sábado, 20 de março de 2010

Maranharte Informa: V Semana de Teatro no Maranhão


"O Maranhão sou eu". Este é o tema da V Semana de Teatro do Maranhão que acontece no período de 22 a 28 de março, no Teatro Arthur Azevedo (TAA), e em outros espaços culturais da cidade, como os Teatros João do Vale e Alcione Nazareth, Circo da Cidade, praças e sedes de grupos teatrais. Coordenada pela Comissão Artística do TAA, a Semana tem patrocínio do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura (Secma). A programação, que marca as comemorações pelo Dia Internacional do Teatro e Dia Nacional do Circo e do Artista Circense, em 27 de março, concentra um intercâmbio cultural entre os artistas maranhenses e do Brasil, nas suas mais variadas linguagens e estilos.

Nove cidades maranhenses também receberão a caravana teatral entre os dias 09 a 11 de abril. Cada grupo participante fará apresentações de espetáculos adultos e infantis, além da realização de oficinas. Os nove municípios que recebem a caravana teatral são Mata Roma, Humberto de Campos, Vargem Grande, Miranda do Norte, Vitória do Mearim, Pedreiras, Poção de Pedras, São José de Ribamar e Paço do Lumiar.

A programação nestes municípios inclui os espetáculos Palita no Trapézio, Memória de Todos os Dias, Maria, Circo Mínimo, A Mulher Ambulante, ABC da Cultura Maranhense, Contadores de Estória, João e Maria, A Saga de Casemiro Coco, Um Sonho de Leitura, Memória de um mau caráter e O Besouro e o Gafanhoto. A entrada é franca.


Espetáculos de/com autores maranhenses:

- ABC da Cultura Maranhense, de Aldo Leite, com a Companhia Cena Aberta.

- O Baile das lavadeiras, com textos e poetas de Maria Firmina e Gullar, Grupo TeatroDança

-Poemas (Quase) Limpos, com poemas de Gullar, Grupo de Teatro Exercício

- As peças A carroça é nossa (Xama Teatro) e Viver e Adaptar-se (Comp. Curupira de Artes Cênicas) utlizarão personagens do foclore maranhense.

Fonte: www.cnsaoluis.com.br

Encontrando as Pedras XXXIX

São Luís no Prisma Gullariano


"O homem está na cidade como uma coisa está em outra e a cidade está no homem que está em outra cidade. Mas variados são os modos como uma coisa está em outra coisa:o homem, por exemplo, não está na cidade nem como uma árvore está em qualquer uma de suas folhas" (Ferreira Gullar - Poema Sujo)


Recentemente o autor maranhense Ferreira Gullar foi um dos principais homenageados da II Feira do Livro de São Luís. Dado esse fato, meses antes do inicio do evento, na internet havia inúmeras enquetes que questionavam sobre a escolha do maranhense para a homenagem. Porém, um outro fato que chamou a atenção foi a percepção do desconhecimento geral da obra de Gullar por parte dos maranhenses, pois, mensagens do tipo; “para que escolher Gullar, ele não é maranhense!" ou " Na obra de Ferreira Gullar não há uma menção à cidade de São Luís" proliferavam nessas enquetes. Frases como essas deixam qualquer um amante da obra de Gullar de cabelos em pé. Um outro espanto foi perceber que alguns se intitulavam estudantes dos cursos de Letras, mas que na prática, pouco sabiam, ou quase nada, sobre Ferreira Gullar e sua relação com São Luís.
Dados esses fatos, esse texto vem trazer alguns aspectos importantes sobre Ferreira Gullar, bem como de sua obra. Na verdade, José de Ribamar Ferreira , verdadeiro nome do poeta. Ele é Ludovicense e toda a sua formação inicial artística é influenciada do Maranhão, visto que esta é um terra de grandes talentos poéticos.
Ferreira Gullar estudou no colégio Liceu Maranhense e no antigo CEFET (agora IFMA),viveu no Maranhão até alcançar a idade adulta. Foi para o Rio de Janeiro devido a seu grande talento como autor teatral e de suas concepções políticas.
Desde moço Ferreira Gullar já anunciava que seria um graciosíssimo poeta. Participou de muitos concursos de poesia, onde quase sempre ganhava. Uma curiosidade é que seu primeiro Livro " Um pouco acima do chão" em que já demonstrava muito talento, apesar de o próprio poeta achar que não, é fruto de um concurso em que ele ganhou em primeiro lugar, o prêmio seria a publicação de um livro, dai surgiu seu primeiro trabalho, dois anos antes de ele ir para o Rio de Janeiro.
Gullar sempre apresentou a cidade de São Luís com muito esmero. Há inúmeros estudiosos, muitos deles consagrados como o Humberto Eco, que atestam que a cidade de São Luís jamais saiu dos temas abordados na poesia Gullariana. Para esses autores, a cidade de São Luís, é um espaço buscado angustiadamente no eu lírico gullariano, a angústia da separação, das distâncias sempre aparecem nos temas abordados pelo poeta, São Luís aparece no cosmos gullariano como a musa intocável da segunda fase do romantismo, a Deusa Afrodite, bela e implausível com seus contornos de esmeralda, a Istalingrado Brasileira, como ele mesmo escreve São Luís em seu mais conhecido poema. Tendo em vista as concepções esquerdistas do poeta, São Luís ser comparada a Istalingrado é um grande elogio, visto que Istalingrado é a Meca dos esquerdistas

"Mas sobretudo meu corpo nordestino mais que isso maranhense mais que isso sanluisense mais que isso ferreirense newtoniense alzirense" (grifo nosso)

Nesse trecho fica bem claro esse eterno amor por São Luís. Ao logo de todo o poema, a lembrança da cidade amada é amarrada a seu tempo de criança, boas e saborosas cenas sempre acontecem em São Luís do Maranhão, independente se ele estivesse na Argentina, França ou Chile, países onde ele ficou exilado durante a ditadura. Outra imagem atrelada a São Luís é a da figura do pai , de quem o poeta sempre faz menção.
Mesmo com as poucas provas aqui demonstradas,( para mais, consultar a obra do poeta) é de se crer que são suficientes para mostrar o quanto a cidade de São Luís mora no coração e na poesia de Ferreira Gullar. O mito de que São Luís não existe para Ferreira Gullar, com certeza, cai como uma bomba para o poeta, pior até que a bomba suja que como visto aqui, ama a cidade mesmo longe.

Referências:

GULLAR, Ferreira. Poema sujo. Rio de Janeiro: circulo do livro, 2000.

MACEDO, Diogo Andrade de. Traços estilísticos de Ferreira Gullar em Poema Sujo, 1976. Disponível em <<>> acesso dia 19/03/2010.


Luís Henrique, São Luís - Maranhão

sábado, 13 de março de 2010

Literatura, Câmera, Ação: Canções do Exílio







Canção do Exílio é o poema que abre o livro Primeiros Cantos, apresentando Gonçalves Dias como dos mais promissores poetas da Língua Portuguesa. O poema foi escrita em julho de 1843, em Coimbra, Portugal, isto é, cinco anos depois de partir da pequena cidade de Caxias (MA) para Portugal, onde fora cursar Direito. A Canção do Exílio teria nascido por inspiração após a leitura da balada Mignon, de Goethe, poema do qual Gonçalves Dias usa alguns versos como epígrafe. Dois dos versos de Canção do Exílio estão citados no Hino Nacional Brasileiro ("Nossos bosques têm mais vida,/Nossa vida, mais amores.").



Obs.- A Nova Canção do Exílio, de Gullar é declamada pelo ator Paulo José.

terça-feira, 9 de março de 2010

Maranharte Informa: lançamento do livro "CANTEIRO DE SAUDADES"


A Café & Lápis Editora,ao completar um ano de existência (12/02), tem o imenso prazer de comunicar a todos o lançamento do singularíssimo livro de memórias CANTEIRO DE SAUDADES, do grande polígrafo brasileiro, nascido no Maranhão, Henrique Maximiliano COELHO NETTO (1864-1934), publicada pela primeira vez em Portugal no ano de 1927.

Com texto introdutório do historiador Claunísio Amorim Carvalho, responsável pela nova edição, o livro CANTEIRO DE SAUDADES é um grande convite à reflexão sobre a vida e sobre a morte, fruto do talento inigualável do genial operário das letras fundador da cadeira n.º 02 da Academia Brasileira de Letras (ABL).

O quê: Lançamento do livro Canteiro de Saudade, de Coelho neto
Qaundo: dia 12 de março de 2010 (sexta-feira)
Onde: na Livraria Leia Mundo no Jaracaty Shopping (Av. Carlos Cunha - Jaracaty)

No lançamento, o livro será comercializado ao preço de R$ 14,00 (catorze reais).

sexta-feira, 5 de março de 2010

Opinião de Pedra: Alberico Carneiro e Nauro Machado


A construção & consagração de um projeto poético

Alberico Carneiro

Estamos diante de um livro que segue obstinadamente um objetivo que não é comum na poesia brasileira: tornar-se um referencial como ápice da construção de um projeto poético tanto do ponto de vista da estrutura ou da forma, quanto da linguagem, que vai além da proposta de compromisso com a palavra. Celso Borges dialoga com o silêncio como “resposta” ao barulho e à fúria do mundo moderno, esse mundo de morte que anunciada e pressupõe um pacto com o Nada ou com o marco Zero.

Ao anunciar a morte de uma época poética, a clássico-romântica da reprodutibilidade ao infinito, a partir de modelos, como se o poema fosse produto pirata do camelódromo canônico ridículo, Celso Borges propõe uma virada em que o poeta deva se impor pela negação de desgastados códigos ou cânones poéticos, em busca de uma identidade que requer, como dizer isto em linguagem bem simples e provocante? peito e raça. Sim, o poeta acena para uma proposta que não se concretizará, se por trás dela não houver um projeto em que cada um diga chega disto e daquilo. Minha gente, aqui no Maranhão, literariamente, se bem observarmos, alguns insistem em permanecer no saudosismo de Mallarmé, Rimbaud, Verlaine e Baudelaire, como se depois deles não houvesse acontecido nada que valha a pena. Será que não houve nada depois de Drummond? Pelo amor de Deus! Como diria o Titoinho: Ora, me comprem um bode!

Sim, Celso Borges sugere que é hora de cada um meter a mão na massa e fazer o seu próprio bolo num formato autêntico, cujo resultado de plasma seja uma marca em si mesma, cuja patente seja ela própria, a desdenhar da coisa oficialesca e acadêmica, assim como o fez o Criador ao engendrar o mundo a sua imagem e semelhança, depois se mandando, sem precisar dar satisfação a quem quer que seja ou fosse, não passando procuração a ninguém para explicá-la (ou passou?), recusando-se, com seu silêncio, assinar, autografar ou rubricar, sendo a obra em si a inconfundível marca de que, sendo ele o tal que não imitou ninguém, o poema da criação o identifica, justifica e canta a sua glória suada, quer dizer, não de picareta ou parasita, como permanente presença. Fora os protótipos, os modelos, os arquétipos, os paradigmas para a pentassecular imitação.

Os poemas de Belle epoque sugerem a demolição da piolheira sonetal de forno, forja, fornalha e bigorna. Chega de fôrma nos conformes da forma. Manuel Bandeira já havia mandado às favas essa trabalheira inútil, no poema Os Sapos, declamado em 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, durante a Semana de Arte Moderna, pelo próprio, entre vaias e ovos podres dos conservadores. Hoje, a crítica já faz o resgate do que ele afirmava, com razão, há quase cem anos. Tenham misericórdia, querem-nos como companhia no último passeio do tuberculoso pela cidade, de bonde?


O lançamento do novo livro do poeta Celso Borges, portanto, repercute o que ele já vinha reverberando em livros anteriores. Aqui, no entanto, apresenta, com mais ênfase, a necessidade de lutar contra a institucionalização do fruto da inércia, da preguiça e da mesmice como se produto de engenho e arte, de invenção e de engendramento do poema, plasmando-lhe sopro de obra de primeira mão. Chega de clichê, de papel carbono, de segunda via, de xerocópia, pois têm as marcas registradas da letargia, da anemia e da azia cultural.

Os poemas de Belle Epoque são em suma e em síntese um sinal de alerta, uma sinaleira a quantos se recusam a ter projetos artísticos próprios, pegando, como parasitas, carona em projetos que já são bisnetos de outros. Chega. No caso de dúvidas, vamos aos poemas do livro, que melhor explicam do que a nossa opinião sobre o que tentamos dizer a nós mesmos: ao bom entendedor meia palavra tanto queima, quanto salva.

BIOGRAFIA

Belle Epoque é o terceiro livro-CD lançado por Celso Borges.A trilogia começa com XXI (2000) e prossegue com Música (2006). Nesse trabalho, o poeta dialoga com mais de 50 compositores e poetas brasileiros, que releem sua obra fazendo trilhas, canções e interpretações.

Maranhense de São Luís, Celso Borges tem mais cinco livros de poesia publicados, entre eles Pelo Avesso(1985), Persona Non Grata (1990) e Nenhuma das Respostas Anteriores (1996).

Como letrista tem parcerias com Zeca Baleiro, Chico César, Fagner, Nosly, Otávio Rodrigues, Gerson da Conceição, Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões), Mano Borges, César Nascimento, Papete etc.

Bella Epoque traz como encarte o Cd Quase, em que o autor apresenta o silêncio como “resposta” ao barulho e à fúria do mundo moderno. O artista desenvolve também projetos de poesia no palco, o principal deles Poesia Dub, com o DJ e jornalista paulistano Otávio Rodrigues.



O CLAMOR DA HORA PRESENTE

Nauro Machado

Durante muitos anos uma voz eloquente e tonitruante se fez ouvir no chamado Canto do Protesto, situado na esquina da Praça Benedito Leite, um dos últimos locais de reunião dos intelectuais são-luisenses. José Nascimento de Morais Filho, dono dessa voz, com a qual defendeu não somente suas próprias opiniões políticas ou gostos literários, fez-se também com ela um generoso leito por onde fazer-se ouvir as mensagens de tantos outros. Dessa maneira, escritores e poetas, pintores e teatrólogos, políticos que lhe mereciam o respeito a ser dado à legitimidade das suas propostas, tinham ali, naquele canto e através dele, poeta Zé Morais, a ressonância desejada para a proclamação pública de sua liberdade como criadores e cidadãos.


Vale lembrar que o dono dessa voz, dezenas de anos antes já se tornara na liderança de uma das mais expressivas gerações da intelectualidade maranhense, fundador que foi do Centro Cultural Gonçalves Dias, responsável, entre muitos outros, pelos livros de estreia de dois poetas que viriam a se tornar como pontos referenciais da poesia brasileira e do nosso verdadeiro chão natal: Ferreira Gullar e Lago Burnett, com os seus livros Um pouco acima do chão e Estrela do Céu Perdido.

Comparado a Zé Morais só conheço, no plano nacional, a figura do poeta Moacyr Félix, que passou sua vida a proclamar, publicando-as, as obras daqueles que julgava merecedores do aplauso público (enquanto a dele, tão bela e de ressonância ecumênica, ficava restrita quase que somente à leitura dos seus inumeráveis amigos) e a defender o direito de opinião política das pessoas comprometidas, como ele, com um social mais justo, belo e equânime, o que viria a fazer depois na súmula de sua magnífica obra, intitulada Em nome da vida.

Zé Morais, repito, nunca se esquivou assim da ajuda necessária a quem procurava obstinadamente o caminho da vida literária. Lembro-me da noite em que Carlos Cunha ofereceu um jantar de confraternização, no Restaurante do Banco do Estado, aos poetas e pintores que ele reunira no Teatro Arthur Azevedo, na célebre exposição por ele chamada eleuteriana.

Nessa ocasião, presente o então Governador José Sarney, Zé Morais a ele apresentou o ainda desconhecido e jovem escritor Jomar Morais, que levava nas mãos os originais do seu primeiro trabalho literário, um opúsculo que acabara de escrever sobre Antônio Lobo, pedindo-lhe, pela velha amizade que os unia, companheiros que foram daquele Centro Cultural, fazer a apresentação desse trabalho de Jomar, o que Sarney logo viria a fazer.

Zé Morais sempre agiu dessa maneira. Comigo ele foi exemplar por toda a sua vida, citando-me o nome como o de um grande poeta, no exagero que lhe era peculiar, defendendo-me todas as vezes em que eu era atacado na minha vida pública, aconselhando-me, o que fez por inúmeras vezes, para ir morar no Rio de Janeiro, onde, dizia ele, eu teria meu renome assegurado como escritor e poeta.

Certa vez, naquele mesmo Canto do Protesto, Zé Morais verberou contra a minha não permanência em um cargo comissionado da Secretaria da Cultura do Maranhão, criada por iniciativa da escritora Arlete Nogueira da Cruz, indo falar pessoalmente depois com o então Governador Luis Rocha, seu velho amigo, dele conseguindo (graças também à defesa que me fizeram vários intelectuais , como o nosso querido e grande ensaísta Franklin de Oliveira e de alguns membros da Academia Brasileira de Letras, e outras associações literárias) que o recém nomeado Secretário da Cultura voltasse atrás, conservando-me ainda como Assessor daquele órgão cultural.

Essa foi a voz chamada pelo Padre Mohana, no sermão por ele pregado quando dos setenta anos de nascimento do autor de Clamor da hora presente, como a de um João Batista a pregar no deserto.

Lago Burnett também a ele se referiu, nesse momento de inesquecíveis homenagens, ao dizer que “Morais foi a primeira ONG do mundo...(...) a primeiríssima Organização Não-Governamental a batalhar sozinho contra todos e contra tudo”, acrescentando ainda: “ Sua consciência é a do dever cumprido. E por isso mesmo, merece o nosso respeito."

Sobre ele também disse a escritora Arlete Nogueira da Cruz ;“Depois do movimento que liderou, a partir de 1945, Zé Morais publicou vários livros, entre eles Clamor da Hora Presente, que será lançado hoje na sua quarta edição. Poeta, professor, autêntico cidadão, estimulador de talentos, defensor dos injustiçados, veemente voz contra ímpios poderosos, incansável pesquisador, acabou por descobrir a primeira romancista maranhense, Maria Firmina dos Reis, apresentando-a ao Mundo através de memorável festa."

Assim também Ferreira Gullar “Mais que todos nós, era Nascimento o que tinha maior consciência das questões sociais e já então fazia da sua poesia instrumento de luta em defesa dos interesses nacionais. Tal como o fez durante toda a sua vida, com desprendimento e firmeza.”

Sobre esse homem, no dia em que transcorre mais um ano do seu falecimento e para que não lhe caia o desmerecido opróbio do esquecimento por parte daqueles que têm o dever e a obrigação de perpetuarem nosso mais puro e alto patrimônio-humano cultural, faz-se necessário que os poucos a quem coube a dádiva de realmente conhecê-lo, respeitá-lo e amá-lo pelo que ele foi, e ainda é, continuem lembrando-o ao menos da maneira pela qual falou sobre si mesmo o genial poeta Fernando Pessoa:

Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia/não há nada mais simples. – tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte./ Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

Lembremo-nos do poeta José Nascimento de Morais Filho ao menos no dia da sua morte.

Fonte: Suplemento Cultural e Literário Guesa Errante, Edição 218 (4 de março de 2010)
Obs.: As fotos também foram retiradas do site do Suplemento (www.guesaerrante.com.b)

terça-feira, 2 de março de 2010

Maranharte Espera: reforma da Biblioteca Pública "Benedito Leite"


Danos na infraestrutura e ameaça de um incêndio levaram a direção da maior biblioteca pública de São Luís a suspender o atendimento. Algum tempo os usuários já estavam notando o descaso do poder público quando aqueles tinham que entrar no prédio pelos fundos , já que, na frente da biblioteca tapumes de madeira cercavam a entrada. Com a estrutura comprometida, a biblioteca está de portas fechadas para o público.

O prédio possui estilo neoclássico, tendo elementos característicos, tais como cobertura e escadaria de acesso, cúpula central, alas semicirculares que vão de janelas encimados por frontões. Localiza-se na Praça do Phanteon, na parte mais alta e central da cidade em frente a Praça Deodoro. Atualmente é servida de aparelhagens de climatização e de informatização. Segundo o site de cultura do Estado, possui 127.000 peças em seu acervo, entre obras de arte, coleções de jornais maranhenses desde a independência (1822), manuscritos do século XVIII, livros, revistas, jornais, fotografias, microfilme, diários oficiais, obras raras, livros em Braille e folhetos, assim com um significativo acervo referente à história política do Maranhão.

A Biblioteca Pública recebia cerca de duas mil visitas diariamente e estar próxima de completar 180 anos.

Para quem precisa da biblioteca para pesquisar, estudar, ou mesmo apenas ler os jornais do dia e as revistas semanais, a espera estar sendo dolorosa.

Se realmente é para preservar esses tesouros da nossa literatura, ou melhor, da nossa história, tão não há problema de fecha as portas para tal reforma. Entretanto, a “proposta” também já tem data de aniversário; 01 ANO DE ESPERA!.

Segundo Sandra Viana (jornal O Imparcial 05/01/2010), e para o nosso assombro, a reforma ainda nem havia começado naquela data. Cogitava-se que se iniciaria naquele mês; “A reforma, orçada em R$ 6 milhões, vai contemplar todo o prédio da BPBL. Está prevista a instalação de dois elevadores, sala para eventos literários ampliação do espaço físico, Telecentro e anexo à Biblioteca Escolar, que antes funcionava na Praia Grande. A BPBL também ganhará novas obras, adequação do espaço à acessibilidade e informatização de todos os ambientes. “Beleza, melhor atendimento e um espaço que o leitor merece é o que teremos após essa reforma”, diz a diretora da instituição, Rosa Maria Ferreira Lima.”


Abaixo, um pequeno conto do nosso estimado professor José Neres, que também se encontra à deriva.

Final de tarde... A Deodoro fervilha de gente. Cada pessoa anda muito mais dentro de si mesmo de seus problemas de que pelas esburacadas ruas do Pantheon. Em seus malabarismos diários entre a falta de calçamento digno e as poças de lama, mal dá tempo para erguer os olhos e procurar sinais de chuva no céu cinzento da Cidade. Parece que ninguém tem tempo para fixar os olhos no majestoso, mas combalido prédio que, para alguns, é um Centro do Saber; mas que, para uma multidão, não passa de um fétido mictório público a céu aberto.

Paro no meio da praça. Os poetas não mais estão ali para vigiar meus passos. Para compensar, hippies, camelôs de DVDs pirateados e um sem-número de pedintes enfeitam o cenário que outrora exalava sabedoria. Meus olhos se fixam nas paredes com pintura esmaecida pelo tempo e pelo descaso de todos. Mentalmente, entro na Biblioteca e folheio, um a um, os milhares de livros que tanto já contribuíram para o saber de meu povo. Eles que agora estão mudos, mas gritam silenciosamente de desespero, clamando que as portas sejam abertas, para que possam novamente sorrir com o brilho dos olhos das crianças. Algumas ali um dia descobrirão um mundo que vai além da tela do computador ou da televisão.

Viajo no tempo e me vejo caminhando entre as estantes e sentindo a textura da capa dos livros, sentindo o cheiro do conhecimento que emana dos volumes, dos jornais, das revistas... Um urubu sobrevoa o prédio, com se previsse sua morte iminente. Desperto para a realidade. O céu rapidamente escurece e as primeiras gotas de chuva, que parecem lágrimas escorrendo pelas gretadas paredes sem retoque. Sinto que a Casa chora de dor. Todos correm da chuva. Mas ela permanece ali. Firme no desejo de continuar vivendo. Firme no desejo de um dia ver-se livre dos horríveis compensados que a impedem de ser feliz.

Alguém esbarra em mim. Tenho que sair da chuva. A noite está chegando. Tenho certeza de que a noite cultural se prolongará por muito tempo. Sinto-me frágil, transparente, na impotência do nada poder fazer.

A tempestade cai, lavando as escadarias, que pelo menos até amanhã, estarão livres dos odores humanos...