sábado, 19 de junho de 2010

Encontrando as Pedras XLIV


TRANSMIGRAÇÃO
(Dedicado ao escritor português José Saramago)


Deixai que a terra mansa e calma se acostume

No consumo eterno da carne que me restara

Nas noites, nas manhãs e em todas as madrugadas.

Minhas mãos não mais apertam a terra

Agora, então, e de fato, toda a verdade suportável

Numa alma prenhe de ossos que se desliga de todas as carnes.

Há-me, doravante, a plural palavra solta ao vento,

Migrante como todas as almas necessitadas de renascimentos

Faminta de todas as carnes, de todas as verdades... De todos os lamentos.


de João Batista do Lago

Opinião de Pedra: José Neres

A TARA SOB A TOGA

José Neres

Criar uma obra literária a partir de um acontecimento histórico é sempre uma tarefa que exige muito cuidado por parte do escritor, que pode deixar o livro com ranço de puro historicismo sem valor estético ou descaracterizar totalmente o fato que serviu de base para a narrativa e fugir completamente do enredo original, criando uma versão quase que totalmente desvinculada do modelo adotado.

Por outro lado há também os interesses do público leitor. Algumas pessoas querem transformar Literatura em registro fidedigno da História e não se conformam com as liberdades criativas do ficcionista que, livre das amarras da cientificidade, não tem compromisso com a verdade, precisando apenas manter uma coerência interna para com os episódios apresentados. Há quem pegue um romance, não para se deleitar com o valor artístico da obra, mas sim para apontar possíveis falhas históricas do autor. Mas também há pessoas que se sentem lesadas quando a narrativa literária fica muito colada aos acontecimentos já conhecidos e de domínio público. Tais leitores geralmente alegam que o papel do escritor é oferecer um outro olhar dos fatos, e não apenas reproduzir fontes documentais com roupagem literária.

Buscar um equilíbrio entre a força criativa da ficção e o respeito a um roteiro já traçado pela veracidade dos fatos, entre o estilo individual e as expectativas dos leitores não é uma tarefa fácil. Mas foi o que conseguiu o escritor maranhense Waldemiro Viana, em seu mais recente romance “A Tara e a Toga”, que traz de volta às letras o conhecido crime cometido pelo desembargador Pontes Visgueiros contra sua amante Mariquinhas.

O livro, além de presentear o leitor com uma narrativa ágil e envolvente, traz também belíssimas ilustrações assinadas pelo artista Jesus Santos, que, com seu talento já tantas vezes reconhecido, conseguiu captar a essência da narrativa e traduzir em traços e cores os momentos capitais do romance.

Possivelmente usando como fonte de pesquisa o livro “O caso Pontes Visgueiro: um erro judiciário”, de Evaristo de Moraes e outras obras sobre o famoso caso, Waldemiro Viana reconstrói o cenário da época do crime, imiscui personagens à trama, reconstitui diálogos que poderiam ter acontecido, arquiteta situações que costuram o romance e tempera tudo com boas doses de sarcasmo, erotismo e de suspense. E ainda aproveita para homenagear alguns amigos e confrades que aparecem sutilmente em alguns momentos na trama.

Algumas cenas do romance são antológicas, como, por exemplo, o momento em que, cego de paixão, o desembargador vai ao Largo dos Remédios e lá encontra sua amada nos braços de outro. A fúria toma conta do velho magistrado que, vendo-se traído, toma satisfações de sua protegida e desce aos mais baixos degraus da escala humana, vivendo, em um curtíssimo intervalo de tempo, sensações que vão do ódio profundo à vergonha de ver a própria família a presenciar seu vexame, passando também pela humilhação de ter sua vida íntima exposta em público, pelo desespero de conviver com a impotência física e moral e, ao mesmo tempo pela certeza da dependência dos vícios e dos prazeres carnais proporcionados pela infiel amante. A cena final do livro também é carregada de ironia e de uma pitada de bom humor, sem perder o foco da narrativa.

Outra cena muito importante e que terá significativo valor para o desfecho da obra é a da estada de Pontes Visgueiro no Piauí. Os episódios se encaixam de modo perfeito e divertem o leitor com o canhestro casal que se forma a partir de um encontro fortuito. O contraste entre a decadência física do desembargador e suas atitudes de incorrigível conquistador demonstra a habilidade do romancista em oscilar entre o trágico e o cômico com a mesma destreza.

Muito mais que narrar uma história tantas vezes contata e recontada e que já faz parte do conhecimento público, Waldemiro Viana aproveitou as quase duas centenas e meia de páginas do livro para traçar um perfil psicológico das duas personagens centrais. No entanto, o desembargador é o que recebe maior atenção na construção da personalidade. Sua figura caricata desperta no leitor um misto de pena e riso. O ridículo, em várias passagens da obra, serve como contraponto do drama existencial vivido por um homem dividido entre a sisudez da toga e as alegrias de poder realizar suas taras, não importando o preço a ser pago no balanço final.

Com mais esse livro, Waldemiro Viana presta um importante serviço aos admiradores de sua obra, da boa literatura e até mesmo àquelas pessoas que querem apenas divertir-se com as efemérides de nossa História.

fonte:http://joseneres.blogspot.com

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Maranharte Informa: Prêmio Camões

O poeta maranhense Ferreira Gullar venceu a edição deste ano do Prêmio Camões, o mais importante prêmio para a literatura de língua portuguesa.

Numa reunião realizada segunda-feira passada (31/05/10) em Lisboa, o júri do prêmio - composto pelos portugueses Helena Buescu e José Carlos Seabra Pereira, pelo moçambicano Luís Carlos Patraquim, por Inocência Mata, de São Tomé e Príncipe, e pelos brasileiros Antônio Carlos Secchim e Edla Van Steen decidiu atribuir o prêmio ao autor de Poema Sujo.

Junto com o prêmio, Ferreira Gullar - nome artístico de José Ribamar Ferreira - vai receber 100 mil euros. O prêmio é atribuído conjuntamente por Portugal e pelo Brasil.

Depoimentos:

"Ele tem um estilo moderno, muito ágil, é um poeta de um grande vigor, com originalidade", justifica Edla, falando à BBC Brasil.

Para Sechin, o prêmio a Ferreira Gullar vem dar maior peso ao prêmio Camões. "De um lado Ferreira Gullar é honrado com o prêmio e, de outro, ele o honra devido a sua estatura de poeta consensualmente considerado um dos mais importantes, senão o mais importante poeta vivo, pela multiplicidade de aspectos da sua obra e pela sua postura ética e política."

"É um caso raro de um poeta que agrada simultaneamente ao grande público e à crítica mais exigente. É um poeta sempre insatisfeito com os rumos de sua própria poesia, e que a todo momento está se reinventando", disse à BBC Brasil.

Segundo Edla Van Steen, a idade do poeta pesou na decisão. "Foram colocados na mesa vários nomes e, no momento da escolha final, falamos da imensa obra do Ferreira Gullar, que está com 80 anos e que esse prêmio é o coroamento do trabalho do escritor. E todos os outros candidatos ainda têm mais tempo para aumentar a obra e o Ferreira já fechou. Ele continua produzindo, mas já é o candidato ideal para o prêmio".

Ferreira Gullar é o segundo poeta brasileiro a receber o Prêmio Camões, nas suas 22 edições. Antes dele, só João Cabral de Mello Neto recebeu, em 1990. Outros nomes que receberam o prêmio incluem José Saramago, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Antonio Candido, Lygia Fagundes Telles, o português António Lobo Antunes, o moçambicano José Craveirinha e o angolano Luandino Vieira. No ano passado, o prêmio foi atribuído ao cabo-verdiano Armênio Vieira.

Para a ministra da Cultura portuguesa, Gabriela Canavilhas; "o prêmio vai ajudar tornar Ferreira Gullar mais conhecido em Portugal". "É o mais prestigiado prêmio para a literatura lusófona. Queremos que sejam os cidadãos a reconhecer nos premiados o mérito para ter este prêmio. Será uma excelente oportunidade para conhecermos melhor o escritor"


Fonte:www.estadao.com.br

Maranharte Informa: Curso de Especialização em Literatrua Comparada


A Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da UFMA (PPPG) comunica aos interessados que estarão abertas, no período de 14 de junho a 07 de julho de 2010, na Secretaria do Curso, na sala 4(GEL), bloco 1, Prédio do Centro de Ciências Humanas - CCH, localizado à Av. dos Portugueses, s/n, Campus Universitário do Bacanga, telefones: 3301-8340, 3301-8715, as inscrições para seleção ao CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM LITERATURA COMPARADA.

O público alvo da especialização são graduados em Letras, Artes e Comunicação Social. Serão oferecidas 35 vagas e matrícula gratuita. O início do curso está previsto para o dia 16 de agosto de 2010 e será ministrado diariamente, no horário das 18h30min às 21h30min nas salas de aula do Centro de Ciências Humanas – CCH (Campus Bacanga).

Para mais informações, acesse o edital aqui.