segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Maranharte informa: Lançamento

Sobre o livro "Contos cruéis", de Bruno Tomé Fonseca a ser lançado por esta editora, o Escritor e Prof. José Neres, comenta e indica:

"Acabo de reler (sim, de reler mesmo, pois esse trabalho merece ser lido e relido) os originais de CONTOS CRUÉIS, livro de estreia de Bruno Tomé Fonseca. Não sei quando será lançado o livro, mas espero que seja em breve, pois as letras maranhenses carecem de prosadores de talento que engrossem nossas fileiras literárias.
São apenas sete contos, a maioria com narração em primeira pessoa, mas que trazem em comum personagens angustiadas e que buscam desesperadamente encontrar um motivo para continuar a própria existência. Ironicamente, o autor coloca no mesmo patamar de tédio e de angústia, um escritor de best sellers, uma lésbica abandonada pela parceira, um advogado em crise existencial, um músico cheio de frustrações e duas bactérias que mantém um diálogo ao mesmo tempo filosófico a respeito da própria existência e da possibilidade de haver vida além do “túnel úmido”.O desejo de conhecer o mundo e ao mesmo tempo de (re)conhecer-se como parte integrante das sempre contraditórias insanidades do mundo; a certeza de alcançar seus objetivos plenamente e a busca desesperada por algo que possa encher o vazio do viver são as marcas essenciais dos CONTOS CRUÉIS de Bruno Tomé Fonseca. Os leitores mais acostumados com as narrativas contemporâneas não deixarão de identificar nos contos algumas pinceladas de leituras de Rubem Fonseca, Patrícia Melo, Dalton Trevisan... e voltando um pouco mais no tempo, de Franz Kafka, Charles Bukowski e Roberto Arlt, mas sem tentativa de imitação, mas apenas de inspiração técnica e temática.
Esperemos que o livro seja editado e chegue às mãos de quem aprecia a literatura contemporânea. Alguns contos podem chocar leitores mais sensíveis, mas isso é bom, pois, às vezes é preciso lembrar ao mundo que além das rosas e dos jardins há também o esterco, os porcos e as bactérias."

domingo, 29 de novembro de 2009

Opinião de Pedra: sobre a 3ª Feira do Livro


GULLAR PERDIDO NA FEIRA

José Neres*

Eis que chega ao fim a III Feira do Livro de São Luís, um evento que já se tornou parte importante do calendário cultural da capital maranhense e que sempre é muito aguardado pelos amantes da literatura e mesmo por quem simplesmente aproveita a ocasião para passear pelos corredores repletos de livros.

Nesta edição, o patrono da Feira foi o poeta, crítico, teatrólogo, roteirista e tradutor Ferreira Gullar, um dos maranhenses mais respeitados nos círculos intelectuais do país. Um escritor que merece todas as homenagens possíveis.

Logo ao chegar à Feira, os visitantes se deparavam com gigantescas reproduções de livros do autor, com um imenso painel e com um amplo auditório em homenagem ao poeta. A expectativa tomava conta dos visitantes. Uma monitora simpática entregava o livreto contendo a programação oficial do evento. Os admiradores de Gullar devoravam as páginas do folheto procurando as palestras e comunicações a respeito do homenageado. Decepção! Parece que as homenagens se limitavam à estrutura física da Feira e a uns raríssimos e pouco destacados momentos de debate sobre o trabalho do autor do Poema Sujo.

Todos já sabiam que o Gullar em pessoa não estaria presente à III Feira do Livro de São Luís, mas havia a esperança de que sua ausência física fosse compensada com debates sobre suas obras, com exposições sobre sua carreira e com discussões a respeito da produção de uma dos maiores poetas do Brasil contemporâneo. Mas isso não aconteceu!

Por alguma razão, os estudiosos da obra de Ferreira Gullar tiveram pouco espaço para apresentação de seus trabalhos. Todos sentiram a falta de uma mesa-redonda, que discutisse as diversas facetas da produção intelectual do escritor, e das provocações e comentários que certamente surgiriam por parte dos não-admiradores da obra gullariana. Para compensar um pouco a falta de debates sobre o patrono da Feira, o sempre incansável Alberico Carneiro, além de fazer uma palestra sobre “A Luta Corporal e o Crime na Flora”, distribuiu uma edição especial do Guesa Errante, contendo uma entrevista concedida por Gullar a Euclides Moreira Neto.

Público e Mídia

Com todo evento de grande porte, na III Feira do Livro de São Luís houve diversos pontos positivos e negativos. Novamente o antigo ditado que diz que Santo de casa não faz milagre parece que se comprovou. Os autores da terra não conseguiram fazer o milagre da multiplicação de público e quase sempre contaram com um espaço repleto de lugares vazios. No Café Literário, por exemplo, os escritores convidados falavam para parentes e amigos mais próximos, pois o restante do público ou se contentava a dar uma espiadela pelo vidro ou passava indiferente pelo local. O mesmo aconteceu em outros espaços, com palestrantes que se viram obrigados a transformar a fala preparada para um grande público em um pequeno círculo de bate-papo.

Com relação à mídia, há os problemas de sempre. Um espaço (não grande, mas pelo menos há) para os palestrantes com um nome destacado e um silêncio total para os conferencistas locais que, muitas vezes, como sempre comenta o escritor Ubiratan Teixeira, são encaixados na anônima categoria de Outros nas reportagens. Isso se torna visível quando uma atriz global sem (pelo menos por enquanto) projeção no mundo das letras é muito mais lembrada na imprensa, com constantes chamadas para sua palestra e para o lançamento de sua obra, do que José Louzeiro, que, com suas cinco dezenas de livros publicados, não teve a divulgação merecida.

Louzeiro, por sinal, foi um dos pontos positivos da Feira. Muito simpático e atento, transitou pelos diversos espaços do evento e foi bastante presente em várias atividades. Da mesma forma foi muito bom ver Nauro Machado relançando suas Esferas Lineares, Antônio Guimarães cercado de pessoas pedindo autógrafo e tantos outros escritores circulando pelos corredores. Outro ponto positivo foi que, no já citado Café Literário, este ano os autores convidados tiveram liberdade para falar livremente, sem a incômoda interferência de mediadores que limitavam o tempo de fala.

A III Feira do Livro de São Luís chega a seu fim, mas seus momentos e efeitos – positivos e negativos – ainda irão ecoar por várias semanas, a próxima edição. Quando comparações e discussões voltarão à tona.

* escritor e professor universitário em São Luís-MA

www.joseneres.blogspot.com

Maranharte Indica: Obras vencedoras do Prêmio Gonçalves Dias

No dia 12 de Novembro, houve o lançamento de Obras Literárias do Plano Editorial Secma - Prêmio Gonçalves Dias, mas essa é só a primeira etapa. No dia 10 de dezembro, mais dez publicações serão conhecidas pelo público na segunda etapa do evento. O concurso literário contemplou a produção nos seguintes gêneros: romance, crônica, poema, conto, novela, teatro, literaturas infantil e juvenil, ensaio, engenho e arte. Durante a noite de autógrafos, o superintendente da SADC, Wellington Reis, anunciou o lançamento do Edital Universal de Apoio à Cultura Maranhense, para o início de 2010 (já que, por questões das “palhaçadas políticas”, o concurso não aconteceu este ano), onde não só a literatura, mas todas as áreas da arte serão contempladas.
Segundo Alberico Carneiro (Guesa Errante, Ed. 211,) “Há 14 anos, os Planos Literários sofrem solução de continuidade e, em 2007, preocupado com esse aspecto decadente, o Secretário de Cultura Joãozinho Ribeiro resolveu criar um novo Plano Editorial para a SECMA. Para tanto, criou uma Comissão constituída pelos escritores Nauro Machado, Wilson Martins, Antonio Aílton, Alberico Carneiro, José Maria Nascimento e Zema Ribeiro. Como resultado dos estudos dessa Comissão, foi oficializado o Plano Editorial SECMA Prêmio Gonçalves Dias de Literatura, lançado no auditório da Biblioteca Pública Benedito Leite, em acontecimento solene. É preciso tornar-se público e notório que esse Plano foi posto em prática no governo Jackson Lago e executado por Joãozinho Ribeiro que efetivou o pagamento do Núcleo de Literatura, das Comissões de Leitura, dos prêmios dos escritores e das edições dos 27 livros vencedores. Somente quase um ano depois, em novembro de 2009, parte dos livros foi lançada, por insistência dos escritores premiados, reclamando seus direitos autorais em jogo, com razão.

Confira as obras e os autores da primeira etapa do lançamento de obras literárias:

- A Manguda de Flores, de Arimatéa Coelho: O livro é uma reunião de 15 contos que reportam o leitor para a década de 50 e retratam momentos engraçados, fantásticos, trágicos, de solidão e de amor. Poeta, contista, cronista e educador, Arimatéa Coelho é natural de Vitória do Mearim (MA) e possui uma vasta publicação de artigos e crônicas sobre literatura maranhense, e livros de poesia.

- O assassinato de Charllenne, de Igor Nascimento: É uma peça que apresenta temas como, noite, prostituição, assassinato, drogas e loucura. Com diálogos rápidos e retrucas afiadas, a obra é a terceira peça do autor. Escritor de crônicas e contos, registrados na Revista Bula+, Igor Nascimento escreve para o fanzine "Glosa", lançado periodicamente na Ufma.

- Escritura do Silêncio, de Chagas Val: Conjunto de poemas que retratam o amor pela terra, pessoas e coisas de um dado lugar. Com imagens, jogo de palavras e musicalidade, o autor se volta para a natureza e apresenta uma vida com mais plenitude. Chagas Val é autor de várias obras poéticas, entre elas Chão e Pedra (1972), Chão Eterno (1978) e Floração das Águas (1992).

- Labirintos, de Ubiratan Teixeira: Novela que se passa na capital maranhense que vive seu tradicional destino de mística e mexeriqueira. Aborda lendas sobre Dom Sebastião e um clero cheio de artimanhas. A primeira obra publicada do autor é Pequeno Dicionário do Teatro. Em seguida, Ubiratan Teixeira lançou mais onze obras, como Sol dos Navegantes, O Banquete e A Ilha.

- A Temática Feminina na Produção Escultórica de Carlos Antônio de Menezes, de Flames Lima: Ensaio inédito que resgata a vida e a obra do artista modernista brasileiro, Celso Antônio de Menezes. Resultado da monografia apresentada ao curso de Educação Artística da Ufma, o livro é a primeira publicação de Flames Lima, que também é pesquisadora da arte maranhense e da arte como terapia, além de desenvolver trabalhos em gravura.


- O Plano, de Marcello Chalvinski: Romance que mistura violência, sexo, aventura, mistério e tragédias, misturadas em uma trama não-linear e imprevisível. Escritor, poeta e publicitário, Marcello Chalvinski nasceu em Curitiba e, depois de percorrer muitos estados do país, fixou-se em São Luís (MA). Em 1999, estreou em livro com "Anjo na Fauna & Outros Poemas".

- Canções de Agosto, de Márcio Coutinho: Romance que se passa em dois tempos de ação: o primeiro, no século XX, e o outro no mês de agosto contemporâneo. O cenário é uma casa de praia de uma capital insular, que, pelo imaginário do leitor, pode ser São Luís. Estreante ficcionista, Márcio Coutinho escreve numa linguagem clara, sem malabarismos sintáticos ou estilísticos.

- Um Cachorro Um Vinho Uma Herança e Um Samba, de Geraldo Iensen: Reunião de quatro contos, cujos personagens estão ligados, cada um de uma maneira diferente, à música. A trilha sonora é um elemento de destaque da obra. Escrito pelo jornalista e fotógrafo nascido no Paraná, Geraldo Iensen, o livro é a sua quarta publicação, antecedido por O Legado de Torres (1997), Uma Outra Versão (2001) e Sêpsis (2006).

- A Águia e a Coruja, de Felipe M. Kalyma: Literatura infanto-juvenil, o livro é a história de Cecília, uma coruja que adorava voar sobre a praia e que encontra uma águia em seu caminho. Autor maranhense de contos, seus escritos são publicados no blog http://chineloterapia.blogspot.com

- Céu de Ilusões, sobre crimes e artes, de Vinícius Bogéa: Romance policial que mistura personagens decadentes e figuras de proa da sociedade, num cenário de crime e corrupção. Autor de "Roubando Sonhos" (2007), Vinícius Bogéa é natural de Viana (MA) e atua no cenário jornalístico maranhense.

fonte:www.badaueonline.com.br
www.guesaerrante.com.br

sábado, 21 de novembro de 2009

Maranharte Informa: 3ª Feira de São Luís

Aberta ontem (20/11/09) a 3ª Feira do Livro de São Luís na Praça Maria Aragão, que este ano tem como tema “A diversidade literária na Capital Brasileira da Cultura”. Esta terceira edição do evento será realizada até o dia 29 de novembro, e tem como patrono o poeta maranhense Ferreira Gullar, que infelizmente não vem ao evento. Os espaços este anos serão: os auditórios Ferreira Gullar e José Louzeiro, Café Literário, Espaço Infantil, Casa da Juventude, Casa do Escritor Maranhense, Casa do Professor, Cineclube Literário etc.

A Feira do Livro é Organizada pela Fundação Municipal de Cultura (Func), tem o patrocínio da Vale e do Serviço Social do Comércio (Sesc-MA), da(Semed), Turismo (Setur), de Obras e Serviços Públicos (Semosp), de Saúde (Semus), Fundação Municipal do Patrimônio Histórico (Fumph), Academia Maranhense de Letras (AML), Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), Guarda Municipal, Limpel, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros e a Prefeitura de São Luís.

A programa sobre a nossa Literatura e com os nossos literatos está bem extensa, em especial no Café Literário e na Casa do Escritor Maranhense, que este ano, teve a gentileza de abir suas portas para os novos escritores. Além das palaestras, haverá várias apresentações cênicas baseadas nos poemas do Ferreira Gullar e em algumas obras dos nossos teatrólogos.



Pedra Preciosa: Ferreira Gullar

Ferreira Gullar é o nome literário do cidadão José Ribamar Ferreira, que nasceu na Rua dos Prazeres, 497, em São Luís, Maranhão, Brasil, no dia 10 de setembro de 1930. Poeta, ensaísta, crítico, dramaturgo e jornalista, transfere-se para o Rio de Janeiro, em 1951. Sua obra literária marco, A Luta Corporal, foi publicada aos 24 anos de idade. Participou da resistência à ditadura militar, que se instaurou, no Brasil, em 1964. Foi perseguido, processado, preso e sofreu exílio, em Buenos Aires, na Argentina. O retorno do poeta ao Brasil é precedido pela publicação do Poema Sujo, em 1976, obra de fôlego e de grande repercussão.Poeta de vanguarda, participou dos movimentos concretista e neoconcretista, dos quais foi teórico. Mas logo rompeu com esse tipo de sincretismo, em função da poesia de cunho social, mas sempre preocupado por uma linguagem poética inovadora e compromissada com a inesgotável busca do enternecimento.
Aproveita a homenagem que a 3ª Feira de Livro de São Luís presta ao poeta Ferreira Gullar, o MARANHARTE reproduz alguns trechos de entrevistas cedidas para vários meios de comunicação. Nada melhor do que o próprio artista falar de sua concepção poética.

(Entrevista exclusiva com o poeta Ferreira Gullar, concedida, nos últimos dias do mês de novembro de 1995, no Rio de Janeiro, ao poeta e crítico literário Weydson Barros Leal.)

Weydson - Numa entrevista recente, você disse que escreve esporadicamente, e só quando tem “algo novo a dizer”. Você acha que o que difere o bom poeta dos demais é esse discernimento na hora de escrever?

Gullar - Sim, claro. Eu não estou querendo estabelecer um “democratismo” que inclui tudo. Mas eu acho que, de um determinado patamar em diante, todos são poetas, quer dizer, quando você chega no patamar de Vinicius, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Drummond, todos são poetas... Eu me lembro quando comecei a ler Murilo Mendes – eu era garoto em São Luís –Mundo Enigma, Poesia Liberdade, eu achei aquilo tudo deslumbrante. Eu deitava na minha rede, à tarde, e punha do lado uma pilha de livros. Todos os dias eu lia Manuel Bandeira, Drummond, Murilo Mendes, Jorge de Lima. Eu adorava todos eles. Eu não estabelecia aquela coisa de que um era melhor de que o outro. Quando eu lia Bandeira, eu gostava daquela emoção contida, pura; depois eu pegava o maluco do Murilo Mendes e lia aquelas coisas: “as nuvens jogam boxe”..., depois ia para Drummond, aquele troço mais denso... Eu sempre procurei passar pros jovens, depois, quando eu já estava mais experimentado, essa idéia da pluralidade, sempre a idéia da pluralidade.


Weydson – A poesia, como a arte em geral, é uma forma de fugir da realidade?
Gullar - Eu não diria que é uma forma de fuga, porque ao mesmo
tempo ela procura tornar a vida possível. Ela não quer sair da vida. O homem não faz poesia para sair da vida, ele faz poesia para ter coragem de viver. Além disso, há o fato de que o homem nasce pra morrer. Então, nada tem sentido. E por isso a religião existe, porque ela é a resposta para isso, porque ninguém agüenta...


Weydson - No início de sua vida literária, a forma fixa era algo que você dominava e utilizava com freqüência. Em que momento você percebeu que o verso livre era o seu verdadeiro meio de expressão?

Gullar - Eu tinha, de fato, um grande domínio das formas clássicas, como o soneto, e toda a métrica e rima, que eu aprendi e exercitava sozinho. A tal ponto, que eu falava em decassílabo. Porque isso é uma coisa que você assimila, e, quando eu percebia, estava falando realmente em decassílabo. Quando eu descobri a poesia moderna, quando chegaram seus principais sinais nos suplementos literários em São Luís, eu fiquei espantado, nos primeiros momentos. E minha primeira reação foi rejeitar aquilo. Eu achei estranho aquele negócio de “lua simétrica”, de Drummond, e dizia: “Poxa, que troço esquisito esse!” E não só a adjetivação, mas também o uso das palavras. Palavras banais usadas em poesia... Então eu tratei de buscar explicação para aquilo. E comecei a ir à Biblioteca Municipal e procurei ler livros sobre a poesia moderna. Foi aí que eu descobri O empalhador de passarinhos, do Mário de Andrade, Cinzas do Purgatório, do Otto Maria Carpeaux; Álvaro Lins, etc. Fui lendo os críticos modernos e fui entendendo o que era aquilo. E eu vi que aquele “troço” tinha sentido. Que aquilo não era nenhum disparate. Foi exatamente na época que eu havia publicado o meu primeiro livro, Um pouco acima do chão, que é um livro ingênuo, um livro imaturo, mas que já possuía alguma coisa livre. O fundamental é que eu descobri por que havia o verso livre... Eu me lembro que nessa época eu li uma frase que era atribuída a Gauguin, que dizia mais ou menos isso: “Quando eu aprender a pintar com a mão direita, passarei a pintar com a mão esquerda e quando eu aprender a pintar com a mão esquerda, passarei a pintar com os pés”. Essa frase teve uma enorme repercussão na minha cabeça porque aí eu vi que a poesia que eu tinha feito até ali era uma poesia de habilidade, do domínio técnico e que a verdadeira arte – que eu acabava de descobrir – tinha de ser a invenção de sua própria técnica. Por isso, eu não podia mais me ater a normas prontas, eu tinha de descobrir no processo a forma do poema, e esta é, enfim, a essência do livro A Luta Corporal.

Weydson - Cada poema passaria a ter uma estrutura própria...

Gullar - Bem, cada poema, que nasce de uma experiência, de uma emoção, de uma descoberta, tem que gerar sua própria forma. Então, no fundo, isso significava que eu rejeitava os macetes, a habilidade, a própria sabedoria técnica, soluções prontas para serem transferidas de um poema para outro. Mas isso era uma proposta fáustica, uma loucura, ou seja, eu radicalizei a atitude da busca da forma nova de tal maneira. Logo, A Luta Corporal é um livro em que num primeiro momento eu ajusto contas com a poesia clássica e faço uma série de poemas em que violento suas normas e não uso mais metrificação ou rima, como é o caso dos “poemas portugueses”. A partir daí eu começo a buscar uma outra coisa. Agora, o interessante é que quando eu me livrei daquelas formas eu descobri o mundo.


Weydson – Sempre que você fala “Academia”, eu sinto algo distante, ironicamente distante. Você nunca pretendeu, ou não pretende, entrar pra Academia ?

Gullar - Eu acho que Academia e Poesia são incompatíveis. Eu não tenho nada contra as Academias, mas acho

realmente que a cultura tende a se institucionalizar. É um absurdo imaginar a cultura como mera manifestação individual ou sempre marginal. Isto não tem saída. Pelo próprio processo da sociedade, a tendência da cultura é se institucionalizar e nisso não há só perdas, há ganhos. Isto é uma coisa. Agora, eu, pessoalmente, com o meu temperamento, e com a minha maneira de ver a poesia, eu me sentiria mal, seria como se eu estivesse me traindo.


Weydson - O Poema Sujo, pela sua expressão, foi escrito a partir de uma reunião de fragmentos, num longo espaço de tempo, ou foi concebido e escrito apenas entre os meses em que está datado?

Gullar - O Poema Sujo foi escrito durante alguns meses, mas durante esses meses eu só fiz aquilo. No dia em que eu escrevi as primeiras cinco páginas do Poema Sujo, no mesmo dia, eu tinha de escrever uma carta para um amigo (Leandro Konder) que estava em Bonn (respondendo a uma carta que ele havia me mandado) e nessa eu escrevi: “Comecei a escrever um poema que terá cerca de cem páginas e que se chamará Poema Sujo”. Eu tinha acabado de escrever as cinco primeiras páginas e sabia que ia ter por volta de cem páginas.


(entrevista concedida ao jornal Folha de São Paulo, em 2002)

Folha de S.P.- Como o sr. se relaciona hoje com seus livros dos anos 60 "Cultura Posta em Questão" e "Vanguarda e Subdesenvolvimento", recém-relançados em um volume? Como o sr. interpreta, à luz da globalização, a tese de que os brasileiros não deveriam aderir às vanguardas mundiais?

Gullar - O que digo no livro é que a arte nasce do particular. Não existe arte cosmopolita. Mário de Andrade já dizia que o internacional é nacional de algum país. Não existe o ser universal. Ele nasce em algum lugar, tem uma história, e a arte

nasce dessa história. Uma arte que parta das influências externas, das influências cosmopolitas não é boa. Ela pode ser absorvida e transformada, como no caso dos neoconcretos.


Folha de S.P.- E como a globalização influencia esse processo?

Gullar - A globalização valoriza minha posição de valores que não são cosmopolitas, porque até para defender o seu país, economicamente, você tem de valorizar o que é próprio dele, de sua literatura e arte. Valéry já dizia que não descobriu nada no mundo que não estivesse no seu quintal.


Folha de S.P.- Hoje a arte não tem função social?

Gullar - Até se pode usar, mas você fará uma arte de segunda.


(Para os jornalistas Maurício Ayer e Renato Rovai Para a revista Forum, Abril de 2008)

Fórum – No seu livro Muitas Vozes (José Olympio), o senhor elabora a idéia de que sua voz convive com outras vozes que se manifestam nos poemas? Como é isso?

Gullar – Por exemplo, o João Cabral [de Mello Neto] queria só a voz dele nos poemas. Tudo que soava que não fosse dele ele eliminava. Era um tipo de exigência diferente da minha. A minha poesia é constituída de outras vozes além da minha, não só das vozes de outros poetas que leio, das coisas que aprendi, dos livros que li, dos amigos, das conversas, dos cheiros, tudo isso são vozes. Minha poesia é um alarido, basta apurar o ouvido. Quanto mais gente, comigo, melhor, é diferente de procurar uma coisa que esteja só uma voz falando. Até porque é impossível esta voz única que João buscava.


Fórum – Com relação à morte, que aparece em alguns dos seus poemas...

Gullar – Cedo ou tarde vai acontecer. Particularmente, não me angustio com isso, acho natural, às vezes até brinco e falo que “morrer é bom”. Mas é difícil você aceitar o seu fim. É uma coisa com a qual lido como outras pessoas lidam, e acredito que tenhamos que buscar uma resposta. Feliz de quem acredita em Deus e em outras vidas, mas pertenço àquele grupo que fez a pio

r escolha. Vai morrer e virar nada.Mas acho que o sentido da vida é o outro. Tudo o que você faz só tem sentido se tiver valor para o outro. Quando digo que a vida é inventada e que pode ser mudada, e até para que eu exista, é preciso que você me reconheça.


(Entrevista concedida em 2008 ao jornalista Armando Antenore, para a revista Bravo)

Bravo- O senso comum costuma apregoar que poetas nascem poetas. Poesia é destino?

Ferreira Gullar: Prefiro dizer que é vocação. O poeta traz do berço um modo próprio de lidar com a palavra. Não se trata, porém, de um presente dos deuses, de uma concessão divina, como se pregava em outras épocas. Trata-se de um fenômeno genético, biológico, sei lá. Há quem nasça com talento para pintar, jogar futebol ou roubar. E há quem nasça com talento para fazer poemas. Sem a vocação, o sujeito não vai longe. Pode virar um excelente leitor ou crítico de poesia, mas nunca se transformará num poeta respeitável. Quando um jovem me mostra originais, percebo de cara se é ou não do ramo. Leio dois ou três poemas e concluo de imediato. Por outro lado, ca

so o sujeito tenha a vocação e não trabalhe duro, dificilmente produzirá um verso que preste. Se não estudar, se não batalhar pelo domínio da linguagem, acabará desperdiçando o talento. "Nasci poeta, vou ser poeta." Não, não funciona assim. Converter a vocação em expressão demanda um esforço imenso. Tudo vai depender do equilíbrio entre o acaso e a necessidade. A vocação é acaso. A expressão é necessidade. Compreende a diferença? No fundo, a vida não passa de uma constante tensão entre acaso e necessidade.


Bravo- Nada escapa desse binômio?

Nada. O que faz o homem sobre a Terra? Luta para neutralizar o acaso. Eis a principal nece

ssidade humana: driblar o imprevisível, a bala perdida. Concebemos Deus justamente porque buscamos nos proteger da bala perdida. Deus é a providência que elimina o acaso. É o antiacaso.


Bravo- Conclui-se, então, que o poema também almeja dar significado à vida.

O poema nasce do espanto, e o espanto decorre do incompreensível. Vou contar uma história: um dia, estava vendo televisão e o telefone tocou. Mal me ergui para atendê-lo, o fêmur de uma das minhas pernas bateu no osso da bacia. Algo do tipo já acontecera antes? Com certeza. Entretanto, naquela ocasião, o atrito dos ossos me espantou. Uma ocorrência explicável de súbito ganhou contornos inexplicáveis. Quer dizer que sou osso?, refleti, surpreso. Eu sou osso? Osso pergunta? A parte que em mim pergunta é igualmente osso? Na tentativa de elucidar os questionamentos despertados pelo espanto, eclode um poema. Entende agora por que demoro 10, 12 anos para lançar um novo livro de poesia? Porque preciso do espanto. Não determino o instante de escrever: "Hoje vou sentar e redigir um poema". A poesia está além de minha vontade. Por isso, quando me indagam se sou Ferreira Gullar, respondo: "Às vezes".


Bravo- A falta de controle sobre o ato de escrever o angustia?

Não, em absoluto. A experiência de criar um poema é maravilhosa. Mas, como não depende inteiramente de mim, sei que corro o risco de nunca mais vivenciá-la. Se parar de fazer poesia, vou lamentar — só que não a ponto de disparar um tiro na cabeça. Nenhum poema, de nenhum poeta, me parece imprescindível. Dante Alighieri poderia não ter escrito A Divina Comédia. Ou poderia tê-la escrito de outro jeito. Novamente: tudo se subordina à lei do acaso e da necessidade.


Bravo- Um poema deve sempre emocionar?

Sim, deve emocionar primeiro o poeta e depois o leitor.

Nos tempos de militância comunista, você usou a poesia com fins políticos. O engajamento dos poetas ainda se justifica?

Não, de jeito nenhum. Os poetas, agora, irão se engajar em quê? No socialismo ridículo do Hugo Chávez? Foi um engano imaginar que versos contribuiriam para a revolução social. Admito que um poema consiga iluminar o leitor, consiga lhe abrir a cabeça. Mas daí a mudar a sociedade... Muito complicado!


Bravo -Em setembro de 2010, você completa 80 anos. Sente-se realizado?

Olha, a vida é uma cesta em que, quanto mais se põe, mais se deseja colocar. Estamos sempre partindo do zero. Hoje pinto um quadro ou termino de ler um livro. Fico satisfeito. Mas, amanhã, me pergunto: e agora?


Fontes:www.guesaerrante.com.br,

www.bravoonline.com.br.

www.forum.com.br

www.folhaonline.uoll.com.brFoto da Rua dos Prazeres - Centro - São Luís, onde Gullar morou.

Poema Sujo foi escrito quando Gullar estava exilido (Chile, Argentina, etc), fugindo da ditadura militar. Segundo Vinícius de Moraes, estamos diante de "um poema-limite, vertiginoso na evocação da São Luís da infância do poeta, das história, personagens e sensações prestes mergulhar no esquecimento da morte".



(poema inédito do próximo livro de Gullar, "em alguma parte alguma, cedido para a revista Bravo)