domingo, 31 de outubro de 2010

Maranharte Divulga: Livro TÁBUA DE PAPEL

Vai até o dia 05/11/2010 as inscrições para a Jornada Tábua de Papel - Literatura Maranhanse organizada pela Café & Lápis Editora e que ocorrerá no dia 06 de novembro de 2010 (sábado), no Auditório Che Guevara/Sindicato dos Bancários (Rua do Sol – Centro) em São Luís, ao lado da Livraria Athenas.

Com a participação de professores universitários e escritores, que palestrarão sobre variadas temáticas, a jornada literária terá, ao final do seu evento, o lançamento do livro coletânea TÁBUA DE PAPEL: ESTUDOS DE LITERATURA MARANHENSE, organizado pelo escritor e professor José Neres, reunindo artigos de dez autores.

Os Locais de inscrições são: Livraria Athenas (Rua do Sol – Centro); Livraria Prazer de Ler (CCH – UFMA); Faculdade Athenas Maranhense (Local a ser definido).

Valor (ÚNICO): R$ 20,00 (Certificado – 10h + Livro Coletânea)

Informações: Tel: (98) 3082-8871 (Germana ou Claunísio)


PROGRAMAÇÃO:

08:15 h - Credenciamento

09:00 h – Abertura

09:20 h - 11:00 h - Mesa 1: Literatura e formação da identidade de um povo

Antonia Nilda Alves Cruz

Maria das Neves Oliveira e Silva Azevedo

Núbia Costa Bastos

Dinacy Mendonça Corrêa

11:10 h – 12:00 h – Palestra: Artur Azevedo e a comédia no Brasil

Dino Cavalcante

14:00 h - 15:40 h - Mesa 2: Literatura Maranhense: do clássico ao contemporâneo

Flaviano Menezes da Costa

Joaquim de Oliveira Gomes

Natércia Moraes Garrido

Rosely Maria Ribeiro Néri Saldanha

15:50 h - 16:50 h - Conferência de encerramento: Gullar: de São Luís para o mundo

Prof. José Neres

17:00 h - Lançamento

Coletânea “Tábua de Papel: estudos de Literatura Maranhense”, José Neres (org.).

Entrega de certificados e livros

Coquetel de Encerramento

Sobre o Livro coletânea TÁBUA DE PAPEL: ESTUDOS DE LITERATURA MARANHENSE


Opinião de Pedra: Alberico Carneiro, Manoel Santos Neto e J. M. Cunha Santos

A edição de Nº 224 do Suplemento Cultural & Literário Guesa Errante (21 de outubro de 2010) do Jornal Pequeno prestou uma belíssima homenagem ao escritor Herbert de Jesus Santos. Com uma inspirada apresentação do idealizador do Suplemente - o escritor Alberico Carneiro, a edição conta com textos dos escritores Manoel Santos Neto e de J. M. Cunha Santos.

Cada escritor tem uma marca, uma rubrica própria, que independe de assinatura ou autógrafo, que é o seu estilo. Então, o texto o denuncia e se nos oferece como autêntica identificação do autor. Quem inventou esse processo de criação de deixar a obra de arte, sem assinatura, não faz parte da cadeia digital das criaturas. Deus, ao criar o Universo, plasmou nele subliminarmente o registro de sua autobiografia e deixou a obra do orbe sem autógrafo. Apenas nas palmas das mãos do ser humano cunhou indícios de impressões digitais, o M e nele o W às avessas. Aí está a raiz da origem do alfabeto, razão do Verbo (Deus-palavra) e do verbo (palavra-carne), daí os crimes do canto ilícito advindo da linguagem envenenada nas palavras e parábolas. Verbo feito carne. Que o verme humano se faz verbo, verve e, às vezes, o que é triste, verba. Outros houve que nem sequer deixaram uma só impressão digital. Cristo e Sócrates não escreveram uma palavra sequer. Sabiam do risco do que sai pela boca da pena.

O verbo de Herbert de Jesus Santos também poderia não ser assinado, pois é látego. Satírico, irônico, mordaz, furibundo no morder com frases ferinas as feras da corrupção. Difícil ofício para quem vive numa província tão consuetudinariamente corrompida pela miséria e mazela de uma mídia que não tem vergonha mais de escancarar o maquiavelismo. Apresenta a Bíblia como livro de cabeceira; debaixo da cama esconde O Príncipe, de Maquiavel. Mas esse tribuno das massas sobrevive para vergastar os anões de colarinhos brancos, que não são tão pequenos de estatura, embora baixos na malversação do erário público. Ele sabe qual é a sua tribo. Esse que se fez a ferro e fogo cronista e poeta satírico, pode ser o nosso Petrônio, de Satiricon, o escritor romano que mostrou à posteridade os crimes e a decadência moral do Império Romano. Seria preciso citar também João Lisboa, cuja crônica histórica de Jornal de Timon narra a biografia viva de um estado, o do Maranhão; e de um país, o Brasil, em que a burguesia e a aristocracia, que viviam às custas do braço escravo, com a Abolição da Escravatura , migraram para a politicalha que até hoje, no Brasil, sustenta uma corja de desocupados ricos, doutorada em corrupção.

Aqui, no Maranhão, um dos representantes dessa voz de denúncia é o hoje sessentão Herbert de Jesus Santos, que nasceu a 7 de agosto de 1950. No século XVII, a Bahia foi abalada pela pena mordaz do poeta satírico Gregório de Matos Guerra que, inclusive, por causa de suas sátiras, mereceu o epíteto de “O Boca do Inferno”. Vila Rica, Minas Gerais, assistiu ao desassombro do poeta Tomás Antônio Gonzaga que, com o poema satírico Cartas Chilenas, tornou públicas as ações venais do governador Luís da Cunha Menezes que, a partir daí, passou a ser chamado de “Fanfarrão Minésio”. Que os escritores Manoel Santos Neto, J. M. Cunha Santos, Jorge Medauar e Pompílio Santos saúdem o Aretino maranhense e digam do estilo pícaro-burlesco desse vate, cronista e contista. Que desnudem a alma daquele que ama cantar São Luís e que faz o registro do cotidiano da verdadeira Ilha do Amor, como crônica viva, pulsante.

Alberico Carneiro



Herbert de Jesus Santos Um poeta sessentão

Alfarrábios de um escritor inspirado na cultura do povo

Manoel Santos Neto

Herbert de Jesus Santos não é mais aquele menino pobre, criado numa família humilde dos subúrbios de São Luís, que acabou se tornando escritor e chegou a sonhar com a Academia. Hoje, autor de 10 livros publicados, ele é um sessentão, homem maduro, calejado de tantas lides, que agora busca – sempre irrequieto – ser um intérprete cada vez mais fiel dos genuínos valores da cultura e do cotidiano de seu povo.

Encantado pela magia do carnaval e do bumba-meu-boi, entre tantas outras manifestações populares, Herbert Santos já lutou muito, comprou brigas com muita gente, mas hoje admite que está mais quieto. Inspirado em raízes populares muito fortes, ele reafirma consigo mesmo o compromisso de ser um intelectual cada vez mais próximo dos anseios de sua gente.

“Com a graça de Deus, quero continuar na luta. Meu sonho é prosseguir no ofício, buscando escrever cada vez mais, aumentando a minha produção literária que, até hoje, me rendeu algumas perseguições, mas também me premiou com boas e grandes amizades”, afirma o poeta.

Filho de Doralina Esmeralda de Jesus Santos (Dona Dora), operária da Fabril (fábrica de tecelagem) e do pescador Felipe Nery dos Santos, chamado de Filipão, Herbert de Jesus Santos nasceu em São Luís, na Madre Deus, a 7 de agosto de 1950.

Ele gosta de dizer que foi “desasnado” em sua própria comunidade, pela professora normalista, Dona França, que ensinava particular a cartilha de ABC, em sua residência, na escadaria da Rampa Manoel Nina. “Não me apaixonei pela minha primeira mestra, mas, como sempre ficamos próximos, ela sempre sabia dos meus sucessos nos estudos”! – lembrou.

Nesses contatos, Dona França o incentivava muito a prosseguir no ensino, até quando saíram da Madre de Deus, por causa da construção da Barragem do Bacanga, em 1970, quando muitos removidos foram para o Anjo da Guarda e outros, com a pequena indenização do Governo do Estado, compraram casas no Lira e em outros bairros do entorno da sua comunidade original.

“Eu já casado, em 1982, residi no Codozinho, perto de Dona França. Tempos depois, com livros publicados, por meio de prêmios literários, disse que um dia eu a convidaria para a minha posse na Academia Maranhense de Letras, sem saber ali que há outros interesses da AML em jogo. Ela procurava, amiúde, pela Academia, em nossos encontros, até no ano passado (2009) quando eu, morando no Cohafuma, soube do seu falecimento, aos 79 anos, dito por seu filho, o popular Mesquita do Lira”.

Desde pequenino, Herbert encantou-se pelas manifestações da cultura popular maranhense. Começou por ter sua “maternidade” (casa) atrás da Capela original de São Pedro, cuja primeira zeladora foi sua avó paterna, a beata Marcelina Cirila dos Santos – Dona Marcela. Na frente da capela, assistia às apresentações dos bumba-bois, que louvavam o padroeiro dos pescadores, no amanhecer de 29 de junho, no largo, com leilão de prendas e procissões marítima e terrestre.

Sob o ruído das matracas – “Eu guardava numa caixa de papelão miçangas e canutilhos, caídos das roupas dos brincantes e do couro dos mimosos, como se fossem brilhantes. Acho que daí fiquei vidrado nas brincadeiras, em que o Boi (de matraca) da Madre de Deus é especial, até por causa de meus avós maternos no primeiro batalhão, no fim do século 19”.

Aprendeu a gostar bem cedo, igualmente, das escolas de samba, em primeiro lugar da Turma do Quinto, em que brincavam seus tios e primos mais velhos, e Filipão foi diretor de batucada (hoje, bateria). Foi por causa deles, falecidos, que ajudou o seu primo João Batista dos Santos, em 2000, a levantar o prestígio da Turma do Quinto.

“Lutei e lutei pela Turma do Quinto, O Boi e A Festa de São Pedro” – acrescenta Herbert – “que Bulcão e Godão, donos do Bicho Terra e Boizinho Barrica, pretenderam acabar, por já mandarem na Secretaria Estadual da Cultura. Antes, eu já havia, com auxílio do então deputado Expedito Moraes, realizado a primeira restauração da sede da tradicional agremiação carnavalesca, em 1993. Mas não acabaram a Turma do Quinto, como tencionaram”.

Em 1957, Herbert foi morar com seus padrinhos (Francisco Galvão dos Santos, o Chiquito, e Aldenora, Dedé), na Rua do Apicum. Fez uma reciclagem com aulas particulares do professor Edson Garcia, irmão do radialista Edy Garcia, antes de estudar o primário na Escola Modelo Benedito Leite e passar no exame de admissão ao Liceu Maranhense (muito concorrido), em 1962, onde concluiu o Científico em 1968.

Neste ínterim, aos 17 anos, forjou com aço sua personalidade coletivista, no Clube de Jovens da Madre de Deus, com atividades solidárias e de conscientização comunitária, qual a de alfabetizar adolescentes e adultos pelo Método Paulo Freire.

“Era o auge da ditadura militar, quando soubemos da prisão, pelo Exército, de muitos maranhenses contra o golpe na democracia, entre os quais os médicos e idealistas Maria Aragão e William Moreira Lima, tempo e espaço, aliás, em que ambientei a minha novela A Segunda Chance de Eurides” – assinalou.

Idealismo da juventude – O Clube de Jovens da Madre de Deus ajudou os moradores (praianos) até nos contatos com as autoridades governamentais para a remoção ao Anjo da Guarda. “Dentre os clubistas, havia o idealismo dos noivos, hoje, médicos e casados, Raimundo Teodoro de Carvalho (Raimundinho) e Lúcia Bulcão da Silva, sua irmã Maria Cecília Bulcão da Silva (Zoca), Gracinha Ferreira Silva, Raimundo João Silva, eu e a minha namorada, Léia Sousa Pimenta, então professora e acadêmica de Economia da UFMA!” – recordou.

Acompanhou sua mãe e irmãos ao Anjo da Guarda, em março de 1970, sem deixar os laços com a Rua do Apicum, onde o velho Erasmo Dias, jornalista e escritor de mão-cheia, exercia influência em moços, jornalistas e poetas, sobretudo. “Há muito dessa época, no Peru na Missa do Galo (Contos de Natal), que conseguiu publicar em dezembro de 2009” – assinalou.

O livro Peru na Missa do Galo reúne 11 contos com a temática da Data Magna da Cristandade, contemplando a cultura natalina como ela é feita, aqui, em termos de canto e dança de pastoral e reisado, culinária, congraçamento das pessoas, esperança de dias mais bonançosos para a coletividade. “Neste ponto, evidencia-se muito a experiência de um ludovicense da gema, em textos construídos em alicerces da maranhensidade genuína, no nosso ser e estar no universo, com romances, xodós e reencontros de amantes, entre episódios hilários e sisudos”, ressaltou.

“É tudo ficção, com personagens tiradas do nosso chão, aproveitamento da nossa paisagem e de personalidades minhas conhecidas, literárias e comunitárias”, explicou. Revelou que este título só não foi publicado há muito tempo, pois, submetido ao Concurso Literário Cidade de São Luís da Func, o júri o desclassificou, com o argumento de um tal, escrito no meu original, de que o Cartório de Eloy Coelho Neto era só de títulos, e eu coloquei a Zona do Baixo Meretrício para tirar a certidão de nascimento de um Jesus achado por popular numa noite de véspera de Natal.

Enfatizou: “Sendo ficcional, eu poderia usar o cartório ao meu bel-prazer; outro, considerou o livro parecido com coleção de contos russos, talvez por eu falar nos mestres da literatura como Tolstoi; outro, por eu evidenciar passagens sobrenaturais, quanto milagres de Natal, Estrela do Oriente etc. Não leu o conto de Natal de Erasmo Dias (O Ajuntador de Papel), a novela O Banquete (de Ubiratan Teixeira) e aula do poeta José Chagas sobre o tema, no opúsculo Versos de Natal.

Peru na Missa do Galo, com 148 páginas, traz a marca editorial da Lithograf, ilustrações de Wilson Caju, também incursiona no tempo da adolescência do autor, estudante do Liceu, ativista do Clube de Jovens da Madre de Deus, na ditadura militar, sua estada na Rua do Apicum, ida para o Anjo da Guarda, festeiro na Liberdade, Monte Castelo, Lira, Camboa etc.

Os tempos do Sioge e as jornadas nas Redações

Em 1972, Herbert de Jesus Santos tornou-se evasor do Curso de Direito da UFMA, onde fora aprovado em 1971. Em dezembro de 1975, empregou-se no Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado (Sioge), através de pedido do poeta José Chagas ao diretor do órgão, escritor Jomar Moraes.

No setor de Revisão do Sioge, ampliou seus conhecimentos gerais e criou uma fama profissional entre os literatos editados pela Casa. Em 1976, em novo vestibular, ingressou no Curso de Comunicação (Jornalismo) da UFMA, onde se formou em 1980. Em 1976, casou com a professora ribamarense Marilda Alice Cardoso, com quem teve três filhas (Amarílis, Alessandra e Amanda), sempre em São Luís.Viúvo, sua atual companheira é a pedagoga ribamarense Maria Gorete Protázio, com quem tem uma filha (Mariana)

Iniciou sua carreira de jornalista profissional em O Imparcial; depois, O Estado do Maranhão, O Debate, Jornal de Hoje e no Diário do Norte indo de revisor, repórter, secretário de Redação a chefe de Reportagem e editor-geral. Atualmente, é colunista do JP Turismo, suplemento do Jornal Pequeno, sendo, desde 1995, titular da coluna “Sotaque da Ilha”, e colaborador no jornal Extra. Em 1992 ingressou no Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM).

Sua estreia literária se deu com uma Canção Para a Madre de Deus (poesia, em 1984); daí são mais nove títulos, alguns prêmios em concursos literários e jornalísticos: Um Dedo de Prosa (crônicas); Bazar São Luís: Artigos Para Presente e Futuro (crônicas); Quase Todos da Pá Virada (contos); São Luís em PreAmar: Ainda Assim, há um Azul! (poesia); A Segunda Chance de Eurides (novela); Serventia e os Outros da Patota (contos); Ofício de São Luís: Bernardo Coelho de Almeida (Coração em Verso e Prosa); Peru na Missa do Galo (contos de Natal); e Antes que Derramem a Lua Cheia (crônicas). Tem seis livros inéditos e outros em andamento, em todos os gêneros, com exceção de teatro.

No seu entendimento, com a extinção do Sioge, a cultura literária maranhense sofreu um duro golpe, no surgimento de novos valores e consolidação dos celebrizados. “Era, sem dúvida alguma, o ponto da cultura maranhense mais respeitado pela intelectualidade brasileira, com seu jornal literário Vagalume (editado pelo escritor Alberico Carneiro), campeão diversas vezes, nacionalmente, dentre seus congêneres; concursos literários e publicações constantes; coral e teatro de servidores. Foi realmente uma grande perda para o Maranhão o fim do Sioge!” – assegurou.

Quando recorda dos tempos do Sioge – com uma ponta de tristeza e nostalgia –, Herbert gosta de exaltar três figuras emblemáticas: os gráficos Roberto Nascimento ( saudoso), Newton Luís de Jesus e Mário Amorim, ambos ainda vivos, tipógrafos de grande experiência profissional, que deixaram suas marcas na história do velho Sioge. Herbert acrescenta aqui o nome do escritor Jomar Moraes, grande editor de livros, com quem ele reconhece que muito aprendeu.

“Não é para todos o privilégio de publicar livros, aqui, onde a literatura foi mais prestigiada, quando havia, pelo menos, oito concursos literários, até na década retrasada, estimulando o surgimento de novos talentos e consolidação de nomes consagrados”, assinalou.

“Estou falando, também, como revisor literário no áureo tempo do Sioge, que foi o ponto de nossa inteligência e cultura mais respeitado pela intelectualidade brasileira, por causa de seu jornal (suplemento), inserto no Diário Oficial, seus concursos literários, coral e teatro de servidores etc.”, acrescentou. Revelou: “ Por defender o Siorge, em jornais, sofri perseguição no serviço público estadual, até hoje, a um passo de aposentadoria”

Ideário de um sessentão que sonhou chegar à Academia

Em agosto de 2010, o jornalista e escritor Herbert de Jesus Santos lançou, em noite de autógrafos muito concorrida, seu terceiro livro de crônicas, Antes que Derramem a Lua Cheia, e o décimo da sua carreira, em que já se inclui uma bibliografia de dez títulos, dentre prosa e poesia, além de prêmios jornalísticos e literários.

O sarau das letras maranhenses aconteceu na frente do Bar e Restaurante Skina, do Hotel Central, na aprazível Praça Benedito Leite, prestigiado por jornalistas, gráficos, escritores, familiares e amigos do autor que, na ocasião, falou da necessidade de uma política mais abrangente para a literatura, como a que se deu no tempo do extinto Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado (Sioge), segundo ele, “o último ponto da cultura e inteligência maranhenses respeitado pela intelectualidade brasileira, até 1993.”

O lançamento de Antes que Derramem a Lua Cheia fez parte das comemorações da passagem do 60º aniversário natalício de Herbert, o poeta da Madre Deus – confessa que gosta de ler as crônicas de Cunha Santos Filho, José Chagas e Ubiratan Teixeira e, até por dever de ofício (como revisor profissional), costuma ler a poesia de Luís Augusto Cassas.

Entre os grandes nomes da literatura do Maranhão, além de Sousândrade, Herbert destaca Gonçalves Dias, Josué Montello, Nauro Machado, Ferreira Gullar e Erasmo Dias. Ele faz questão de salientar também João Mohana, como um dos maiores escritores maranhenses; e entre os escritores nacionais, que também lê (além do romancista Machado de Assis) os cronistas Fernando Sabino e Rubem Braga e os poetas Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Mário Quintana.

Graduado em Comunicação Social, Herbert Santos, o poeta que vive num meio onde a maioria das pessoas mal tem dinheiro para pagar as contas do fim do mês, orgulha-se da vida modesta que leva. Com a sua poesia, seus livros e suas crônicas, não ficou lugar para a dúvida: o escritor da Madre Deus é um artista popular com um faro e uma competência indiscutível para a crítica social. “Sinto-me honrado de poder lutar para construir uma carreira literária e jornalística com toda dignidade possível, procurando fazer tudo com o maior respeito possível, para merecer o respeito dos meus conterrâneos”, assinala ele.

Já por quatro vezes, Herbert Santos lançou-se candidato a uma cadeira na Academia Maranhense de Letras. E por quatro vezes perdeu as eleições. Na última investida, em 2009, quando tentou ocupar a vaga deixada pelo poeta Nascimento Morais Filho, obteve apenas três votos. O vencedor foi o deputado estadual Joaquim Haickel.

“A Academia Maranhense de Letras merece valer a pena. Deve, como instituição, se voltar para a melhoria das condições de vida do nosso povo”, afirma o poeta. Mas, se a Academia negou-lhe uma cadeira, o escritor de Uma Canção Para a Madre de Deus sente-se honrado, quando reconhecido como o grande poeta popular, que também é capaz de transformar idéias e delírios em tema sólido da arte do povoléu, quando compõe sambas enredos para o Carnaval – como tantas vezes já fizera e pretende continuar fazendo.



Insurgência Contra a Burra Cheia da Poesia Maranhense

J. M. Cunha Santos *

Cronista desaforado, às vezes furioso com os que perturbam sua Cidade, estudioso da História e folclorista meticuloso, compositor premiado e poeta ainda bem que submisso aos distúrbios da alma humana, Herbert de Jesus Santos é um cultor de imagens e perseguidor do belo. Capaz de transmudar sentimentos e acender em linguagem própria as luzes didáticas que fazem de São Luís berço de trovadores imbatíveis, existe-nos agora com uma obra com a qual, para não fugir da sua sacrossanta característica de guerreiro impiedoso da palavra, permanece a dizer cobras e lagartos, como lhe impõe o coração de menino rebelde da Madre de Deus e filósofo do populacho.

Este poeta que, à guisa de prefácio, desnuda São Luís à beira de um ataque de nervos, diante do que chama “decadência moral, intelectual e socioeconômica”, que ataca os covardes saqueadores (no sentido bruxo e deletério do substantivo) de sua terra, usa o seu crime mais constante, a poesia, para dizer um basta aos vilões engasgados por gravatas que roubam de São Luís o ouro e a aura. Basta obtê-lo transfigurado e assustado com quem “silencia por encomenda” (Poema da Quase Quatrocentona), para que se nos assalte um certo orgulho nativista; basta vê-lo quedar, Estrela Cadente, de aversão e mágoa, diante de patranhas literárias inconfessáveis, a investir violento: “A poesia parece estar com a burra cheia/e nunca é de graça um pé-de-meia”; basta o alimento de sua revolta, o estrebuchar de seu inconformismo a ressuscitar bandeiras rasgadas por “tubarões de black-tie”, para que se entenda a verve de Herbert como um trompete a ferir os ouvidos dos que, para usar sua linguagem, caruncham a dignidade de um povo, uma raça e a própria poesia: “Quem passa em branco/os males da farsa/em qualquer universo/é comparsa”.

Juntando figuras históricas e folclóricas, heróis e crápulas, Herbert constrói um discurso social que remete ao romantismo nacionalista. Uma poesia feita de exclamações, uma pancadaria impiedosa contra a subserviência, a decadência, a omissão e a submissão intelectuais. É o que se infere desse inevitável brado contra o academicismo, o diplomismo, o doutorismo de uma literatura muitas vezes construída mais a títulos e status que criação, mais a fotocopiosmo que a originalidade, mais a servilismo que a ideal:

A crise de autoridade e a indústria dos medos terceirizadas por egocêntricos fariseus, com anéis da vida e da morte, nos dedos, aqui, qualquer pentelho quer ser deus!

Quando percebe que Estão Tentando a Morte da Poesia, não a aceita como moeda de troca, como coisa morta, escadaria para a ascensão de beócios e capadócios. Ele a quer berrando contra as estruturas podres da civilização, como um ataque à servidão humana, um poder revolucionário contra a corrupção, a safadeza política e intelectual. Por isso, sofre:

Pelo que venho clamando no deserto estão tentando matar a poesia em troca do poder mais abjeto aceitam sua letal asfixia

E é este cronista que sabe que “a escória de além-mar é da alta-roda/, onde, sem concorrência ascendeu”, um petardo contra as consciências corrompidas. O poeta não tergiversa. Ele sabe e aponta os culpados, e define, como um criminalista da literatura, a máxima culpa de cada um. É um tipo de poesia forjada na luta contra os improbos, a insanidade coletiva dos que só querem se dar bem, os carniceiros do povo. Por trás de sua fúria didática, esconde-se o lirismo que a coragem cívica oculta para não dar margem a dúvidas: a poesia de Herbert de Jesus Santos pretende sanear a sociedade e a intelectualidade servil, livrar a literatura dos cupins e moscas de verniz que a enodoam. Diante disso, ouça-se, sem mais comentários: “Surrupiam até o espírito de luta,/vendem Cristo, fazem escada da Cruz,/e entornam todo o ouro da batuta,/e transformam inteligência em pus./Corrompem até o raio que não foge da raia,/objeto de desejo passional: /aqui cai todo mundo na gandaia,/a nata da canalha nacional./Ao som das bandalheiras e vil metal,/votos do melhor, fraternidade,/não passam de um tremendo carnaval,/onde cultura é só festividade,/eventos para o lucro individual”.

De resto, o livro é uma instigante homenagem a nomes escolhidos da literatura e cultura maranhenses, como Luís Papagaio, Filipão, Cesar Teixeira, Maria Aragão, Nauro Machado, José Maria Nascimento, Luís Augusto Cassas, dentre outros que orgulham o Maranhão. Enquanto quase mistura, como a propor um novo estudo da produção literária, poesia e crônica num mesmo esgar revolucionário, Herbert quase nos constrange com a crueza e desobediência de seus versos. Não se trata, no entanto – temo ter deixado passar essa impressão – de um livro pessimista, o que já se infere no próprio título São Luís em PreAmar: Ainda Assim, há um Azul! O poeta, a despeito, tem esperanças (falando por São Luís): “Somente quando o Sol raiar/em toda sua plenitude/de horizontalidade e proa,/terei sorrisos fortes e eretos.”

*poeta e prosador


Bibliografia de Herbert de Jesus Santos

Prosa

Um Dedo de Prosa (crônicas), 1986, Prêmio Literário Maranhão Sobrinho do SIOGE, em 1985; Bazar São Luís: Artigos para Presente e Futuro (crônicas), 1988, Prêmio do Plano Editorial SECMA/SIOGE, em 1987; Quase Todos da Pá Virada (contos), 1992; A Segunda Chance de Eurides (novela), 2006, premiado, em 2.º lugar, no Concurso Literário Cidade de São Luís da FUNC, em 1999; Serventia e os Outros da Patota (contos), 2007, premiado, em 2.º lugar, no Concurso Literário Cidade de São Luís da FUNC, em 2002; Ofício de São Luís: Bernardo Coelho de Almeida-Coração em Verso e Prosa (ensaio), 2008, ganhador, em 1.º lugar, do Concurso Literário Cidade de São Luís da FUNC, em 2007; Peru na Missa do Galo (Contos de Natal), 2009; e Antes que Derramem a Lua Cheia (crônicas), 2010;

Poesia

Uma Canção Para a Madre de Deus, 1984; e São Luís em PreAmar: Ainda Assim, há um Azul!, 2005.

Obras inéditas:

Prosa

João Minha Gata em Riba (do) Mar de São José (crônicas); A Terceira Via (novela); Mais Ouro do que Bronze (crônicas); Sotaque da Ilha (crônicas); Assim Está Escrito (cartilha ortográfica).

Poesia

Hábito de Luz; e As Cores de Agosto. Em andamento: As Vozes do Sobrado Maia (romance), etc.

Fonte: www.guesaerrante.com.br ( fotos retiradas do site do jornal pequeno)