sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Opinião de Pedra : José Ewerton Neto

ESSA LITERATURA TÃO CHATA!

Jose Ewerton Neto


“Em geral, acreditem, os escritores não recebem a palavra nem mesmo nas cerimônias em que são premiados.” Rodrigo Lacerda, escritor e editor da revista Serrote.


Chico Buarque disse que escrever é uma chatice.
Chico Buarque, compositor e cantor famoso também é hoje o mais disputado escritor nacional, o mais badalado pela imprensa, pelos críticos, pelos professores de literatura, pelas revistas literárias. Sua presença foi disputadíssima na última Flip (Feira do livro de Parati) causando a evasão de público das outras atrações literárias da feira em paralelo à sua apresentação, Se considerarmos que o outro escritor brasileiro best-seller, Paulo Coelho, é certamente mais um mago que um escritor, não é de estranhar que, para muitos brasileiros, Chico Buarque seja mesmo, atualmente, o maior escritor nacional.

No entanto, escrever, para ele, é uma chatice. E olha que quando quer escrever as páginas de seus romances , exige-se o conforto de viajar para Paris a fim de lá se refugiar por alguns meses, em seu apartamento, com o único propósito de escrever um romance. Antes de escrever as páginas do seu último livro Leite Derramado, a Cia. das Letras, sua editora, já havia encomendado várias edições , e múltiplas resenhas de críticos já se acumulavam nas revistas e nos cadernos literários, enfim, o seu trabalho “tão chato” tem compensação garantida, pelo menos em termos de grana e badalação.

Se escrever, para ele, é uma chatice imagine o que não deveria ser para os outros escritores deste país. Estes escrevem livros sem sequer saber se serão publicados, que dirá se serão vendidos; a maioria não têm apartamentos em sua própria cidade, que dirá em Paris. Podem contar com o quê, a não ser com a dádiva de uma benevolente imaginação, para se inspirarem e continuarem o “ofício da esperança”, que, em última análise, é o ofício de todo escritor?

Se, até mesmo quando, depois de árdua competição, sucede de ganharem um concurso - como acontece aqui em São Luis -, para receber o prêmio são aconselhados pelos próprios mentores do concurso a correrem para a justiça sob pena de jamais o receber? Isso nos leva a refletir: por que será que esses escritores não param de escrever, se seus talentos, mesmo quando reconhecidos, são tão espezinhados, inclusive pelo próprio poder público, que os estimulou? Será que entre o ato de escrever e a odisséia previamente anunciada de suas lutas existe um sentimento mais profundo de realização - e prazer - que a imaginação de Chico Buarque não consegue alcançar pelas facilidades obtidas em sua trajetória?

Millor Fernandes, o humorista, dizia que a maior vontade do intelectual é de ser rico, e a do rico é ser intelectual. Chico Buarque que, em sua época de juventude, egresso de família rica e intelectual, tornou-se um dos melhores compositores de uma geração talentosa e especial, hoje, muito mais rico, goza de uma gloriosa e justa reputação que, no entanto, o supervaloriza em tudo o que faz. A fama que adquiriu como compositor e cantor parece tê-lo blindado das análises literárias mais profundas, a ponto de serem raríssimas as críticas que apontam para a sua falta de imaginação literária, que o faz elaborar romances à reboque de temas já utilizados por escritores consagrados. Parecendo ter dado como encerrada a sua missão como compositor de M.P.B. para decepção de seus inúmeros fãs (entre os quais me incluo), há muito tempo que o marasmo tomou conta de sua produção musical. É compreensível e quase natural, portanto, que de acordo com o seu passado reluzente, seja tocado, também, pela visão da mosca azul, peculiar a todo rico, segundo o humorista: a de querer ser, também, um escritor.

Com um detalhe adicional: para ser coerente com esse passado, a Chico Buarque não basta apenas ser um bom escritor, exige-se que seja “um grande” escritor. Dessa exigência (peculiar à estrutura midiática que fomenta a aura criada em torno dos mitos modernos) tomam parte: editores, fãs, professores, críticos e leitores em geral, a maioria de forma inconsciente , inclusive, talvez, ele próprio. Por isso, deu-se ao direito de tornar-se arrogante, como a seu respeito denunciou a escritora norte-americana Edna ò Brien quando o acusou, durante a Flip, de não passar de um embuste, além de demonstrar pouco conhecimento da literatura. Deu-se ao direito também de, ao se referir com desprezo ao ato de escrever, nos oferecer um mote para chamar a atenção sobre o que se passa com a literatura nacional, tão combalida e desprezada, que é forçada a aceitar como o seu escritor de ponta justamente aquele para quem o ato de escrever não passa de uma chatice.

Ora, se o ato de escrever é uma chatice para seu maior representante não seria esse o testemunho pungente que faltava para avalizar a comprovação de que para a maioria dos brasileiros a literatura não passa mesmo de uma grande chatice? Pois não é isso o que se vê? A literatura é uma chatice para o presidente da República, para governadores, para professores, para estudantes e para o brasileiro comum, que jamais substitui uma mínima parcela de seu prazer de escutar forró a altíssimos decibéis, por um segundo de contemplação das páginas de um livro, por melhor que ele seja - e por mais riqueza que contenha. Ao contrário do que acontece em outros países onde nos terminais de metrô, praças e aeroportos comumente vê-se alguém concentrado na leitura de um livro, como é raro observar-se isso neste país!

Como é chato, ler um livro – dizem as crianças! Como é chato ler um livro dizem os estudantes universitários! Como é chato selecionar um livro de um autor fora do circuito preconcebido das editoras – dizem os professores de literatura, como é chato resenhar o livro de um escritor que não tenha apelo na mídia - dizem os raros críticos literários deste Brasil... Como é chato ter de pagar premio para quem venceu um concurso de literatura, não é mesmo, secretários de cultura, desta Atenas Brasileira? Como é chata, muito chata essa literatura!

Mais chata ainda do que essa perturbação inerente à literatura em si, só mesmo a obrigação de “ter de engoli-la”, não é mesmo? Quando forçado a referir-se ao hábito da leitura, nosso presidente Lula assim se referiu: “Ler é muito chato, mas é como se exercitar numa esteira, no começo é ruim, mas depois a gente se acostuma.” Assim também, para os que estão nos postos chaves desta nação, inclusive na área cultural, haja ter de suportar a sua incômoda presença! ( Porque por mais poderoso que alguém se julgue, tem consciência de que, ao tentar ignora-la,destitui-se daquilo que mais preza à raça humana: a distinção dos outros animais, o que só é possível em plenitude através dela, da literatura, e de sua capacidade, de induzir à reflexão.)

Disse um escritor norte-americano que a única vantagem de ser escritor é a de que ninguém o chama de burro por ganhar tão pouco. Se muitos escritores ás custas de penúria e talento ganharam esse privilégio, por outro lado os bem afortunados sabem perfeitamente que esse dom jamais lhes será accessível como benesse natural do poder. Precisam recorrer, em alguma circunstância, ao que a literatura tenha de simbologia espúria para salvar as aparências e torna-la complemento da própria vaidade. Tão boa é essa literatura que até para isso ela se presta! - quando corrompida. A abordagem da façanha literária passa a ser feita então não pelo que ela tem de mais prazerosa, que é o exercício de sua leitura, mas pelo espocar de flashes contaminados pelas explosões festivas nas comemorações midiáticas: não os milhares de livros extraordinários que estão à espera de serem lidos, mas a vaidade de poder propagar: “Tenho em minha estante um livro de Chico Buarque, adorei o livro de Roberto Justus , sou fã das histórias para crianças de Gabriel, o Pensador”, numa jornada onde a satisfação não é com o conteúdo do livro mas com a ostentação de uma aproximação virtual com qualquer personalidade badalada pela mídia.

Tal distorção que contamina o próprio ambiente literário faz com que não se concebam eventos literários de qualquer espécie (feiras, concursos, comemorações, palestras etc.) sem a obrigatória presença de alguém do ramo musical que sirva de referência e locomotiva para chamamento de público, sob pena de se esvaziarem os assentos e as repercussões nas edições dos jornais. Sem outra alternativa, a isso se submetem os verdadeiros escritores, alguns consagrados, aceitando tornarem-se , meros coadjuvantes das celebridades pseudo-literárias. Foi assim, que anos atrás foi concedido o premio de melhor livro do ano à Budapeste, de Chico Buarque, no mesmo ano em que concorria O Silencio do Delator de Jose Neumanne (de concepção e sutilezas literárias muitas vezes mais ricas) apenas para que fosse satisfeita a regra atual segundo a qual se fazem concursos não para premiar e divulgar os escritores, mas, ao contrário, premiam-se escritores para divulgar os concursos.

Num momento em que uma pesquisa nacional com jovens universitários elege Roberto Justus e sua cosmética performance de pseudo-empreendedor como o modelo de referência a ser almejado em suas vidas e em que milhões de pessoas “twittam” pela internet à cata de fuçar o cotidiano de celebridades como Ivete Sangalo, Angélica, Sandy e etc. para se regalarem com pérolas como estas: “Vou tomar banho que eu to fun”, Ivete Sangalo ou “Não ofereci pq era o ultimo pote na geladeira! Ahahaha”, Sandy, já nem causa surpresa que, esteja sendo anunciado como grande atração da próxima feira de livros de São Luis, não um escritor, mas o cantor baiano Chico César, que aqui autografará um áudio-livro (?)

Isso porque a chatice, essa monumental chatice da literatura, tem de ser evitada a qualquer custo, portanto devem estar certas as autoridades quando, para garantirem a satisfação do público presente, transformam a literatura numa alegoria ambulante para desfilarem cantores que possam trazer retorno ao capital investido, sabidamente tão escasso. Um grande escritor, não tão famoso quanto Chico Buarque, um dia definiu o chato como aquele que te rouba a solidão sem te fazer companhia. Talvez não seja o caso do (bom) compositor musical Chico César, mas, certamente, não é o da literatura que, ao contrário do que pensam muitos mandatários, sempre fez da solidão a melhor companhia do mundo. A respeito dela e de sua eterna - e prazerosa – sedução, já que estamos falando também de MPB, não custa lembrar da lição do velho Lupicínio: “Esses moços, pobres moços, ah se soubessem o que eu sei...”

Jose Ewerton Neto, membro da AML, autor de O Prazer de matar reeditado pela editora Revan, Rio com o nome O oficio de matar, Estátua da noite (poesia) e Ei, você conhece Alexander Guaracy?
ewerton.neto@hotmail.com


Fonte: Texto publicado no jornal O Estado do Maranhão (18/10/09), especial para o caderno Alternativo


Encontrando as Pedras XXXII

CANTOS INICIAIS DOS SABIÁ; Semelhanças e heterogeneidades entre as primeiras obras poéticas de Gonçalves Dias e Bandeira Tribuzi
Flaviano Menezes*

Já dizia o critico literário Afrânio Coutinho (2005, p. 98) “A Literatura é vida, parte da vida, não se admitindo possa haver conflito entre uma e outra [...]”, verdade incontestável, sabendo que, quase tudo que cerca o escritor servirá de inspiração para sua arte literária.
No caso dos escritores Gonçalves Dias e Bandeira Tribuzi essa influência com apegos ou renúncias, nos dará uma idéia do que se deseja definir como Literatura de maranhense e Literatura do Maranhão (conceito esse já levantado e discutidos pelos escritores Alberico Carneiro e Jomar Moraes), sem que, para isso, sejamos induzidos a produzir escalas valorativas ou críticas polêmicas, mesmo porque, Gonçalves Dias possui um reconhecimento nacional (e fora de sua pátria também), enquanto Tribuzi é injustamente ignorado por muitos de seus conterrâneos.

O que servirá de ponto de partida para a compreensão do que seja uma literatura construída por um autor sobre sua região e uma arquitetada por um outro em seu solo-mãe, será inicialmente uma exposição cronológica em que apresentará fatos e ideologias que marcará uma passagem de cem anos, isto é, a chegada de Gonçalves Dias na São Luís de 1846 e de Bandeira Tribuzi na mesma capital, em 1946.
Enquanto Gonçalves Dias consegue publicar sua primeira obra poética, Primeiros Cantos, ainda no início do ano de 1847 (porém, com data de 46) recebendo alguns meses depois a notícia de um artigo cheio de elogios do consagrado escritor português Alexandre Herculano, Bandeira Tribuzi teve que esperar quase dois anos para ver sua Alguma Existência ser revelada e discutida como uma obra disposta a destruir uma tradição poética amparada por dogmas e predicados parnasianos.

Mesmo que a produção de pesquisas sobre a origem e desenvolvendo da literatura maranhense venha prosperando nos últimos anos, ainda possui algumas expressivas lacunas, principalmente ao que se refere à estética modernista, iniciada por Tribuzi no Maranhão. Variada e preciosa, essa produção que se estende do ano de 1922 até os dias atuais encontrou inicialmente em terras maranhense certa reserva (para não dizer “aversão”) diante de tão impactante movimento artístico, o que se pode identificar ao analisar a obra O Modernismo no Maranhão do pesquisador Rossini Corrêa (que por sua vez é uma extensão de uma tese de mestrado intitulado “Pela cidade do homem, uma interpretação de Bandeira Tribuzi”, do mesmo autor e publicada em 1982). Por outro lado, mesmo com um estilo dito “romântico” e formado em Direito, Gonçalves Dias ao retorna de Lisboa também não se adapta a uma realidade de incompreensões e calúnias por causa de seus modos galantes aprendidos na Europa, e principalmente por ser filho de um português e uma cafuza (o Maranhão ainda se auto-sugeria com o M de maldizer atribuída pelo Pe. Antonio Vieira), como explica Jomar Moraes em seu livro Gonçalves Dias: Vida e Obra. Mas a conscientização de ambos, de que, a poesia não era um mero passatempo, e sim uma arte disposta a construir uma visão igualitária da sociedade, transformou-os em profissionais dispostos a certos sacrifícios por aquilo que os gregos denominavam “poiesis”.

Analisando os dois estilos literários e suas inspirações (amores, frustrações, posicionamentos filosóficos e a evidente paixão pelas letras) procurar-se-á demonstrar neste sucinto, mas válido, artigo, como tais poetas, no limiar de suas produções literárias, desenvolveram (voluntariamente ou não) um distanciamento ou uma dedicação para com as discussões político-socioculturais de sua terra natal, isto é, a Ilha de São Luís, no Estado do Maranhão.
Outro aspecto que pretendemos levantar, e que é pouco abordado, é a hipótese de um Gonçalves Dias modernista (principalmente no que se refere a sua “Canção do Exílio”) e o romantismo de Bandeira Tribuzi com seus poemas dedicados a sua “claríssima” Maria, na qual podemos avaliar com mais precisão em Alguma Existência e posteriormente em Rosa da Esperança (1950), interrogando-nos sobre a existência de um Gonçalves Dias romântico-modernista e/ou de um Bandeira Tribuzi moderno-romântico.

Por muito tempo os assuntos referentes às disciplinas que conhecemos hoje como Teoria Literária e Literatura Comparada fizeram parte da Teoria da Literatura e eram ministradas como tópicos introdutórios ao Estudo do Direito, Teoria Geral da Educação, Introdução à Filosofia (mitologia grega) e aos Estudos Históricos.

Em 1949, o professor Antônio Cândido dividiu a disciplina (em suas aulas no recém-iniciado Curso de Letras da USP) em duas linhas mestras com o intuito de “[...]ensinar de maneira aderente ao texto, evitando teorizar demais e procurando mostrar de que maneira os conceitos lucram em ser apresentados como instrumentos de prática imediata, isto é, de análise.” (CÂNDIDO, 1990, p.6).

Nas primeiras salas em que a disciplina fora apresentada, escolheu-se inicialmente apenas autores clássicos para serem analisados e comparados, mas, posteriormente os alunos das Especialização tiveram a chance de estudar escritores do Modernismo e de entrar em contato com os clássicos de maneira atualizada.
Com o passar dos anos essa preocupação em estudar esse diálogo entre diferentes literaturas nacionais, autores e obras, isto é, com a Literatura Comparada, apesar de propor uma nova metodologia e fornecer material à Crítica Literária e à Teoria Literária com base em novas pesquisas, ficou enraizada apenas nas últimas turmas das graduações humanísticas e nos cursos posteriores.

Hoje a Literatura Comparada volta a ser discutida não só nas graduações, mas também no ensino básico, principalmente com a volta da Filosofia (trazendo, por sua vez, a estética e a filosofia da arte) e, sobretudo, como instrumento para a intertextualidade, revendo entre outras possibilidades a de analisar e confrontar as escolas literárias e autores do primórdio da nossa Literatura com os intitulados ‘modernistas”.

O movimento modernista brasileiro com suas três gerações (22, 30 e 45) foi o que concebeu uma maior ruptura com as escolas anteriores e por essa razão, são inúmeros os conflitos artísticos e filosóficos observados nesse período, acarretando assim, um inoportuno direcionamento de alguns autores singulares para uma das três gerações mencionadas, mesmo que estes apresentassem algumas peculiaridades estilística ou de outras escolas literárias.
No Maranhão (onde não houve representantes das duas primeiras gerações), a chegada do jovem poética e economista José Tribuzi Pinheiro Gomes (posteriormente conhecido como Bandeira Tribuzi) em 1946 desencadeou a renovação estética que a época já havia lançado e os moços ludovicenses apenas ouviam falar.

O que poucos sabem é que Tribuzi, entre os livros de economia, filosofia e teologia (pois fora a Portugal para tornar-se sacerdote), trazia também um pequeno caderno de poesia composto na pátria de Fernando Pessoa intitulado “Canção no Exílio”, provável homenagem ao maior poeta brasileiro e conterrâneo, obra esta que só seria lançada muitos anos depois com a publicação de sua "Poesia Reunida" e "Poesias Completas". Porém, os registros sobre o início do Modernismo tornaram o seu livro de poesia Alguma Existência como pedra angular da nova poesia maranhense, porém, como afirma a escritora Arlete Nogueira (1976, p.23), “[...] fica evidente que os experimentos poéticos inaugurais de Tribuzi foram em Portugal, de onde acompanhava com verdadeira admiração o movimento literário brasileiro e com saudade as notícias de sua ilha”, talvez por isso a anteposição do conectivo “no” (ao invés de “do”), perpassa uma idéia mais sensível de solidão e anseio.

Corria nas veias da poética do autor a valorização do eu, da liberdade e a subjetividade como se fazia a dos artistas romântico que não se acanhavam em expor suas emoções subjetivas e fazer delas a temática sempre retomada em suas obras, como observa o poeta e pesquisador Nauro Machado quando analisa a obra Canção no Exílio:

[...] É a dessemelhança, assim, do Poeta Maior que tornara pública e universal sua saudade, pedindo a Deus que não morresse sem que antes ainda visse as palmeiras onde canta o sabiá, Tribuzi, lírico e exilado também, já se entrojetava, por demandas psicológicas, subjetivas e às vezes contraditória, mas sempre voltado para a indagação. (MACHADO, 1996, p.13-14)

Por sua vez, o caxiense Antonio Gonçalves Dias inicia seu Primeiros Cantos também como um exilado, isto é, em terra estrangeira, mais ao contrário de seus contemporâneos, cria uma obra que “representou um claro divisor de águas na poesia brasileira” (MORAES, 1998, p.59), principalmente com Canção do Exílio, que mostra-se;

[...] um poema de linguagem simbolista, e por que não dizer uma obra antecipadora do Simbolismo e do Modernismo? Sim, a primeira no gênero, no Brasil. Assim, Gonçalves Dias antecipa-se a Maranhão Sobrinho, Cruz e Sousa, Sousândrade, Augusto dos Anjos, da Costa e Silva e aos poetas da Semana da Arte Moderna de 1922. [...] O poema, revolucionário para a sua época, tem um olhar estranho, desfamiliarizado e desraizado, dizendo adeus para alguns códigos e cânones poéticos tradicionais. (CARNEIRO, 2006, p. 10-11)

Observa-se, assim, que a preocupação do autor seria a de mapear as suas próprias expectativas (saudade, idealizações e pesares) em relação ao seu país, algo que navegaria além da celebração idealizada do Brasil como a personificação do mito do paraíso terreal tão enfatizada pelos seus contemporâneos, sendo isso percebido por suas metáforas (em que ele próprio é o “Sabiá”, estranho aquelas produções artísticas) e pela ausência de qualquer adjetivo, sendo assim, mais romântico na temática do que na forma.

[...] É que Gonçalves Dias, além de alçar-se muito acima de todos os seus contemporâneos, passou, desde o aparecimento do seu primeiro volume de poemas, a ser uma referência essencial e pinacular em nosso Parnoso, posição que desde então e até hoje mantém entre nós, influenciando gerações [...]. (MORAES, 1998, p. 59)

Gonçalves Dias corporifica assim, nas suas primeiras obras, não só o tradicional, mas paradoxalmente o moderno, se pensarmos que os modernistas de 22 iriam recobrar a idéia da “brasilidade”, não mais tão lírica, mais transgressora.
Portanto, tanto o exílio do Gonçalves Dias quanto o de Bandeira Tribuzi estarão combinados não só com o saudosismo, com a evocação da “terra das Palmeiras” ou onde “vicejava uma primavera florida”, mas pelo estranhamento, ruptura e a idéia de atemporalidade que suas primeiras obras nos transpõem.

Enquanto Gonçalves idealiza voltar a “cantar” em sua terra; “Minha terra tem palmeiras,/ onde canta o Sabiá;/ as aves que aqui gorjeiam,/ não gorjeiam como lá. (DIAS in MORAES, 1998, p. 271). Tribuzi também expõe, de forma menos explicita o seu saudosismo, e tacitamente, mostra-se ermo e cheio de expectativas; “Se cantar não ajuda/ que a primavera seja muda! [...] A terra diz-me que me está nas veias/ na seiva fértil de que as trago cheias/ e eu sinto-a e acredito” ( TRIBUZI, 2002, p. 295/297)

O poema emblemático, que inaugura o anseio de brasilidade, ou de se está nessa brasilidade, torna pública e universal a saudade de Gonçalves Dias. Tribuzi, também lírico e exilado, prefere não enganar-se, procurando em si mesmo uma fuga psicológica que resultar em uma impressão futura de “sentir-se exilado em sua própria pátria”.

Sendo assim, tais perspectivas singulares, mais de predomínio lírico, podem ser dialeticamente conectadas, e, segundo o qual podemos entender um “localismo” e um “cosmopolitismo”, podemos também compor, através dessas primeiras obras poéticas, um valioso instrumento teórico-literário, mesmo que particular, que possibilitará ao leitor exercitar uma (re)siginificação do universo literário desses dois autores.

CONTINUA...

*Especialista em Língua portuguesa e literatura, e graduando do Curso de Filosofia (UFMA)

REFERENCIAS:
CÂNDIDO, Antônio. O discurso e a cidade. São Paulo; Duas cidades,1993.
CARNEIRO. Alberico. Gonçalves Dias: Canção do Exílio para todos. São Luís.Suplemento Cultural e Literário Guesa Errante – Anuário N°05, 2007.
CORRÊA, Rossini. O Modernismo no Maranhão. Brasília: Corrêa e Corrêa Editores, 1989.
COUTINHO, Afrânio. Introdução à Literatura no Brasil. 18ª ed. São Paulo: Bertrand Brasil, 2005.
CRUZ. Arlete Nogueira da. A atual poesia no Maranhão. Rio de Janeiro: Olímpia Editora, 1976.
DIAS, Gonçalves. Gonçalves Dias: Poesia e Prosa. São Paulo; Nova Aguiar, 1999.
JOMAR, Moraes. Gonçalves Dias: vida e obra. São Luis: Coleção Documentos Maranhenses, 1998.
MACHADO, Nauro. As esferas lineares: 4 estudos maranhense. 2. ed. São Luís: SECMA, 1996.
MORAES, Jomar. Apontamentos de Literatura Maranhense. 2. ed. São Luís: SIOGE, 1977.
TRIBUZI, Bandeira. Obra poética. São Paulo: Siciliano, 2002.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Maranharte Informa: Praia Grande das Artes.


O Praia Grande das Artes é um evento promovido pela Secretaria de Estado da Cultura (Secma), por meio da Superintendência de Ação e Difusão Cultural, que tem como meta fomentar a cultura e visa a potencialização do fazer artístico, possibilitando o acesso do público aos bens culturais. Ao todo, são quase mil artistas participando, e é claro que os nossos escritores não poderiam ficar de fora. Todas as noites, a partir das 18h , na Praça da Casa do Maranhão haverá lançamento de Livros, noite de Autógrafo, performances com leitura de Poemas e Texto Literário, Teatrais e Música Instrumental.

27/10

Sônia Almeida com a obra "Há fogo no logo".

António Ailton com a obra "A Humanologia do Eterno Empenho".

Ney Bello Filho com a obra: "80 Semanas de Prosa".

Laura Amélia com a obra "Cimitarra".

28/10

Alex Brasil com a obra "Todas as Estações".

Nauro Machado com a obra "Trindade Dantesca".

Lenita Estrela Sá com a obra "A Lagartinha Crisemcrise".

29/10

Waldomiro Viana com a obra “O Mau samaritano”

Milson Coutinho com a obra “Fidalgo e barões”

Arlete Nogueira da cruz com a obra “Sal e Sol”

Bioque Mesito com a obra”A Anticópia dos Placebos Existenciais”

30/10

Ceres Costa Fernandes com a obra “Surrealismo e Loucura”

José Ewerton neto com a obra “Ofício de Matar”

Joaquim Halckel coma obra “A Ponte”

Mundinha Araújo coma obra “Em busca de Dom Cosme Bento das Chagas – Negro Cosme”

domingo, 25 de outubro de 2009

Pedra Preciosa: Luís Augusto Cassas

Poetas de hoje: Luís Augusto Cassas

José R. Neres Costa
(Professor de Literatura e Escritor)

Dono de uma vasta produção literária que já conta com quase duas dezenas de títulos, Luís Augusto Cassas (foto) é um poeta de grandes recursos estilísticos e que já conseguiu imprimir uma dicção poética própria em sua obra.

Em 1981, Cassas publicou seu livro de estreia, República dos Becos, que foi muito bem acolhido pelos leitores e pela crítica especializada. Logo no prefácio deste primeiro trabalho, Josué Montello advertia que era preciso guardar o nome do novo escritor, porque não se tratava “de um simples poeta”, mas sim “de um excelente poeta (...) com uma personalidade nítida, bem marcada, desde o momento que se iniciou nas letras.” Depois vieram tantos outros livros e dezenas de estudos e ensaios sobre a poética do autor de Rosebud, que já tem, hoje, uma alentada fortuna crítica sobre seus trabalhos.

Atualmente, depois de muito esforço e perseverança no manejo com as palavras e na divulgação de seus trabalhos, Cassas já conquistou um espaço no cenário literário maranhense e, embora ainda não tenha seu trabalho devidamente reconhecido na própria terra, caminha a passos largos para deixar seu nome gravado em paragens que vão além do regional.

A temática desenvolvida por Cassas em sua produção poética é ampla e atinge uma variada gama de eixos que se bifurcam e se entrecruzam na formação de um todo orgânico em que as partes aparentemente isoladas são valorizadas e acabam se encaixando nas linhas principais desenvolvidas a cada trabalho. Além de preocupar-se com a temática central de cada livro, Cassas também não descura da linguagem e, consciente de que escrever é também brincar com o idioma, tece interessantes jogos de palavras, como o seguinte, retirado de Shopping de Deus & a Alma do Negócio, no qual a palavra NÓS adquire múltiplas significações:

Somos feitos de nós,
Nós na garganta,
Nós no peito,
Nós nas tripas,
Múltiplos nós,
Todos os nós
Todos nós,
Nós, todos.

Porém os recursos estilísticos do poeta vão além da repetição vocabular com multiplicidade semântica, ele também se vale de outros artifícios como ou uso de parênteses, desmembramento de palavras, espacialização de termos e uso de símbolos, como ocorre no mesmo livro acima citado, quando, para representar a constante presença do dinheiro na vida das pessoas, utiliza o cifrão repetidas vezes em substituição ao S, alcançando o efeito desejado.

o dinheiro é um deu$ terrível
que go$ta de $er adorado face a face
e paga à vi$ta o$ $eu$ milagre$
condecorando os vivo$ com moeda$ na língua
pra ab$olvê-lo$ da ferrugem do $ol do$ mi$erávei$.

Mas engana-se quem pensa que a poética de L. A. Cassas é composta apenas por jogos vocabulares. Ele, além de valorizar a forma, também se preocupa com o conteúdo de seus poemas. Em um passeio pela produção do poeta maranhense é possível encontrar diversas temáticas recorrentes, como, por exemplo, misticismo, telurismo, crítica social, erotismo, apego às raízes familiares e um constante ar de descontentamento com a realidade circundante. Mas, qualquer que seja a abordagem escolhida pelo poeta, fica sempre claro que o centro de sua obra é o ser humano, com todos os seus caracteres positivos e/ou negativos.

A preocupação de Cassas com o Homem, seja no campo espiritual, seja no âmbito físico-material evidencia-se em todos os livros do poeta, pois a essência humana é uma das marcas mais profundas e visíveis de toda a sua produção literária. Não importa se o tema central é a criança abandonada, o idoso humilhado, a mulher como objeto de amor e de prazer, ou mesmo uma pedra, sempre o poeta está interessado em por o ser humano com suas angústias, dores e alegrias no foco do poema.

Também chama atenção o grau de ironia com que o autor de A paixão Segundo Alcântara trata seus temas. O olhar ácido do autor não perdoa as injustiças sociais nem o descaso com que a cidade geralmente é tratada. Já em seu primeiro livro, Cassas imprime suas digitais de observador irônico da realidade circundante. No poema Parábola, por exemplo, ele consegue transformar o que acontece no dia-a-dia em um uma pequena peça de arte que traduz as contradições facilmente encontradas na dúbia realidade em que vivemos. Criaturas anônimas saem da Igreja após uma missa, mas a cabeça de cada um não está somente em Cristo, e sim nos problemas sociais que atormentam todos os trabalhadores que lutam por pedaço de chão para abrigar a família.

PARÁBOLA

Domingo de Ramos
eles vestem a fatiola engomada nas dobras
e voltam contritos e triunfais com um ramo nas mãos.
Um ramo colhido na melhor palmeira da paróquia
e bento na igreja santificada do bairro.
Seguem puros para casa? Não.
Planejam uma nova invasão no Coradinho.

Há quem considere Luís Augusto Cassas um poeta contraditório e que vaga de temática em temática, em busca de algo indefinível. Mas o próprio poeta não esconde esse caráter errante, pois, assim como Mário de Andrade dizia claramente ser “trezentos, trezentos e cincoenta...”, o poeta maranhense também tem certeza de que dentro dele habita uma multidão de seres diferentes e ao mesmo tempo complementares, conforme ele mesmo escreveu no primeiro poema de seu livro de estreia:

Habitam comigo, há anos,
no quarto escuro de mim,
dividindo o aluguel
dessas trinta e três vértebras

(...)

um estudante de Letras
um boêmio que recita
Lorca; um funcionário público
que sofre dores nos rins;
um cozinheiro que frita
ovos às três da manhã;
um advogado, que no fórum
advoga o mundo do imundo;
um conquistador barato
sem lábia e brilhantina;
e um poeta de esquina,
que por vergonha de ofício
não quer se ver declamado
em reuniões sociais.

Então, se o próprio poeta admite ser múltiplo e multifacetado, resta ao leitor buscar a voz interior que se destaca em cada poema, em cada livro. Desse modo, em alguns momentos, temos o poeta metafísico que se coloca acima dos elementos materiais e busca o eu e o outro dentro de um vazio existencial. Em outros momentos, destaca-se a voz do homem que ama sua cidade, mas que não consegue fechar os olhos para os problemas que nela são encontrados. Às vezes o que se destaca nos versos é a presença do voraz leitor que marca, nas páginas dos livros encontros com seus escritores preferidos. E muitos outros seres que habitam o mesmo ser podem ser encontrados nas páginas de Cassas. Mas eles não vêm de forma organizada, cada um em seu livro, não, eles muitas vezes fazem reuniões em uma mesma página, o que confunde o leitor menos afeito a esse estilo diferenciado do autor.

O leitor logo percebe que Cassas tem o evidente interesse de colher poesia de tudo o que o rodeia. Pedras transformam-se em poesia. A Cidade é poesia revisitada página a página. Para nada perder, até fome, miséria, lixo e podridão metamorfoseiam-se em poemas... Mas essa metamorfose constante não deseja esconder a realidade, mas sim torna-se um recurso para torná-la mais evidente aos olhos das pessoas.

Em alguns momentos, o poeta aproxima seus textos de versículos bíblicos e, misturando o sagrado e o profano a seus recursos poéticos-estilísticos-irônicos, consegue alguns efeitos imagéticos que, apesar de aparentemente repetitivos, mostram um poeta inventivo e que parece ter encontrado seu caminho nas tortuosas veredas da poesia. No fim, entre ironias, inusitados jogos de palavras e uma profunda consciência do fazer poético, fica a lição de que:

Engano o homem
ser animal político
por definição.

O homem
é animal poético
em pleno verão.

fonte: Suplemente Literário Guesa Errante - Jornal Pequeno (Edição 208)

sábado, 24 de outubro de 2009

Maranharte Informa: IV Mostra SESC Guajajara de Artes


São Luís recebe, a IV Mostra Sesc Guajajaras de Artes, que teve inicio nesta sexta-feira (22/10/2009). O Evento terá diversas apresentações das mais variadas vertentes artísticas em ruas, teatros auditórios, hospitais, escolas, empresas, comércios e terminais de ônibus. Os grupos teatrais maranhense mais importantes estarão participando com adaptações de obras nacionais e internacionais. Gostaríamos de registrar a participação do grupo Cena Aberta, dirigida pelo Profº Pazzini (UFMA), que apresentará a Intervenção "Bustos In Depredação", no dias 27/10 (terça-feira) às 18h na Praça Gonçalves Dias e no dia 29/10 (quarta) também as 18h na Praça Benedito Leite.


Este é o terceiro espetáculo na qual o grupo Cena Aberta utiliza figuras da nossa história nas suas experiências dramatúrgicas. O primeiro foi "Diálogo das memórias: Imperador Jones", na qual inseriram figuras da historiografia maranhense como Ana Jansen (foto) e Negro Cosme (além de frases de Maria Firmina dos Santos), com figuras como Dom Sebastião e o Imperador Jones, da obra do americano Eugênio O´Nell. O segundo espetáculo foi inspirado no livro Jornal de Timon, do maranhense João Lisboa e este terceiro, por sua vez, é inspirado livremente na obra do dramaturgo maranhense Aldo Leite; "ABC da Cultura Maranhense".


A peça foi encenada pelo grupo Gangorra em 1979 e fala sobre a inesperada inclusão de um ilustre desconhecido no rol dos grandes escritores maranhenses, depois da cerimônia de inauguração os outros "bustos" questionarão tal ato.

Abaixo um pequeno trecho do original:


João Lisboa - Senhor!

Camilo CalazansPois não !

J.L. – Pouco se sabe dso homnes da nossa terra, porém, no momento em que aqui aporta, queira por gentileza dizer-nos quem sois! O meu espírito está impregnado de dúvidas.

C.C. Eis-me num instante deveras embaraçoso! Sou e não sou! Quero dizer; acredito não dever estar aqui entre vós!

Gonçalves DiasMas, então!...

C.C. – Explicou-vos!.... Nas letras e nas artes fui apenas um expectador! Nada fiz em vida que justifique a minha inclusão neste rol ilustre...

J.L. – O homem, nobre senhor, tem em vida opções várias para atuar, e, plagiando V.Sa., tornar-se ilustre! As letras e as artes, talvez sejam os caminhos mais belos. No entanto, pode-se manifestar o nosso pensamento por várias vias!...

C.C – Entendo! No entanto, existem períodos, momentos!...

J.L. – Perfeitamente! É saber usar o momento; é ter coragem! Entre os vivos como participou V. As. ?

C.C. – Quando disse a pouco sentir-me embaraçado, quis explicar... Eu,... Acredito... Pelos amigos influentes que são, alçaram-me a este posto; defendendo a sua política, seus métodos de governo, teria que ser publicamente homenageado.

Graça Aranha- Permita-me um momento, caro amigo! Sou Graça Aranha! Talvez até o momento o nosso caro J. Lisboa não tenha expressado exatamente a sua, nossa dúvida. Explico-me:Em vida, como V. As. Atuou frente aos fatos da sua época? Houve uma expectativa quanto a anistia, há uma insatisfação quanto a esta mesma anistia! Como V. As. Em tudo isto esteve ?

C.C. Exatamente! Eu tentei falar de momentos, períodos!... Nem sempre é possível!...

J.L.Nem sempre temos coragem! Ilustre recém-chegado. O medo d perder as benesses governamentais, muitas vezes impede que homens brilhantes se manifestem, com receio de perder benefícios! Enganam-se! Ao contrário de serem mais prestigiados, vão aos pouco perdendo terreno! É a palavra, versus ação corajosa, que nos faz admirados, se é que assim devemos nos expressar!


ABC da Cultura Maranhense, de Aldo Leite)