quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Pedras Preciosas - Revista Pitomba

"A ideia é fazer o maior barulho pelo tempo que podemos fazer. Isso é o que basta". (Reuben da Cunha)

Inventada a partir de um confronto de ideias criativas entre o escritor Bruno Azevêdo, o jornalista e poeta Celso Borges e o ensaísta, poeta e tradutor Reuben da Cunha Rocha, a revista Pitomba, nasce com a missão de criar atritos e provocações na inércia cultural daqueles que sempre ficam na desculpa de que não fazem porque não podem. O recado do trio é dado em letras garrafais logo no editorial resumido em uma única frase: QUER FAZER. FAZ, que tem a intenção de dar o impacto de um golpe de um pugilista no estômago. “Fizemos a Pitomba para que se faça mais. Vivemos num ambiente de autoqueixume, autodependência e baixíssima iniciativa. Admiro mais quem faz mal do que quem não faz. Quem faz mal ao menos me mostra
mais respeito”, refl etiu Bruno Azevêdo. Remando contra essa maré do “inviável”, o trio conseguiu reunir uma turma de diferentes segmentos que privilegia a produção de artistas contemporâneos das regiões Norte-Nordeste, como poetas, prosadores, artistas plásticos, músicos, ilustradores, quadrinhistas e fotógrafos de fora do centro do mapa cultural brasileiro. “A gente sabe o que acontece no eixo Rio/São Paulo, e não sabe o que ocorre bem aqui do lado em Teresina. A ideia da Pitomba é fugir um pouco desse eixo. Temos poetas, quadrinhistas e outros artistas em Fortaleza, Recife e Belém que muitos desconhecem. Um dos sentidos da publicação é criar este diálogo entre artistas de diferentes cidades”, explicou Celso Borges.
O jornalista ressaltou ainda, que a primeira Pitomba, não é necessariamente a número um, pois a revista não tem periodicidade. Foi este um dos pontos nevrálgicos entre seus criadores durante o processo de concepção da revista. O ensaísta Reuben da Cunha foi o primeiro a defender o lançamento de um número único, mas foi convencido tanto por Celso Borges quanto por Bruno Azevêdo que os números seguintes seriam determinados pela profusão de idéias de cada um. “Seria muita inocência da minha parte acreditar que ela fosse ter uma longividade. Não fizemos a Pitomba com a ideia de parar no primeiro, no segundo ou terceiro exemplar. Nos convencemos a aceitar o esquema de fazê-la às nossas custas. Mas a certeza que temos é que enquanto tiver fôlego criativo vamos editá-la. Mesmo se um dia ela vir a desaparecer, vai surgir uma outra coisa, seja com nós três juntos ou cada um separadamente”, explicou Reuben da Cunha. Com um mundo de ideias fervilhando na cabeça e um orçamento curto versus a falta de apoio fi nanceiro que não sustenta uma periodicidade, Bruno Azevêdo acrescenta: "A revista não surgiu com a intenção de se tornar um investimento financeiro, e sim um investimento (como o da própria editora) e uma possibilidade de comunicar”, disse ele.
O escritor vê a publicação como uma tentativa de sair da prostração e malemolência que infelizmente parece nos ser natural no meio artístico maranhense. “Reclamar de falta de apoio fi nanceiro é fácil, reclamar é a coisa mais fácil que existe! A gente já nasce reclamando. Basta de reclamar, tem-se que fazer”, ataca Bruno Azevêdo. Entre o processo de criação e publicação da revista foram quase dois anos de troca de informações para que a mesma tivesse uma identidade, mas com a marca da diversidade artística. Celso Borges explicou que a ilustração
da capa é assinada pelo piauense Amaral, que se inspirou na lenda da serpente adormecida
que cresce pouco a pouco ao redor da ilha de São Luís, e no dia em que sua cauda encontrar a cabeça, o monstro destruirá a cidade, fazendo com que ela seja tragada para sempre pelo oceano. As traduções e colagens de Reuben da Cunha Rocha, presenteia o leitor com um texto sobre a imortalidade literária na contracapa da revista de autoria do escritor, ator, comediante, dramaturgo, compositor e diretor mexicano Roberto Bolamos. Já a prosa conta com a participação de Bruno Azevêdo, Carolina Mello, Carlos Augusto Lima e Guaracy Britto Jr, e poesia de Celso Borges e Eduardo Jorge. A publicação tem 36 páginas e tiragem de mil exemplares e trás o samba Faustina, Mona Lisa da Praia Grande do cantor e compositor César Teixeira; fotos de Márcio Vasconcelos e André Lucap; ilustração de Fernando Mendonça e quadrinhos de Ricardo Sanchez. O projeto gráfi co é de Bruno Azevêdo, com colaboração de Celso
Borges e Reuben da Cunha. Pitomba conta com o apoio das livrarias Poeme-se, Vozes e do jornal Extra. Revista reúne produção de artistas do Norte-Nordeste e propõe romper com a inércia cultural e a ‘maré do inviável’.

Uma revista nada “alternativa”
O projeto gráfico de Pitomba assemelha-se aos fanzines de humor publicados nos anos 80 carregados de críticas sociais, poesia, quadrinhos e com uma linguagem “desproposital”. Para Bruno Azevêdo, Pitomba a rigor, é um fanzinão. “O processo de montagem, distribuição, acabamento e mesmo o conteúdo, como bem notado, estão mais próximos dos “zines”, no sentido de uma produção sem muitas amarras que tem como público maior os próprios produtores e seus pares (e não alguma empresa ou editoria). A revista é feita com os recursos disponíveis (e não os ideais) e sujeita à extinção imediata”, comentou Bruno Azevêdo. “De punhos cerrados”, o ensaísta Reuben da Cunha tal qual o jornalista Celso Borges são contra a rotulação de que Pitomba seja uma revista “alternativa”.
“Alternativa a quê?”, perguntou-se Reuben da Cunha. Ele afirma que a revista surgiu apenas para suprir uma falta de um espaço para essa diversidade cultural que precisa ser vista e consumida, mas que vive em grande parte no mundo das sombras. “A ideia é fazer o maior barulho pelo tempo que podemos fazer. Isso é o que basta”, diz o ensaísta. O jornalista Celso Borges avalia que a revista tem “atrito” e um caráter juvenil dando um “perfi l maranhense” a fi- guras como Karl Marx, Freud, Frederich Nietzshe com um tom sarcástico fazendo provocações.
Sobre esta “dessacralização”, Bruno Azevêdo detona: “O que fi zemos foi contar como estas figuras verdadeiramente viveram as suas vidas, devolvendo ao Maranhão, este Maranhão berço de heróis, onde três de suas grandes personalidades foram roubadas por promessas falsas de dinheiro, fama ou civilização”, diz o escritor avisando que quem for ler os textos entenderá do que ele está falando.
O espírito de Pitomba pode ser considerado como disse o mexicano Roberto Bolaño, como uma daquelas bofetadas de cinema, sobretudo de caráter lenitivo que são dadas nos personagens histéricos para que reajam e parem de gritar e salvem suas vidas. E Bruno Azevêdo emenda: “Acho que muita gente vai achar uma ou outra coisa interessante, e para mim isto é o que conta. Se um texto bater, batemos todos no fim das contas. Talvez por isso sejamos uma revista desleixada com créditos, bios e outras burocratices que alegram mais autores que leitores”, resumiu Bruno Azevêdo. Que venham mais cachos e cachos de Pitomba.

Texto de Samartony Martins ao Jornal O IMPARCIAL

domingo, 16 de janeiro de 2011

MARANHARTE 2011

Abaixo, as principais Livrarias e Sebos de São Luís.

Livraria Athenas - Rua São João, nº 473 - Centro. Fone: (98) 3222 9682

Livraria Leia Mundo -Shopping Jacarati, lojas 33/34. Fone: (98) 3266 0242

Livraria Nobel - Shopping Monumental - Renascença. Fone: (98) 3213 6210

Livraria Poeme-se - Rua João Gualberto (Reviver), nº 52 - Praia Grande. Fone: (98) 3232 4068

Livraria Prazer de Ler - Av. dos portugueses UFMA prédio CCH (Centro de Ciências Humanas)próximo á lanchonete. Fone: (98) 3228 1090

Livraria Tambores - Shopping do automóvel -Calhau. Fone: (98) 3248 2760

Livraria Themis - Shopping Monumental - renascença. Fone: (98) 3268 9123

Livraria Vozes - Rua do Sol, nº 496 - Centro. Fone: (98) 3231 5699

Chico Discos (Rua da Cruz, entre Sol e Afogados, Centro, São Luís/MA)

Papiros do Egito – Rua da Cruz, 150, Centro. Fone: (98) 3231-0910.

Sebo Gibiteca Ruy Barbosa - Rua dos prazeres, 521-(98) 3232-2860

Sebo Nas Canelas – Rua das flores, 85- (98) 3221-2978

Outrora Atenas Brasileira, onde os literatos maranhenses contratavam pessoas para vender (aos berros de pregoeiros) seus livros nas esquinas das principais ruas da Ilha, onde o ludovicense podia comprar meia dúzia de obras para presentear familiares e amigos, quanto os livros tinham propagandas de uma página inteira nos periódicos, os maranhenses sabiam "vender o miolo dascabeça para comprar o miolo do pão" como já dizia Aluízio Azevedo. Hoje, entretanto, São Luís não possui mais esses tipos de marketings.

As pequenas tipografias sumiram, mas surgiram pequenas editoras; os vendedores de livros das esquinas também desapareceram, e surgiram as livrarias; os literatos não saem mais nas ruas para divulgar seus livros, vão às feiras especializadas, sentam e autografam suas obras. Assim, as tradições literárias da capital maranhense vêm se transformando pouco a pouco, tanto vazão a outras formas de divulgação, dentre essas; a internet.

A intenção do MARANHARTE era começar o ano de 2011 fazendo um mapa dos principais blogs e site maranhenses que vendem obras de escritores da nossa terra. E qual não foi a nossa surpresa, e tristeza, por constatar que quase não possuímos “divulgadores na blogsfera”. Pensávamos que, em São Luís, assim como nas cidades mais conectadas do mundo, você também não precisaria sair de casa para comprar aquele livro que tanto almeja. É fato que, não há prazer melhor do que entrar em uma “loja de livros” e passar um bom tempo passeando por títulos, porém, temos que atentar que, algumas obras são lançadas apenas no Estado e precisam ser divulgadas e lidas para serem reconhecidas. Infelizmente encontramos apenas dois sites. Vejamos.

Livraria Poeme-se.

Lá você pode encontrar centenas de obras maranhenses, entre elas “ATENAS BRASILEIRA, A CULTURA MARANHENSE NA CIVILIZAÇÃO NACIONAL”, do Rossini Correa, obra essencial para quem ser conhecer a formação das correntes literárias no Maranhão. A obra surgiu de uma tese do autor sobre o poeta Bandeira Tribuzi (“O homem e a cidade”) e se transformou na única obra (até agora!) crítico-literária realmente possuidora de argumentos imparciais sobre a nossa literatura.

http://www.livrariapoeme-se.com.br/

Editora Café & Lápis

Há poucos dias a editora Café & Lápis lançou seu site, mesmo já possuindo um blog onde sempre postavam seus convites de lançamentos e os registros das “Interessantíssimas” palestras realizados pelos autores que escolheram essa editora para lançarem seus livros. Entre esses lançamentos estar o “TÁBUA DE PAPEL”, obra de estudos sobre a literatura maranhense e a reedição de “CANTERIOS DE SAUDADE”, de Coelho Neto, obras que precisam ser “conhecidas” e “reconhecidas”. O site serve também para os nossos ( e já renomados) escritores e pesquisadores maranhenses entrem em contato com os editores Claunísio Amorim Carvalho e Germana Costa Q. Carvalho para a publicação de suas obras.

http://www.cafeelapis.com/site/



O MARANHARTE também gostaria de expressar a sua tristeza com a partida da jornalista Josilda Bogéa Anchieta. Diretora administrativa e financeira do Jornal Pequeno, que foi criado pelo próprio pai - o também jornalista José Ribamar Bogéa, Josilda também era responsável, juntamente com Albérico Carneiro, pelo Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante, sempre atendendo a todos os escritores maranhenses (do mais consagrado aos que estavam começando na arte das letras) com muito carinho e atenção. Certamente, uma das maiores contribuição para a divulgação e resgate da cultura e da literatura maranhense. Reproduzimos abaixo o texto JM Cunha Santos dedicado a essa dedicada funcionária das letras maranhenses.

Não leiam o Jornal Pequeno hoje

Não comprem o Jornal Pequeno hoje. Ele traz uma notícia que não é verdade, publica um fato que não aconteceu. Josilda não é morta. Isto aborreceria as luzes, as nuvens iam querer trocar de céu e os pássaros provavelmente se tornariam subterrâneos. Como subterrâneas são todas as ilusões da vida.

Não comprem o Jornal Pequeno hoje. Não leiam que falta uma página, falta um riso largo e uma fulminante vontade de viver. Não devemos ler sobre tristezas, não estamos prontos para tantas agonias. Leiam outros números, de outros dias quando era lançado o Anuário Guesa Errante, por exemplo, quando os poetas eram pagos para sofrer em páginas coloridas até a nova manhã de suas almas.

Não comprem o Jornal Pequeno hoje. Não leiam. Falta uma letra que caiu do alfabeto, falta uma coluna, um artigo eterno, uma manchete principal que esconderam para nos fazer chorar. Leiam aquele outro número, aquele do aniversário de Josilda Bogéa, aquele de sua formatura ou algum outro que diga do dia de seu casamento e do nascimento de seus filhos.

O Jornal Pequeno de hoje é um jornal molhado de lágrimas, está dizendo mentiras sobre velórios, sobre um corpo que parte e uma alma que fica, sobre uma moça criada entre graxas e linotipos e que se construiu para que esse mundo fosse melhor. Não leiam que é impublicável e não sabe ressuscitar.

O Jornal Pequeno de hoje chora a impotência humana, a incapacidade de vencer a morte, não é útil para a sociedade e é ilegível para os poetas. É ilegível para qualquer um que entenda o amor de Deus.

Não leiam, mas se acaso lerem, pensem em Josilda, nas horas dedicadas para divulgar os tumultos humanos, nos dias e noites gastos em superar obstáculos e vencer.

Não leiam o Jornal Pequeno hoje. Leiam amanhã e depois e depois de depois de amanhã para que não tenha sido em vão qualquer minuto dessa luta de 50 anos de Josilda Bogéa Anchieta para conservar o amor à liberdade.

Não leiam o Jornal Pequeno hoje. Ele não sabe o que dizer.

Fonte:www/jmcunhasantos.blogspot.com

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Maranharte Informa: Lançamento da Revista Pitomba


O Bar do Porto (Praia Grande) recebe a festa de lançamento da revista Pitomba nesta sexta (14), a partir das 19h. A noite contará com discotecagem de Bruno Azevêdo, leitura de poemas e a presença de vários colaboradores da publicação.

Pitomba é uma revista com 36 páginas. Sem periodicidade, privilegia a produção inédita de artistas contemporâneos das regiões Norte e Nordeste, poetas, prosadores, artistas plásticos, músicos, ilustradores, quadrinhistas e fotógrafos de fora do centro do mapa cultural brasileiro. Editada por Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha.

Pitomba, a primeira, que não é necessariamente a número um, tem capa assinada pelo piauense Antônio Amaral (veja reprodução abaixo), traduções e colagens de Reuben da Cunha Rocha, prosa de Bruno Azevêdo, Carolina Mello, Carlos Augusto Lima e Guaracy Britto Jr., poesia de Celso Borges e Eduardo Jorge, samba de Cesar Teixeira, fotos de Márcio Vasconcelos e André Lucap, ilustração de Fernando Mendonça e quadrinhos de Ricardo Sanchez. O projeto gráfico é de Bruno Azevêdo, com colaboração de Celso e Reuben. Sai com o apoio das livrarias Poeme-se, Vozes e do jornal Extra.

O quê: Lançamento da revista Pitomba

Quando: Sexta, 14/jan, 19h

Onde: Bar do Porto (Praça dos Catraieiros, Praia Grande) - Entrada gratuita - Revista: R$ 5,00

Texto: Zema Ribeiro

Fonte: http://zemaribeiro.blogspot.com

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

MARANHARTE RECOMENDA





Depois de quase dez anos, o poeta Ferreira Gullar lança "Alguma parte alguma".

Opinião de Pedra

BERNARDO DE ALMEIDA:UMA ESCRITA DO COTIDIANO

Longo foi o processo de Bernardo Coelho de Almeida no tempo em que viveu os seus 69 anos de vida , na cidade que o encantou com os seus sobradões de fachadas em azulejos portugueses. Um verdadeiro templo à cultura brasileira com direito a igreja de estilo bizantino, santos e heróis de resistência. Percorreu suas ruas, becos e bares empolgado como ator a viver o cotidiano de muita comoção. Sua voz de cronista incorporando na vida literária e jornalística maranhense. Foi uma viagem maravilhosa a começar pela presença efetiva como autor de crônicas nos principais jornais, sobretudo, no rádio e no livro.

Bernardo tinha razão quando afirmava: “conhecer a fundo os problemas do povo é uma forma de mergulhar nos sentimentos da alma humana”. Isso resulta uma experiência inestimável, convertida para o exercício da vida, como forma de quem conservava para si o desejo firme na confiança, na fé verdadeira de superar tempestades.

Bernardo considerou seus companheiros de geração enquadrados como moços de talento em potencial, que representavam bastante sua época desenvolvida na boemia. Uma geração de bons escritores, críticos, poetas, jornalistas e políticos. Uma geração estigmatizada pela ascensão ao posto titular de uma seleção de valores, cujo conjunto daria reflexos sociais, através da importância de suas obras. Mas o caminho foi áspero. Era preciso impor a nova realidade, demonstrar, através da obra criativa, o real significado do que os companheiros objetivavam.

II
Bernardo Almeida: entre o Rádio & a Televisão

Bernardo Coelho de Almeida começa sua carreira na radiofonia, em 1950, época em que instalaram um autofalante, em sua terra natal, na pequena cidade de São Bernardo, fazendo propaganda das oposições coligadas, lideradas por Getúlio Vargas, para presidente da República e Saturnino Bello, para governador do Maranhão. Diante das ameaças de perseguições do Vitorinismo, que tinha nas delegacias de polícia um instrumento temível de coação, deram à amplificadora o nome de Voz da Liberdade. E, daí, começa seu destino no jornalismo maranhense, logo cedia ao apelo da vocação mais forte, que apontava para o rádio. Viaja para São Luís, em 1951, para trabalhar como diarista no extinto IAPC, presidido por Henrique de La Roque de Almeida. Foi quando, por acaso, participou de um concurso para locutores, na Rádio Timbira do Maranhão, a emissora oficial do Estado.

Num domingo, vestido no seu terno de linho branco, submeteu-se ao teste, levando em sua companhia seus companheiros mais íntimos, o poeta José Chagas e o Dr. José Ferreira de Sousa para o encorajarem. Apesar do apoio moral, para sua decepção, ficara em terceiro lugar, recebendo apenas menção honrosa, como prêmio de consolação. Mas, para sua surpresa, quando ouviu de Moacyr Neves exclamar do alto dos degraus do prédio: “Ei, rapaz, você aí, do terno branco, volte! Dizia que ele era um locutor, que tinha de ficar na Rádio Timbira, nem que fosse por sua conta, para apresentar o seu programa semanal. Esse foi seu primeiro contato com os homens do rádio. E esse episódio desencadeou um vigoroso processo de programas de que Bernardo sempre participou. Não como enfatuado ou presente líder. Tal condição jamais aceitaria para si, mas com a responsabilidade de seu tempo, comprometido com as angústias e problemas de sua terra e de sua gente, sentia-se o porta voz do povo maranhense, por isso mesmo destinava comunicar-se através de suas crônicas validadas, como fazia no programa na Rádio Difusora (“Difusora Opina”), editorial que exerceu extraordinária influência na opinião maranhense.

A convite de Raimundo Bacelar e o Grupo Morais Correia, viajou para Teresina com a missão de organizar a programação da Rádio Clube de Teresina. Nessa época, inicia seus laços de amizade com o piauiense e artista plástico Genes Soares, mantida até os últimos dias de vida do artista. Esse convívio se projetou mais, quando Genes veio a São Luís, atendendo a um chamado de Raimundo Bacelar, para decorar o escritório e estúdios da Rádio Difusora, ocasião da sua transferência para os últimos andares do moderno Edifício João Gulart.

Os seus trabalhos de Radialista, com espírito modesto, chegou ao posto de primeiro diretor administrativo e diretor artístico da Rádio Difusora. Discretamente dizia sempre: “na Rádio Difusora, eu encontrei o caminho de minha realização pessoal”. Havia idealismo no seu trabalho de radialista, amor ao prefixo nº.680, como a Crônica da Cidade, levado ao ar às 9 horas da noite, que tinha regular até o tempo dos casais namorados e lhe dava invejável prestigio.

O amor à profissão de radialista o compeliu a acumular funções de escrever, produzir programas de textos comerciais nos bastidores, projetar e tornar a rádio a número um, nas pesquisas do Ibope. Na direção de órgão da imprensa cumpria as responsabilidades sem maiores problemas que poderiam deixá-lo com um excessivo desgaste pessoal, porque o rádio sempre lhe foi fascinante, a grande paixão de sua vida.

Nesse período, o rádio maranhense vive um grande momento, tecendo críticas à situação criada pelas correntes ideológicas inconvenientes que polarizavam o governo do Sr. João Gourlat. Esse fato atesta que os programas estavam mesclando as críticas de teor político, econômico e social, de modo que Bernardo de Almeida, com visão lúdica de intelectual, também escrevia suas crônicas e por ele lidas nos jornais falados das Rádio Timbira e Ribamar. À proporção que mostrava a disposições existentes na administração pública, crescia os cerceamentos em relação a sua pessoa, melhor dizendo, em pouco tempo uma das melhores expressões da televisão da Ilha. Por ocasião da inauguração da TV Difusora, em 23 de novembro de 1963, é colocado em lugar de honra, senta no estúdio da emissora para entrevistar o então presidente da república Juscelino Kubistchek.

Registra-se que o jornalista conversava com o ilustre entrevistado em gestos espontâneos e amáveis, foi a primeira imagem em vídeo a aparecer e o primeiro entrevistador da televisão maranhense.

Foi na Rádio Difusora que, durante anos, Bernardo Almeida leu, ao meio dia a crônica Difusora Opina.

III
Uma impressão digital no jornalismo

O jornalismo impresso de Bernardo de Almeida tem uma importância extraordinária no panorama da política maranhense e nacional. Mas, este relato não pretende ser uma análise jornalística de sua produção de cronista político. São apenas fragmentos de sua obra jornalística.

Começou escrevendo no Jornal do Povo, fundou a revista Legenda, secretariou o Diário da Manhã e colaborou com o Jornal Pequeno.

A linha dos três jornais harmonizavam com sua tendência jornalística. Os jornais tinham notoriedade dentro das celebridades políticas da época.

Nas suas crônicas políticas tinha uma linha equilibrada. Desenvolvia uma crítica discreta, porém sistemática contra o mau político, enfocando sempre os anseios coletivos. Com a morte inesperada do jornalista e Diretor-Chefe do jornal O Estado do Maranhão, Bandeira Tribuzi, encerrava-se uma carreira em plena ascensão que prestava inestimáveis serviços ao Estado do Maranhão. E a convite de José Sarney, Bernardo Almeida aceitou substituir Tribuzi no cargo de Diretor-Chefe. Cercado de estima e carinho, o poeta de A gênese do Azul, assume o cargo no dia 18 de setembro de 1977 e também começa a assinar sua coluna O Jornal de Cada Dia, na terceira página. Publica seu primeiro artigo: “Um Juízo Final na Política Maranhense”, ao lado do seu colega de redação e companheiro idealizador do primeiro número da revista Legenda, o colunista Benedito Neiva. Bernardo de Almeida cria um ponto de vista acatado diariamente nesta coluna, porque escrevia como profissional e intelectual, que analisava os problemas políticos seguidos das contradições políticas de seu tempo.

IV
O Escritor

No ano de 1954, a literatura maranhense viveu seus dias de glória com a vitória do escritor Josué Montello, derrotando seus competidores na Academia Brasileira de Letras. O romancista foi eleito na vaga de Claúdio de Souza. O poeta Ferreira Gullar publica A luta corporal , obra divisora de águas no cenário das letras brasileiras. E Bernardo Almeida lança seu primeiro livro de poesia: Luz! Mais Luz! e o segundo A gênese do Azul, compostos e impressos na gráfica Moreira, especialmente para Edições Mantiqueira de Belo Horizonte. Este último readitado em 1979 , na gráfica do Sioge.

Em outro momento, ele conquista definitivamente a prosa com a publicação de dois romances, o primeiro A Última Promessa, em 1968; o segundo, O Bequimão, em 1973. Fases marcadas por grandes acontecimentos. O mundo vivia suas consequências, com as conquistas espaciais e industrialização. O Brasil fascinava-se com o espírito desenvolvimentista de Juscelino Kubistchek e, acima de tudo, mudou-se o rumo da política brasileira, com a Revolução de 1964 e sufragando Castelo Branco à presidência da república.

Só num lance de extrema ousadia permitiria ao poeta no momento de intensa crise política, uma predicação especial para a literatura . Mas, como resultado, o seu primeiro romance A Última Promessa preenche um espaço vazio na prosa praticamente inexplorável cá entre nós. Nesse livro, o escritor está dialogando didaticamente com as pessoas comuns de sua época. Tratando o personagem central como ovelha necessitada de uma luz que conduz à sua última promessa, reservada a ele essa possibilidade de escolher entre dois, e apenas dois caminhos, o do paraíso do amor ou do inferno do alcoolismo.

Já o romance O Bequimão , 1973, se centra num cenário colonial onde o espírito revolucionário contraposto ao espírito de ambição do colonizador português, deixou para sempre as marcas fundamentais de uma luta de espírito rebelde para conquistar sua independência. A despeito dessa revolução, o romancista se debruçou em pesquisa histórica. O romance tem como principal personagem Manuel Beckaman, o Bequimão, líder principal da revolta de 1684 a 1685. Este romance é considerado pela crítica sua obra maior. Assim, Bernardo de Almeida compreendeu bem a força dessa coerência ética e histórica e sonhou moldar com ela o cerne de uma historia social do povo maranhense.

V
O Memorialista

Bernardo Coelho de Almeida foi um cronista do cotidiano, emergente na sua diuturna atividade intelectual, a exemplo das crônicas reunidas em Galeria , como a rosa de Malherbe, porque versavam assuntos do cotidiano. No seu último livro, publicado em vida Éramos Felizes e Não Sabíamos, Bernardo nos faz uma leitura das pessoas de seu tempo a partir do foco de seus olhos. Dessa maneira, é muito difícil escrever sobre o memorista de Éramos felizes e não sabíamos. Pode-se dizer tratar de crônicas de caráter eminentemente autobiográfico, de imensa carga poética lírica. Nesse sentido, estamos diante de um poeta em prosa, que soube amar a vida. Decorre daí, certamente, a versão do rumo dado por ele às suas memórias, por exemplo, nas suas crônicas, cheias de dados e confissões, reminiscências pessoais, e nelas tem a intenção de traçar o perfil dos seus amigos escritores, jornalistas, poetas, políticos, mas também de personalidades comuns com quem vivia, estabelecendo a verdade a respeito de certos fatos ocorridos à sua vida, orientando nova mentalidade gerada, em parte sob o signo de um velho arsenal de instrumentos, de meios, de acertos, como falava Ortega y Gasset no seu tríptico: O homem que conserva a fé no passado não se assusta com o futuro.

Desse tempo, o memorialista Bernardo de Almeida experimentou os caminhos narrativos que marcam a memória da sua considerada grande fase de cronista.

*Eudes de Sousa, Historiador e Crítico Literário