatório, até que outro desencantamento ocorra e assim ora um, ora outro, pela eternidade dos tempos, ou até o planeta se dissolver em onda de energia e luz. Era essa a história que todos sabiam, donde a versão das não-donzelas era novidade para todos, gerando o alvoroço da Igreja e daquela sociedade conservadora e reacionária.” (p.47-48, Labirintos)

O clima irracional de um boato jornalístico ganha proporções tão inusitadas quanto os prognósticos de Negreiros, de modo a reorientar o sentido mesmo dos populares. Como se fosse um impulso atávico, os homens têm necessidade de hipostasiar suas frustrações e esperanças em um porvir não muito definido, o que origina consequentemente a religião e seus emissários. Em seu sentido mais apurado, essa necessidade encerra o sentido de transcendência, enquanto: subir além de. Por meio da narrativa, ora laicizada, ora erudita de Ubiratan Teixeira, que se faz presente ora nos rictos de Negreiros, ora nas vacilações de Dom Justus, só nos cabe, enquanto leitores, esta subida clandestina pelo imaginário do homem ludovicense, homem empertigado, ainda que temente, incrédulo, ainda que puro, homem que na visão de Dr. Durval seria: “ uma raça metida a intelectual como não havia em outro sítio do País.” (p.30, Labirintos). Que estes Labirintos nos engolfe a naturalidade ludovicense, sob pena de nos perdermos quando do dilúvio.


*Professor contratado do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Literatura, câmera, ação: Nauro Machado



Clipe do Poeta Nauro Machado produzido pela Prole Filmes para o Evento do Patrimônio Histórico do Maranhão