terça-feira, 24 de março de 2009

quarta-feira, 18 de março de 2009

Encontrando as Pedras XXVI

CRUZ, Arlete Nogueira da. Nomes e Nuvens (Ligeiras considerações em torno da paisagem literária maranhense – 1889/1996).

Literatura é a arte de escrever ou escritura feita com arte, ou seja, uma forma escritural que transcende às simples palavras que se juntam, de modo a criar o campo energético capaz de inquietar o pensamento e estimular os sentidos do incerto leitor, despertando-lhe uma urgência, na necessidade vital de apreensão do real que está ali, à espera dele – eis o que eu desejo enfim de uma literatura, diz Arlete Nogueira da Cruz no final de seu livro Nomes e Nuvens (Ligeiras considerações em torno da paisagem literária maranhense – 1889/1996).
Esta citação é uma dentre muitas que permeiam o livro Nomes e Nuvens desta escritora extraordinária, cada página é um mergulho nos nomes e nas nuvens da história literária maranhense como diz o próprio título. A escritora esclarece logo no início, a sua intenção de não aprofundamento pelos preâmbulos da história ou mesmo das obras, mas clarifica o quando e o porquê de uma literatura ludovicense e não maranhense, além de apresentar os verdadeiros traços do surgimento do epíteto “Atenas Brasileira”. Porém, a autora prende-se ao século XX, início da República, destacando o alheamento da população quanto aos acontecimentos que se passavam no restante do país.
A autora fala também, da velha e boa “oportunidade” de nossos escritores estudarem fora, principalmente, na capital do país e não mais retornarem, simplesmente porque não eram valorizados em sua terra natal, uma realidade não muito distante de hoje, infelizmente. A partir daí a autora detém-se nas obras e escritores desse período buscando enfatizar a importância que cada geração teve para o Maranhão, mas especificamente para São Luís. Sendo assim, ela passeia por todo o período, cita nomes, contextos, observa, pondera e caracteriza cada momento, porém, não é um estudo sistemático, que aborrece o leitor com extensas datilologias, explicações sem propósitos ou, não é ainda, um estudo superficial sobre o assunto, como toda escrita de Arlete, o livro é simples, porém muito bem fundamentado, leve, mas firme em cada palavra, demonstrando o conhecimento da autora e a representatividade da mesma em relação aos acontecimentos da cidade com experiência de quem viveu alguns deles. Com isso, a escritora nos dá um relato coeso da paisagem literária maranhense do século XX e finaliza com a frase que iniciamos este trabalho, como que um apelo ou um despertamento para todos aqueles que desejam trilhar os caminhos da arte literária.
Dona de uma escrita inconfundível, Arlete Nogueira da Cruz é o que podemos chamar de camaleoa, não se prende apenas a um estilo, mas passeia por todos eles com uma precisão de mestre, é poeta, contista, romancista, ensaísta, grande contribuidora para a expansão artística em nosso Estado, desde cedo, aprendeu com a mãe o valor das letras e quando jovem deixou-se fascinar por elas, tanto que aos 17 anos escreveu seu primeiro romance A Parede, a partir daí não encontrou mais barreiras para desenvolver seu talento perfilando a nossa cidade com sua essência delicada e sensível. Além destes livros citados, pertencem à autora ainda, Cartas da paixão (ensaios), Campo binário (romance), Canção das horas úmidas (poesia), Litania da velha (poema), Contos inocentes (contos), Sal e Sol (ensaio).

Mariane Vieira
Graduada em Letras e Pós-graduada em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira

sexta-feira, 6 de março de 2009

Maranharte Indica - Casa de Cultura Josué Montello

(clique para ampliá-la)A Casa de Cultura Josué Montello é uma instituição de iniciativa cultura criada pela Lei Estadual de 31 de outubro de 1981, entretanto, somente foi inaugurada em 23 de janeiro de 1989. Primeiramente, foi instalada no Largo do Ribeirão onde hoje funciona o estúdio de gravação da Escola de Música Lilah Lisboa de Araújo, mas, depois do aumento do acervo mudou-se para o prédio da Rua das Hortas. Seu acervo é composto de aproximadamente 55 mil peças, compreendendo coleções de livros raros, publicações de revistas, jornais e periódicos, além de um conjunto de fotografias do escritor ao qual a instituição homenageia e por isso mesmo é nessa Casa que podemos encontrar a obra completa desse imortal (Josué Montello escreveu, além de romances, novelas, crônicas, ensaios, textos para cinema e teatro, obras de literatura infanto-juvenil, prefácios, antologias e edições para os “portadores especiais de deficiência visual), assim como objetos e documentos pessoais (placas medalhas, rascunhos, quadros, manuscritos e muitas correspondência) do autor de Cais da Sagração..
Instalada num casarão da Rua das Hortas, 327 a Casa de Cultura, foi comprado pelo Governo do Estado e pertencia a família João Pereira. Após várias reformas de recuperação e adaptações, o casarão pode receber todo o acervo literário colecionado por Montello durante toda a sua vida. São várias obras raras e atuais de autores maranhenses (muitas com dedicatórias), publicações avulsas e periódicas não só nacionais, mas também estrangeira.
No primeiro semestre de 1997 a Casa passou por um processo de ampliação e modernização das suas instalações e prepara-se para receber mais alguns livros da viúva do escritor, a Senhora Yvoni Montello, que ainda reside no Rio de Janeiro.
Divulgada apenas como uma biblioteca, a Casa de Cultura Josué Montello destina-se não só a promover pesquisas, mais também trabalhos na área de literatura, artes, história e a cultura popular maranhense em geral. Para isso, possui um salão de exposição, sala de consulta e leitura, área de convivência e um auditório, além, claro, de um simpático atendimento especializado.
Segundo a bibliotecária da Instituição, a “Casa de Montello” também possui o auxílio de algumas estagiárias do curso de Biblioteconomia da Ufma, que, com muita dedicação, conservam e restauram as obras que estão começando a apresentar as linhas amarelas do tempo. Atualmente, o trabalho está direcionado para a restauração das obras francesas que a Casa possui, já que esse ano comemora-se o Ano da França no Brasil.
Fiquemos com um trecho do discurso de Montello na inauguração da sua Casa de Cultura.
Não desejo que esta Casa de Cultura seja um museu literário: quero, isto sim, que seja um laboratório de literatura, e dando à literatura uma dimensão cultural superior. Não digo isto por um propósito elitista. Não. O elitismo condenável é aquele que privilegia uma classe, ou o seguimento de uma classe. Aqui a seleção há de fazer-se pelo estudo, pela aplicação, pelo trabalho, pelo mérito pessoal." ( J. M.)

O que: Casa de Cultura Josué Montello, São Luís, MA
Onde: Rua das Hortas, 327, Centro
Quando: De segunda a sexta, das 13 h às 19 h.

Pesquisa: Flaviano Menezes
Agradecimentos: Aos funcionários da Casa de Cultura Josué Montello

Opinião de Pedra: Sobre Nascimento Moraes Filho

Por volta de 1955, Nascimento Moraes Filho lançou Clamor da Hora Presente. Nessa época, a poesia brasileira enfrentava dilemas cruciais à forma e ao conteúdo. As experiências modernistas haviam se consolidado e já havia uma busca de outros horizontes poéticos: os escritores mais jovens andavam empolgados com a poesia social, de denúncia das injustiças das estruturas econômico-políticas.
Politicamente, a sociedade brasileira experimentava um fenômeno típico do continente latino-americano: o populismo, na qual teremos como grande exemplo o presidente Getúlio Vargas. Quem não fizesse uma poesia de compromisso seria implacavelmente submetido a duras críticas. Depois, essa poesia de cunho social atravessaria um período de maturidade, superando o populismo e atingindo dimensões revolucionárias.
Clamor da Hora Presente é produto desse contexto agitado da nossa sociedade. Tem raízes nitidamente populista, e igual a outras do seu tempo enquanto forma tradicional, com discurso romântico e grandiloqüência, acentuadamente emocional. E como mensagem clamava por uma ordem social mais justa e mais humana.[...] Fruto de sua experiência pessoal marcadamente de influência das idéias de 50, Nascimento Moraes Filho escreve Clamor da Hora Presente sob o impacto das ilusões e sonhos de uma juventude que se sensibilizava com o subdesenvolvimento, mas que muito raramente racionalizava as contradições sociais e de contribuições mais enriquecedoras.[...]Os poemas de Clamor da Hora Presente têm uma estrutura que nos remete a Castro Alves: assemelha-se em revolta, recursos de métrica e ritmo. Clamor do Petróleo exemplifica as simitudes que estabelecemos ao mostrar as influências de Castro Alves exercida sobre os versos de Moraes Filho; Vêde/ Que estranhas flâmulas tremulam nas alturas/ - É o meu pendão de glória/Que desfraldei no azul/ Onde a pátria-mendiga/ Esmolando na via crucis das nações ?/ Onde a mãe pátria despojava da honra?/ Da honra vendida no prostíbulo do dólar/ Não é mais a bandeira desmoralizada/ De uma colônia de banqueiros/ Como as mãos convulsas de um náufrago a suplicar socorro/ Verdes, Azuis/ Como esperanças e sonhos desencantados/ - Idade em marcha/ Vôos de Pensamento / Roçando as asas das constelações/ Parai, ó Tempos, Voltai, ó Trevas, o Futuro e Luz...
Depois veio Pé de Conversa, que surpreende pela mudança que Moraes Filho apresenta no que se refere às predileções populistas de sua estréia em Clamor da Hora Presente. [...].
Um escritor acostumado à convivência das praças e dos grêmios literários que sai apenas fortuitamente do seu habitat natural – a cidade - para momentâneos contatos com a blepe ignara é humanamente impossível que consiga assimilar e criar ao estilo dos famosos repentistas do sertão. De modo que seu livro Pé de Conversa é um aglomerado de versos acadêmicos com os de origem em cancioneiros populares. Portanto, pode-se afirmar que Clamor da Hora Presente apresenta melhores qualidades que Pé de Conversa, pois guarda pelo menos a autenticidade social a que pertence seu autor.
Trecho da obra Pé de Conversa.
62 A tua boca é um machado
De dois gumes, meu amor:
- Quero quebrar com meu beijo
O coco da minha dor.

63 Minha vó sempre dizia
Quando muito em casa tinha;
- Hum! Babaçu é panema,
Chama fome de farinha!

87 A felicidade é um roçado
Que embora esteja limpinho
Sempre topamos num toco
Que se ficou no caminho...

97 Criança chorando muito,
Sem ter pegado palmada:
- Está doente ou quer braço,
Está com fome ou mijada.
Nascimento Moraes Filho realizou em Azulejos um espólio de reminiscência da infância> São versos soltos, livres, que revelam a aprimoramento do escritor na sua busca de romper com cânones tradicionais. Já constatamos o poeta caminhando para a originalidade. [...] Contudo, Azulejos não supera os seus livros anteriores no que se relaciona ao teor poético. Com mergulho no mundo de fadas da meninice, permanece apenas em fatos corriqueiros. [...] (p. 140-41)
Carlos Cunha
As lâmpadas do Sol (crítica) - 1980
Azulejos é uma obra-prima completa, única e irrepetível no contexo do que se possa chamar de poesia com palavras em linguagem nonsense.Nascimento Morais Filho, como Édipo, em sua infância, protagonista máximo da tragédia grega, depois de Telêmaco, como o Guesa do mito e da tragédia Muysca, teve uma mãe biológica, mas excepcionalmente foi criado por uma mãe adotiva. Também como Telêmaco, da Odisséia,de Homero, ele teve um pai a distância.
O José, de Azulejos, tem muito a ver com os três meninos da literatura universal, Telêmaco, Édipo e Guesa. Por essa razão, que Azulejos, essa obra-prima da literatura maranhense, brasileira e quiçá universal, é uma espécie de catarse de todo processo de encantamento do amor pelo amor, do amor filial pelo amor materno de adoção, que soma paixão, compaixão, surpresa e admiração do filho pela mãe que o criou. Cercado por carinho, ternura e mimo, como o filho adotivo haveria de reagir, senão com um pé na frente e outro atrás, a princípio?
[...]
Através da linguagem nonsense das crianças serão desvendados os porquês, os comos, os para quês, os ondes e os quandos do adulto. Azulejos é assim o mais estranho, contraditório, ambíguo, paradoxal, autêntico, original e atual poema-romance da modernidade literária maranhense, escrito muito antes do que se rotula de modernidade. Em Azulejos, portanto, a criança permanece cronologicamente imutável durante toda a vida.
Trecho da obra Azulejos.
8 aqui, que mora dona Ana Augusta? – não, moço, aqui, mora é mamãe!
24 mamãe, por que a lua é pelada?
26 a lua está quebrada, didi!... – heim heim!... olha como o chão está cheio de caco de vidro!...
28 ... e pra papai noel eu vou pedir asa pra voar!...
30 didi,vamos ver quem corre mais do que a lua?
31 mamãe,por que o galo da igreja não canta? – porque é de ferro, meu filho! – mas ele devia cantar, mamãe, porque ele é galo!
37 que meu filho toda hora espia atrás do espelho? – eu estou procurando eu, mamãe!
56 ... e de hoje em diante, não tire mais o sapato dos pés!... – mamãe, agora eu só me banho de sapato?!...
63 mamãe, dê modo pra lua! se eu vou pra lá, ela vai... se eu venho pra cá, ela
vem!...
70 as outras casas são criançasa minha já é sobrado!
72 não está de castigo? – estou, mamãe! – e como já está aqui a brincar? – eu me esqueci, mamãe!...
132 nossa senhora parece com mamãe!
136 não sei o que gente grande conversa e criança não pode ouvir!...
Manoel Santos Neto
Suplemento Literário – Guesa Errante - 2005

Com mais de 10 livros publicados, Nascimento Morais Filho é dono de uma obra que muitos quiseram condenar ao ostracismo, por conta das ousadas atitudes políticas que assumiu ao longo da vida. Cioso da ascendência africana da sua família e do exemplo de vida de seu pai, o jornalista e escritor Nascimento Moraes (1882-1958), que sofreu na pele o escancarado preconceito racial que havia na sociedade maranhense, Nascimento Morais Filho, até hoje, trava uma luta à sua maneira pelo respeito e pela valorização dos negros. Como parte desse esforço, ele gosta de lembrar que ficou na Imprensa do Maranhão o exemplo do grande jornalista, que foi seu pai.
[...]
Nascimento Morais Filho é membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão e é o titular da Cadeira Nº 37 da Academia Maranhense de Letras, instituição com a qual acabou travando uma briga memorável. O autor de Esfinge do azul rompeu com a Academia quando os seus pares reuniram-se, no dia 7 de junho de 1979, para eleger o ex-governador Pedro Neiva de Santana (1907-1984). Protestei porque Pedro Neiva nunca escreveu uma linha. Reagi, votei contra e nunca mais pus meus pés lá. Dessa sua atitude, Nascimento Morais Filho diz que nunca se arrependeu: Larguei a Academia, sim. É uma Casa que não imortaliza ninguém. Quem tem valor, quem tem talento mesmo, não precisa de Academia, assinala o poeta, lembrando que seu pai foi presidente dessa mesma Academia.[...] Seu primeiro livro, Clamor da Hora Presente, publicado em 1955, foi traduzido para o francês e para o inglês por uma freira dos Estados Unidos da América do Norte.
Alberico Carneiro
Suplemento Literário – Guesa Errante - 2005

segunda-feira, 2 de março de 2009

Encontrando as Pedras XXV

CHAGAS, José. Da arte de falar bem. São Luís. Instituto Geia, 2004.

“Crônicas de saudade e bem-querer”: quando o ofício do poeta vem do dom de bem falar.

Por Talita Guimarães*

Um poeta não vive apenas da poesia expressa em versos. Definitivamente não. Um poeta vive e produz em função de um incômodo e transmite sua visão de mundo através de um poetizar que pode estar muito bem colocado na prosa. Prova disso é constatar que há quem consiga relatar a poesia da infância, o conto de um aniversário ou a saudade de um momento vivido com amigos de modo fascinante em um texto repleto de sentimento. Melhor que isso é dar ao leitor o prazer de encontrar toda essa poesia reunida em um livro de crônicas, com relatos comoventes e encantadores feitos pelas mãos de um poeta-cronista que sabe cultivar a arte de falar bem.
O que mais chama a atenção em “Da arte de falar bem” cujo nem o subtítulo escapa da poesia do inconfundível José Chagas – Crônicas de saudade e bem-querer – é a presença do relato do cotidiano feito sob a ótica do olhar poético e otimista de quem sabe tirar das coisas o que elas têm de melhor. Logo de início, uma apresentação comovente escrita por Sebastião Moreira Duarte, fala de Chagas, a obra e como surgiu a idéia de reunir em um livro de crônicas os textos do poeta publicados em jornais e soltos no tempo. Falar bem é uma arte que, expressa através da poesia, mostra que Antônio Carlos Secchin – escritor, membro da Academia Brasileira de Letras - tem razão em dizer que toda a matéria do mundo alimenta o poeta.
José Chagas consegue colocar nas crônicas todo o seu sentimento de saudade e desejo pelas coisas mais simples da vivência cotidiana que se percebidas com sutileza mostram-se inspiradoras. Coisas como o convívio com a infância e a tentativa de compreendê-la depois de adulto, contada docemente na primeira crônica do livro – “Velha crônica para hoje”.
Em seus textos, o poeta reflete sobre a amizade; viaja ao passado para contar sobre sua vida política; lembra de discursos emocionados feitos para amigos e por amigos; resenha artigos de outros autores; indica lugares de seu gosto e explica com toda a poesia de sua alma e bom humor de suas palavras o porquê da escolha; reza; agradece; emociona; enaltece. Deixa ao leitor um conjunto das crônicas mais poéticas que se possa imaginar. Faz de nós, pobres mortais, capazes de enxergar a vida e as coisas sob o olhar da poesia. Alimenta-nos com uma matéria refinada e deliciosa. Faz de mim leitora grata, quase poetisa. Aliás, ao poeta, fica meu muito obrigada em forma de feito raro, inspirado na arte de falar bem, espalhar o bem, sentir-se bem:

Cada página é um presente
Cada palavra, um afago
Cada instante, livre no mundo da literatura
Entre infindáveis leituras
Simplesmente eterno.

*Acadêmica do 4°período de Jornalismo, autora do livro infantil Vila Tulipa. Ganhou “Da arte de falar bem” em seu aniversário de 19 anos e adora ler e reler as crônicas “Velha Crônica para Hoje”, “Saída do Labirinto” e “Aniversariar e fazer anos”.