sábado, 20 de fevereiro de 2010

Pedra Preciosa: Rodrigues Marques


Rodrigues Marques do maravilhoso ao cruel

Thania Damasceno*


“A geografia do cérebro comporta histórias de nível mais elevado do que os que povoam o chão de nossa vizinhança.”

(Rodrigues Marques)


Osmar Rodrigues Marques foi um escritor ativo, que além de escrever constantemente, promovia eventos literários.

Nasceu em Caxias, município do Maranhão, no dia 23 de janeiro de 1929. Na sua terra viveu a infância e publicou seu primeiro conto, aos doze anos de idade. Sua família era humilde - a mãe era doceira e dona de casa e o pai, marceneiro e apicultor - e era composta por mais quatro irmãos. Aos 21 anos mudou-se para o Rio de Janeiro, com o intuito de alcançar um curso superior. Lá, apesar das dificuldades financeiras, superadas também com o apoio do irmão, conseguiu empregar-se e formar-se em Direito.

Mudou-se em 1968 para Niterói, local em que viveu até sua morte, em 26 de agosto de 1999. Trabalhou no Tribunal de Justiça como chefe de protocolo da corregedoria de justiça do Rio de Janeiro. Teve quatro filhos legítimos e três fora do casamento. Pouco antes de falecer, separou-se da esposa por curto período, vivenciando um romance com outra mulher. No entanto, quando do início das limitações geradas pela doença que o afligiu, já estava novamente na convivência da família, sendo pela mesma amparado até seu último olhar sobre a terra.

Possuidor de um espírito alegre, adotou o estilo de vida carioca, tornou-se amante do samba, e naqueles ares foi que sua vida literária se efetivou e onde também conheceu outros intelectuais, como a escritora Dinah Silveira de Queiroz - eleita em 1980 para a Academia Brasileira de Letras - que se tornou sua admiradora e amiga. Manteve contato também com a escritora Lygia Fagundes Telles, sendo a mesma uma influência contemporânea em sua obra. Cultivou grande amizade ainda como o poeta Déo Silva, seu conterrâneo.

Rodrigues Marques atuou como jornalista, contista, romancista e novelista. Seus trabalhos foram todos escritos em prosa, contrariando a tradição de ter nascido em uma cidade que frutifica poetas, embora a poesia impere nas suas palavras não versadas. É patrono da cadeira de número 10 da Academia Caxiense de Letras.

O escritor caxiense enveredou também pela área das artes plásticas, criando, inclusive, algumas das capas de seus livros, como nas obras “Julieta, coisa e tal” e “De como José encontrou o mar e, ajoelhado, esperou as gaivotas”, trabalhos esses que podem ser incluídos numa estética modernista. A partir de 1956 envolveu-se em movimentos literários, organizando o Festival de Poetas Inéditos (Rio de Janeiro), fundando ainda a Editora Caminho. Foi incluído como verbete na reunião de biografias “Brasil e brasileiros de hoje”, de Afrânio Coutinho. Esteve em Caxias pela última vez em 1998, pouco tempo antes de falecer devido a complicações no fígado.

Como Dinah Silveira de Queiroz o apelidara, o contista autor de “Noite sem Limite” era um verdadeiro “papa-prêmios”, pois sua intensa dedicação ao mundo das palavras e da arte lhe rendeu a oportunidade de receber inúmeras láureas, tais como os prêmios: Orlando Dantas - IV Centenário do Rio de Janeiro; Graça Aranha (São Luís - MA); Ficção do Banco Regional de Brasília; Ficção do Governo do DF; Prêmio Adelino Magalhães (Rio de Janeiro) e o Prêmio Romance do Governo de Goiás, dentre outros.

Apesar de bastante premiado e dono de uma prosa acessível e de sucesso na geração que o acompanhou, esse caxiense radicado no sudeste do país permaneceu na marginalidade literária, sendo pouco conhecido atualmente, como se o seu nome não tivesse sido forte o suficiente para perdurar por mais tempo, o que, para um escritor tão sensível à vida que o cercava, vem a ser uma evidente injustiça.

Seu estilo é facilmente reconhecido, sendo dotado de uma linguagem fluida, descritiva, que passeia por cenas do cotidiano, sejam elas reais ou fantásticas. É fácil perceber no autor a intensa ligação existente entre sua escrita e o mundo que o rodeia. Embora sua literatura apresente traços do realismo mágico, os nomes e as referências aos lugares são frequentemente reais.

O início de sua obra apresentou a existência cotidiana e verossímil de personagens reais e característicos, em que o leitor pode reconhecer rapidamente uma tia, um vizinho ou um comerciante importante que vive verdadeiramente em cidades interioranas. A vida simples, vagarosa e miúda das cidades pequenas é um dos cenários mais constantes nas páginas de seus livros. Caxias, sua terra natal, e o Maranhão, na pele da cidade de São Luís, são descortinados aos olhos vivos do leitor. O Rio de Janeiro também figura entre os cenários das suas narrativas.

Rodrigues Marques chega a ser quase absolutamente fiel na composição do romance “Julieta, coisa e tal”, que se passa justamente em Caxias, denominada de “Princesa do Sertão”. O autor deu vida a personagens verídicos, como a própria protagonista da história, cujo nome ele conservou, embora negasse ser a sua Julieta a mesma Julieta que lhe agradeceu por ter sido homenageada através das páginas dos seus livros, quando Marques realizou o lançamento desse livro na sua cidade natal.

O livro retrata tão bem alguns fatos ocorridos na localidade que se tornou fonte para estudos historiográficos, pois a pensão “Casa Amarela”, onde Julieta mora, era uma conhecida casa de prostituição, hoje extinta. Acontecimentos como o que experimentou a personagem Maria Gorda, em que a mesma incendiou o próprio corpo devido ao fato de, sendo prostituta, ter tido a infelicidade de ter se apaixonado, embora aparentem ficção, foram realmente vivenciados pela sociedade caxiense no passado.

O cotidiano das prostitutas da região foi abordado de maneira singular na sua obra, sendo o escritor fiel aos fatos, descrevendo a situação de separação social em que elas viviam, estabelecendo também o contraste que as fazia serem ao mesmo tempo damas da noite e esquecidas pelos homens que compravam suas companhias femininas: “O enterro foi simples. Poucas pessoas. Somente algumas mulheres da Casa Amarela. Nenhum homem. As mulheres se revezavam nas alças do caixão. Julieta pensou: que destino; a vida inteira debaixo dos homens e, no fim, nenhum para acompanhar o enterro, ajudar a carregar o caixão”. “Julieta, coisa e tal” não é apenas um romance nascido de uma mente astuta, mas o retrato de uma sociedade interiorana, pois nele se vislumbra nitidamente que o escritor escreveu o que conheceu de forma vívida.

Transitando entre o cotidiano verídico e o mundo maravilhoso, Rodrigues Marques não pode ser enquadrado em nenhuma dessas categorias. Seus romances e contos realistas contam sempre com uma pitada de magia, de inverossimilhança. O exagero da realidade, como no conto intitulado “Dilúvio”, que remete às enchentes, é um bom exemplo de como ele maneja a fronteira entre o real e o irreal. Outra característica sua é a presença de um humor anedótico, que brinca com a existência de pessoas simples e comuns, surpreendidas pela banalidade e o absurdo que a vida lhes oferece.

Esse humor é constantemente encontrado nos seus contos, nos quais o autor migra com frequência para estilos diferentes de escrever. Num momento ele nos apresenta o cotidiano amargo, seco, oriundo da vida simples. Noutra abordagem ele já nos mostra o quanto de lúdico reside em tudo isso, como é possível perceber no conto “O homem que perdeu um peru”. Na obra “O sino de Madagascar”, por sua vez, utiliza a repetição de personagens, como se os mesmos pertencessem à realidade. Marques ainda viaja pelo surreal, através de uma narrativa desconexa e absurda, repleta de poesia e beleza.

Essa linguagem está presente em quase todos os contos publicados em “Eles pensam que eu tenho medo de ter medo” e em “De como José encontrou o mar e, ajoelhado, esperou as gaivotas”: “José de Ribamar apalpou o embrulho que o acompanhava e retirou dele um velho jornal lido e relido durante muitas tardes e muitas noites. Abanou-se com ele e as letras voaram das páginas. Como milhares de formigas, começaram a caminhar pelo seu corpo. Era um contínuo atropelar de sílabas – formigas que se encontravam formando palavras só de consoantes, só de vogais. Aflito com as cócegas que as letras do jornal produziam no seu corpo, José de Ribamar sacudiu-se como um cavalo que houvesse rolado muito tempo na areia e atirou, novamente, no jornal, as letras dele fugidas.” Seus personagens são na maioria pessoas de classe média, casais mastigados pelo tempo, mulheres e homens cheios de paixão, presos numa vida insólita em que as coisas simples são as impressões colhidas pela mente observadora e captora da vida que circula, como se Rodrigues Marques fosse um deus que observa de longe e brinca com aquilo que vê.

Em “Duas mulheres de Terramor, o estilo do autor se consolida na busca pelo maravilhoso e pelo poético. Nas metáforas vivas criadas por ele, é possível capturar a vagarosidade da vida, a esperança de que algo importante possa algum dia acontecer. Antuza, mulher jovem, aguarda o dia em que “O Homem Que Trouxe As Bandeiras” aparecerá para finalmente pedi-la em casamento, enquanto o “Noivo” sonha em um dia poder agradar o coração da moça, que vive solitariamente com a mãe em um casarão onde as vacas pastam no terceiro andar. Artemiza, velha, e contando apenas com a companhia da sua filha Antuza, anseia por um amor carnal jamais alcançado, comprando as carícias de um amante, “O Rapaz De Vinte Anos”. O contraste pintado pelas mãos habilidosas da imaginação do escritor fez a filha, jovem e desejada, passar a vida sentada em uma cadeira de balanço, sob uma amendoeira, a divagar preguiçosamente, enquanto a mãe, envelhecida sem amor, viúva de um casamento arranjado que nunca lhe deu felicidade, vagueia ansiosamente à procura do jovem que ela julga capaz de satisfazer sua carência.

A virgindade de Antuza é guardada para um homem que ela não conhece, mas que é conhecido em toda a cidade por ter muitas mulheres em sua cama e por desvirginá-las sem dor, fazendo uso de mel de abelha. Quando o “Noivo” foi finalmente escolhido para libertar a noite que a jovem aprisionava no casarão, apesar da vida que havia dentro do cômodo, quando ele abriu as janelas e percebeu que não havia sequer poeira e que tudo estava absolutamente limpo, a perda da virgindade dela é coroada com a morte dele, que realizava aquele desejo antigo sem felicidade, por saber que verdadeiramente não possuía Antuza, que só sabia pensar no “Homem Que Trouxe As Bandeiras”. O maravilhoso, o absurdo e o cotidiano simples se misturam na narrativa.

Ao mesmo tempo em que fatos surreais acontecem – como o morto que é oferecido pela viúva para ser chibatado por aqueles a quem o mesmo devia dinheiro em vida, e o nevoeiro que tomou conta da cidade de tal forma que as pessoas não se enxergavam –, a monotonia da rotina toma conta dos dias: “Fazia um balanço: Terramor da sua infância em nada mudara. Fisicamente. As mesmas ruas, o mesmo rio com velhos barcos descoloridos, sempre as mesmas caras morenas, cheirando a madeira. A sua vida também, mudara pouco: quase sempre igual”. E, ainda que “Terramor” represente uma cidade imaginária, permanece repleta de elementos que nos remetem às origens do ficcionista, tais como descascar macaxeira e chupar pitombas, por exemplo.

A juventude de Antuza era desperdiçada nos sonhos, enquanto a velhice de Artemiza se esvaía através dos mesmos. A jovem, ao final da narração, perdidas as esperanças de sua existência frustrada de acontecimentos sublimes, entrega-se placidamente a uma morte dolorosa, sob as patas das vacas que pastavam no terceiro andar do casarão, justamente quando aquele a quem ela esperou a vida toda finalmente sai em seu encalço. “Como sempre suspeitara, a morte era ir se deixando pelo caminho, como alguém que carregasse areia num saco furado.” Contraditoriamente, Artemiza, a velha, de pele já enrugada e murcha, abandonada pelo jovem amante o qual ela pagava o amor com as vacas que criava, em vez de entregar-se ao fim, acredita estar grávida, sente enjôos e vê o ventre crescer paulatinamente – fato que Antuza atribui à presença de vermes em seu organismo.

Então sua vida se torna uma constante procura, um vagar que não perde a esperança de alcançar o que deseja. “Enquanto Antuza enfrentava a dor – a dor seca que a fazia encolher-se sob o lençol – Artemiza perambulava pelas ruas do outro lado da cidade, o ventre cada vez aumentando mais, os nove meses já muito ultrapassados, beirando um ano [...]”. Artemiza era prenhe da própria existência que não desistia de existir. Nem mesmo a velhice que lhe roubava a força era capaz de tirar-lhe o fôlego da vida.

Rodrigues Marques foi um homem que se dedicou ao amor pela literatura. Escreveu com sangue, oferecendo sua alma aos leitores sedentos de vida, doando-nos sua mente em cada página. O simples e o complexo se copulam em sua obra, parindo um mundo novo, ao mesmo tempo maravilhoso e cruel.


Trecho de carta escrita por Rodrigues Marques, gentilmente cedida pelo escritor Luiz de Mello


Aposentei-me no final de 1988. Pior que adaptei-me a esta pasmaceira. Estava, já, entojado (é esse o termo que usamos aí, não é?) com aquela rotina do Tribunal de Justiça. Pior que não tenho aproveitado o tempo livre. Não tenho escrito. Como se a fonte tivesse secado. Tenho até me esquecido de que sou escritor.[...]"

A casa onde estou morando, apesar de ficar na zona sul de Niterói, perto de Icaraí, está situada numa rua tão calma que até parece que estou morando numa cidade do interior. Até uma bananeira tem no jardim. Da casa da vizinha uma roseira joga galhos e flores para o meu lado.

Aqueles retratos que mandaste – tirados no Tribunal – ficaram muito bons. Com a mudança, muita coisa extraviou. Felizmente, eles não. Muitos livros perderam o destino, muitos recortes de jornais que nem existem mais. Perdi noites de sono por causa disso. Agora já estou conformado. Não é à toa que eu digo que uma mudança corresponde a dois incêndios...[...]."


Depoimento do escritor Luiz de Mello sobre Rodrigues Marques:


“Conheci o escritor Rodrigues Marques quando ele veio a São Luís, no início da década de 60 do século passado, não sei se para lançar um livro inédito ou para lançar a segunda edição do romance que ela havia lançado, e que era muito comentado na época, chamado “Os Recém Casados ou Amor de Cama e Mesa”. [...]

“Rodrigues Marques era um homem calmo, de boas maneiras. Ele me disse que havia trabalhado com a escritora Dinah Silveira de Queiroz, sendo então Secretário dela. Ele me deu os livros dele”. [...]


Ele queria se corresponder e fazer permuta de livros com novos autores maranhenses; cheguei a mandar alguns livros de escritores daqui, não sei se ele recebeu. [...] A obra de Rodrigues Marques fala por si, ele é um escritor bastante representativo da moderna Literatura Maranhense, mesmo ainda sendo pouco conhecido pelas novas gerações”.


Bibliografia


Noite sem Limite (contos, Rio de Janeiro, 1954).

Chão do Inferno (romance, Rio de Janeiro, 1957).

Os quatro filhos do Papa (contos, Rio de Janeiro, 1959).

Linha do Vento (novela, Rio de Janeiro, 1963).

Os recém-casados ou Amor de cama e mesa (novela, Rio de Janeiro, 1968).

Geografia do vão território (romance, Brasília, 1972).

Duas mulheres de Terramor (romance, Rio de Janeiro, 1976).

O sino de Madagascar (contos, Rio de Janeiro, 1976).

De como José encontrou o mar e, ajoelhado, esperou as gaivotas (contos, Rio de Janeiro, 1981).

Julieta, coisa e tal (romance, Rio de Janeiro, 1986).

Eles pensam que eu tenho medo de ter medo (contos, Rio de Janeiro, 1995).


Fotos: arquivo/família do autor

*Contista, graduanda em História pela Universidade Estadual do Maranhão - UEMA (Caxias)


Fonte: Suplemento Literário Guesa Errante, Edição 214, 6 de janeiro de 2010

Site: www.guesaerrante.com.br

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Maranharte - Literatura Maranhense



Jovens escritores maranhenses, visitem-nos e colaborem.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Literatura, Câmera, Ação: Detalhes do Olhar





Detalhes do Olhar
é um trabalho da disciplina Imagem Digital (Prof. joão Bonelli), Especialização em Design Gráfico - UFMA, no qual a equipe composta por Daniel Martins, Cloves Ribeiro, Francisco Junior utilizaram a música-poema Louvação a São Luís, do poeta Bandeira Tribuzi e fizeram transições com vários lugares famosos de nossa cidade. Parabéns a equipe.

Maranharte divulga: Lançamento do livro de memórias CANTEIRO DE SAUDADES, de Coelho Netto


A Café & Lápis Editora, cumprindo o seu papel de divulgadora da cultura maranhense e brasileira, às vésperas de completar um ano de existência (12/02), tem o imenso prazer de comunicar a todos o lançamento do singularíssimo livro de memórias CANTEIRO DE SAUDADES, do grande polígrafo brasileiro, nascido no Maranhão, Henrique Maximiliano COELHO NETTO (1864-1934), publicada pela primeira vez em Portugal no ano de 1927.

Com texto introdutório do historiador Claunísio Amorim Carvalho, responsável pela nova edição, o livro CANTEIRO DE SAUDADES é um grande convite à reflexão sobre a vida e sobre a morte, fruto do talento inigualável do genial operário das letras fundador da cadeira n.º 02 da Academia Brasileira de Letras (ABL).

O lançamento ocorrerá no dia 12 de março de 2010, sexta-feira, às 19:00 h, na livraria Leia Mundo, localizada no Jaracaty Shopping (Av. Carlos Cunha - Jaracaty).
No lançamento, o livro será comercializado ao preço de R$ 14,00 (catorze reais).

fonte:cafelapiseditora.blogspot.com

Maranharte Informa: Grupo de Estudo "Literatura e Paisagem"

Trabalhar a literatura sob a perspectiva da percepção ambiental é a tarefa realizada pelo grupo de estudantes pesquisadores do curso de Letras da UFMA. Com o título “Literatura e Paisagem: um estudo da literatura moderna e contemporânea de expressão portuguesa à luz da percepção ambiental”, o estudo busca estabelecer a relação entre a representação literária (poesia) e o espaço geográfico em que o poeta se insere.

Por ser um campo de estudo pouco trabalhado pelos estudantes do curso de Letras e por ter um conteúdo mais cifrado e menos explícito, a poesia se torna um desafio para muitos alunos. A busca do modo pelo qual o poeta transpõe para o poema todo o universo da paisagem, o lugar e o espaço, é um dos objetivos da pesquisa.

Sophia de Mello Breyner, por exemplo, autora portuguesa contemporânea e recentemente falecida, utiliza o mar português como um dos conceitos-chave de sua criação literária. O mar, visto como lugar de conquistas, progressos e perspectiva de futuro, traz ao grupo a tarefa de analisar os aspectos empregados na produção da poetisa.

Com estudos que vão além da simbologia e do imaginário do poeta, o projeto visa à interdisciplinaridade envolvendo a Geografia e a Literatura. Segundo a coordenadora do projeto, a professora doutora Márcia Manir, as disciplinas da pesquisa são vistas como campos díspares, no entanto, pode-se observar que as áreas de atuação da Literatura envolvem os espaços estudados pela Geografia. A Geografia trabalha com a ideia de cosmos e o universo geográfico não é apenas pautado no espaço. Dessa forma, identificar a cosmovisão geográfica nas descrições literárias de paisagem é uma das intenções do grupo.

Yi-Fu Tuan, considerado pela coordenadora do projeto como “o autor de cabeceira” do grupo, foi um geógrafo humanista que trabalhava a importância das relações entre espaço, cultura e experiência. ”Assim como Sophia, que retratava o espaço de suas descrições literárias (mar) como identidade, Yi-Fu defendia que lugar é segurança, o espaço é liberdade e que estamos ligados ao primeiro e desejamos o outro”, afirma a coordenadora.

O projeto teve início em agosto de 2009 e conta com a participação de duas bolsistas do curso de Letras da UFMA. A professora Márcia Manir, orientadora do projeto, é paulista, professora de Literatura Portuguesa do curso de Letras na UFMA e professora doutora pela USP na área de Literatura Portuguesa.
Mais informações na Coordenação do Curso de Letras- UFMA (CCH)

Fonte:www.ufma.br/noticias/noticias.php?cod=7601

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Maranharte Prestigia: posse do escritor Milson Coutinho como Presidente da AML

Milson e a sua obra que atravessa o tempo

Samartony Martins, para o jornal O Imparcial


O jornalista, historiador e magistrado Milson Coutinho tomou posse nesta quinta-feira (04/02) como presidente da Academia Maranhense de Letras (AML).

Um escritor à moda antiga que tem como fiel companheira há trinta anos sua máquina de escrever da marca Olivetti. Esta é apenas uma das facetas do jornalista, historiador e magistrado Milson Coutinho que toma posse da presidência da Academia Maranhense de Letras, às 20h, desta quinta-feira na sede da entidade. A solenidade é aberta ao público.

O imortal que já escreveu mais de trinta obras de diferentes assuntos entre eles os livros Fidalgos e Barões - uma história da nobiliarquia luso-maranhense, um rico painel sobre a nobreza luso-maranhense que constituía a elite econômica e social do Maranhão no século XIX; Constituições Políticas do Estado do Maranhão – que reúne as constituições maranhenses, de 1891 a 1989, além de um livro sobre a história do Tribunal de Justiça do Maranhão a qual presidiu no biênio 2004-2005 e A revolta de Bequimão. A primeira e a última obra publicadas pelo GEIA, Instituto não-governamental (!?) de Jorge Murad.
Sobre os desafios que vai enfrentar como presidente da instituição que este ano completa 102 anos, Milson Coutinho disse a O IMPARCIAL que entre as prioridades está a contribuição da AML no que for necessário para as comemorações do quatrocentenário de aniversário de São Luís, em 2012 e liderar os imortais que compõe a academia. “Não existe maior desafio para o ser humano do que dirigir os iguais. Isso é muito difícil. Mas por outro lado pode ser muito fácil se houver um convívio pacífico onde o equilíbrio é o respeito das idéias. Quando me candidatei fiz uma carta para os trinta e nove membros da academia, somos quarenta que eu não iria estabelecer de imediato planos e metas, porque a Academia Maranhense de Letras é parecida com um mosteiro franciscano”, disse o imortal fazendo uma analogia ao voto de pobreza do monges para explicar que a AML que o orçamento para as atividades da instituição depende de parcerias públicas e privadas.


Organização da festa


O imortal fez questão de ressaltar que os membros da academia podem contribuir com a organização da festa dos 400 anos de São Luís e não com a execução da mesma. “Se há uma entidade legitima para participar dessa organização é a Academia Maranhense de Letras por meio de seus estudiosos que podem contribuir com suas pesquisas. A academia funcionará como um sino de uma igreja matriz que soará o alerta para os órgãos e autoridades públicas da necessidade de se fazer um planejamento mútuo para uma data tão especial”, frisou Milson Coutinho.

O imortal revelou a O IMPARCIAL que tem um álbum raríssimo das comemorações do tricentenário de São Luís editado na gestão do então governador Luís Domingues que na época era o chefe do governo que fez um planejamento estratégico que foi bem sucedido. “Ele criou várias comissões de diferentes áreas como cultura, economia, educação, história que ajudou a fazer uma bela festa que foi financiada pelo governo do estado. A academia não tem como arcar com uma festa desta natureza que envolve o Maranhão, o país e até a França”, revelou o imortal.

Outra preocupação que o futuro presidente da Academia Maranhense de Letras colocou como prioridade foi a aproximação das demais academias de letras regionais. “Vamos começar do ponto zero. Temos que deixar de sermos um arquipélago de academias. Temos que nos conhecer. Ensinar o que sabemos e aprender com quem tem o que nos ensinar”, resumindo que essa aproximação está sendo feita de forma natural e que a academia está dando apoio ao surgimento de novas academias.

Ao ser empossado, o escritor e historiador Milson Coutinho fez duras críticas à governadora Roseana Sarney por ter suspendido a contribuição mensal do Estado a esta instituição cultural.


Desabafo


Fonte: Jornal Pequeno (5 de fevereiro de 2010)


Ao ser empossado nesta quinta-feira, na presidência da Academia Maranhense de Letras, o escritor e historiador Milson Coutinho fez duras críticas à governadora Roseana Sarney por ter suspendido a contribuição mensal do Estado a esta instituição cultural. Coutinho chegou a lembrar que Roseana é filha e sobrinha1 de acadêmicos, portanto não faz o menor sentido ela ser contra a AML, já que esta é a segunda vez que retira a contribuição, criada quando o atual prefeito de São Luís, João Castelo, ainda era governador do Estado (1979-82).

No seu pronunciamento, o novo presidente da AML fez questão de enaltecer a sensibilidade do ex-governador João Castelo, presente à solenidade, ao criar uma doação de dez salários mínimos para o custeio da instituição, verba esta que foi mantida pelos seus sucessores Luiz Rocha (1983-87), Epitácio Cafeteira (1987-90), João Alberto (1990-91), Edison Lobão (1991-94) e José Ribamar Fiquene (1994-95), porém suspensa por Roseana Sarney, quando estava no segundo mandato. A contribuição voltou na administração de Jackson Lago (2007-09), cassado pelo Superior Tribunal Eleitoral - TSE. Estranhamente, desde que Roseana, por força de lei, reassumiu o governo, a Academia deixou de receber o seu repasse. "Eu não acredito que a governadora Roseana Sarney vá deixar de contribuir com a Academia", disse o novo presidente.

Após a cerimônia de posse, Milson Coutinho explicou que a suspensão ainda não está oficializada, contudo a Casa deixou de receber esta ajuda desde maio do ano passado, que, mesmo sendo pequena, é de fundamental importância para sua manutenção, já que sobrevive apenas da contribuição dos sócios intelectuais e da ajuda de algumas empresas que patrocinam seus eventos.

Ainda no seu pronunciamento, Milson Coutinho disse que a Academia recebe do Céu apenas a chuva e o sol que danificam sua estrutura, seu acervo e seu mobiliário, e tudo isto precisa ser constantemente reformado, com a ajuda que vem da terra. O desabafo do novo presidente foi aplaudido tanto pelos imortais quanto pela plateia que ali se formou para assistir à transmissão do cargo.

Já o ex-presidente Lino Moreira, em seu discurso de despedida, sequer tocou no assunto.


1 Os parentes de Roseana que compõem a Casa de Antônio Lobo são os acadêmicos José Sarney (pai) e os tios Evandro e Ivan Sarney, este presente à solenidade. Em 1966, o político e escritor José Sarney, ao mesmo tempo em que se torna governador do Maranhão, assume a presidência da Academia Maranhense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão. Em 1973, posteriormente tornou-se membro da Academia Brasiliense de Letras. Entre suas obras mais famosas estão; O dono do mar (romance), 1995 Saraminda (romance), 2000.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Maranharte Informa: reciclagem = plástico por livros

Essa é para os professores que estão cansados de escutar dos alunos que os mesmos não têm dinheiro para comprar livros. A iniciativa é admirável, e as outras livrarias da cidade deveriam seguir o exemplo.
Não esquecendo que já existem muitas obras de literatura infantil produzidas em nosso Estado.

Opinião de Pedra: José Neres sobre as recentes obras literárias de Ricardo Leão e Lenita Estrela de Sá

OS DENTES ALVOS DE RADAMÉS


José Neres*

“Faz algum tempo que concluí meu delito. Não se trata, contudo, de mais um crime, realizado às pressas, como tantos outros. A minha obra é, com efeito, um consumado objeto de arte. Eu a executei com toda a perícia, argúcia e artimanhas necessárias, todos os cuidados e aparatos possíveis, as luzernas acesas, enquanto combatia o alvo silêncio dos urinóis.(...) Muitos de meus inimigos estão à espreita, à espera de um deslize, qualquer, por mais insignificante que pareça, a fim de capturar-me e conduzir-me aos verdugos do castelo”

É com esse intrigante e convidativo solilóquio que Ricardo Leão inicia seu livro Os Dentes Alvos de Radamés, uma das obras vencedoras do concurso literário promovido pelo Governo do Estado do Maranhão.

A princípio, em um mero folhear de páginas e em leituras rápidas de trechos aleatórios, alguém pode pensar que se trata de um romance, de uma novela ou de uma coletânea de contos que giram em torno de temáticas que vão de crises existenciais a busca de soluções para corriqueiros problemas mundanos, passando por uma infinidade de outros assuntos, sempre centrados na angústia e/ou nas psicoses humanas.

Contudo, em uma leitura mais atenta, fica bem claro que o livro não pode ser facilmente encaixado nos gêneros literários mais tradicionais. Nos vinte e quatro capítulos que compõem o livro, quase todos compostos de um único parágrafo, o narrador conduz o leitor pelas furtivas veredas de um mistério que se potencializa ou se esvai de acordo com os interesses que se ocultam a cada linha.

Fisgado pelas primeiras palavras do texto, o leitor começa a devorar as páginas do livro em busca de explicações sobre qual foi o crime cometido, sobre quem são os inimigos que se escondem nas sombras das palavras. Experiente no uso da linguagem literária, Ricardo Leão investe no jogo de mostrar escondendo e de esconder mostrando. Dessa forma, traça um percurso narrativo cheio de peripécias, mas com um objetivo centrado na dubiedade comportamental das personagens.

De forma proposital, o autor parte da fluidez das incertezas e vai sedimentando com dúvidas e armadilhas o trajeto a ser percorrido rumo às respostas. O ponto de chegada é certamente uma incógnita planejada. No caminho, em meio a estratégicas digressões e profundos mergulhos nos sempre perigosos mares de erotismo e sensualidade, está a construção de um texto arquitetado na certeza das incertezas de um experimentalismo amadurecido pelos anos de contato com as páginas de grandes escritores como Poe, Borges, Eco, Hoffmann, Kafka, Cortázar e outros.

Porém se engana quem pensar que as atitudes experimentalistas do livro são meros pastiches de autores lidos. Muito pelo contrário, Ricardo Leão imprime suas digitais em cada página de sua narrativa e constrói as personagens com a segurança necessária para despertar no leitor os mais diversos sentimentos com relação às situações expostas a cada página de uma abra que exige atenção e cuidado por parte do leitor.

Os Dentes Alvos de Radamés é um livro para ser lido com calma, sem preocupação com o chegar ao final simplesmente para pô-lo na contabilidade dos livros lidos. Ele deve ser degustado página a página, sem preconceito com relação à linguagem às vezes chocante para leitores mais puritanos, e sem a preocupação acadêmica de encaixá-lo em um estilo ou em um gênero específico. É um livro para ser lido com os olhos e mente totalmente abertos.



LENITA: CONTOS DE UMA ESTRELA


Depois de encantar o público com poemas, peças teatrais e obras voltadas para o público infanto-juvenil, sempre demonstrando competência e compromisso com as letras, a escritora Lenita Estrela de Sá, com a publicação do livro “Cinderela de Berlim e outras Histórias”, investe também no campo da narrativa curta.

O livro, que é composto de sete contos, foi um das obras premiadas no Plano Editorial Gonçalves Dias. Logo na leitura do primeiro texto, que dá nome ao volume como um todo, pode-se perceber que a autora não está interessada em fazer de sua narrativa um foco de ilusões banais e frívolas. Não! O que ela pretende – e consegue ao longo das páginas – é, a partir de situações aparentemente corriqueiras, mostrar um pouco da dura realidade enfrentada cotidianamente por pessoas que lutam a cada nascer de sol pela sobrevivência.

As personagens dos contos de Lenita Estrela de Sá são geralmente pessoas que vivem a angústia da própria existência. De modo lírico e cru ao mesmo tempo, a escritora faz desfilar pelas páginas de seu livro um conjunto de elementos que podem facilmente ser encontrados nas ruas de qualquer cidade do mundo dito como civilizado.

O fato de as narrativas serem ambientadas em São Luís não interfere no tom universalizante dos textos, pois basta riscar o nome da cidade e ignorar as referências históricas e geográficas que os conflitos retratados se encaixam em variados outros ambientes e sociedades. Isso acontece porque a carga psicológica e a densidade narrativa retratadas em cada conto superam em muito as meras questões regionalistas.

Adultério, sofrimento, preconceito racial, pobreza e crise existencial são alguns dos temas abordados por Lenita Estrela em seu livro. Mesmo o título remetendo à hipótese de um conto de fadas, as histórias não buscam uma solução simplista ou mágica para os problemas apresentados. Na verdade o que há em cada texto é uma janela aberta para que o leitor possa olhar dentro da casa, da vida e da intimidade de cada uma das personagens. Todas elas escondem, por trás de fachadas envernizadas por sorrisos ambíguos, uma essência de dor e de sofrimento.

O que fica visível na leitura dos contos é que as personagens do livro são sempre angustiadas e, mesmo quando conseguem uma projeção econômica, vivem presas a fantasmas do presente e do passado. É o caso do Moreira, dono de uma bela casa, carro de luxo e é bem empregado, mas que vive atormentado pela insana competição com um colega de serviço e pela perda traumática de seu filho, afogado na piscina que serviria como símbolo de ostentação para a família burguesa.

No geral, os contos de “Cinderela de Berlim e outras Histórias” são bem elaborados e trazem um desfecho brusco, cortante. Eles se assemelham a uma lâmina afiada, prestes a decepar os braços da inércia e do comodismo, com o intento de, nesse choque entre ficção e realidade, despertar o senso crítico de um leitor que queira ir além da percepção das obviedades impostas por uma leitura superficial da própria realidade.

Com esse livro, Lenita comprova, mais uma vez, que é uma das brilhantes estrelas dessa bela constelação de escritores contemporâneos.


*Professor Universitário de Literatura Brasileira, possui um blog (joseneres.blogspot.com).Recentemente criou outro (joseneres.wordpress.com) apenas com textos sobre os nossos escritores contemporâneos.