segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Caminho das Pedras: Papoético

A primeira e, por enquanto, única vez que eu fui ao Papoético, este ainda nem se intitulava assim, era apenas um “encontro de artistas n´O Chico Discos, tipo “papo-cabeça sem compromisso”, ou coisa que o valha.

Fiquei ali na porta, quase atrás da primeira mesa, no meio de uma conversa confusa e longe de quem chamava atenção de todos. Sentir-me constrangido da maneira como alguns falavam sobre assunto que até então, e com amigos próximos, eu quase criava um ritual para discuti-los. A poesia transgressora, o teatro do absurdo, a música maranhense, tudo exposto como num coquetel de delicias, como se cada um daqueles artistas e admiradores de arte já haviam discorrido seriamente por demais tais assuntos, e agora gostariam de saboreá-los com em um banquete dionisíaco.

Da próxima vez, pretendo levar apenas a minha taça de vinho, e um pouco de humilde para me sentir um eterno aprendiz no mundo dos homos demens.

Semana passada o poeta e jornalista Paulo Melo Sousa, o Paulão, concedeu uma entrevista para o jornal Vias de Fato, que reproduziremos abaixo.

A entrevista também foi reproduzida no blog do nosso amigo (e entrevistador) Zema Ribeiro (zemaribeiro.blogspot.com), do qual “surrupiamos” a foto do poeta.

Vias de Fato – Como surgiu a ideia do Papoético?

Paulo Melo Sousa – Ultimamente, os artistas de São Luís estão bastante dispersos, cada um cuidando da sua vida, de seus projetos pessoais, acabaram-se os antigos redutos da boemia, locais onde era possível ainda encontrar pessoas interessadas em cultura e se conversar um pouco sobre arte. Nos anos oitenta, quando integrei o Grupo Poeme-se [1985-1994], tive a ideia de realizar saraus literários que viraram recitais de poesia e que evoluíram para performances poéticas. Na época, o Poeme-se chegou a montar um espetáculo com 40 minutos de duração, em 1993. Foi uma performance a partir de colagens que fiz do trecho de um dos cantos do livro O Guesa, de Sousândrade, chamado O Inferno de Wall Street. Então, aqueles saraus renderam muito, e proporcionaram grandes encontros que se tornaram fortes amizades, como é o caso dos poetas Eduardo Júlio, Dyl Pires, Ricardo Leão e tantos outros. Dessa forma, resolvi reativar esse movimento agora no final de 2010, em novembro, e cada vez mais os artistas estão aderindo e os encontros estão cada vez mais animados, o que mostra que muita gente estava também a fim de se encontrar e discutir arte e cultura.

O Papoético começou despretensiosamente e vem, a cada quinta-feira, reunindo um público maior, tornando pequeno o Chico Discos, sebo que o abriga. A que você credita o sucesso das sessões de debate-papo?

Como falei acima, acho que o pessoal estava sentindo essa necessidade de se encontrar. Os temas são estimulantes, provocantes até, em certos momentos polêmicos, o que tem excitado os participantes. O Chiquinho tem um ambiente agradável, um som de primeira qualidade, criterioso. Ali se escuta de Thelonious Monk a Paco de Lucia, de Astor Piazzolla a Joaquín Rodrigo, de Adoniran Barbosa a Marisa Monte, Arnaldo Antunes, coisa de primeira. E tem o estimulante, uma cachaça mineira, uma cerveja gelada, e até absinto para os mais afoitos...O ambiente é agradável, a maioria são pessoas amigas, contudo, novas amizades estão surgindo nesse ambiente, como aconteceu na época do Poeme-se. De qualquer forma, nunca sou despretensioso...

Apesar do nome, a proposta do Papoético é discutir diversos assuntos relacionados à cultura, artes e outras áreas do conhecimento: literatura, música, cinema, teatro, artes plásticas. Este objetivo vem sendo atingido?

Sim, ao final de cada encontro peço sugestões de novos temas de forma democrática, e sempre surgem propostas estimulantes. Também estamos atentos ao que vem ocorrendo na cidade em termos de produção cultural, quando acontece um lançamento de livro chamamos o escritor para falar sobre seu trabalho. Recentemente, Celso Borges, Bruno Azevedo e outros lançaram a revista Pitomba e, logo em seguida, eles foram convidados para falarem sobre o projeto. No momento, está acontecendo um movimento de vários artistas na Fonte do Ribeirão chamado Fonte Viva. Estão sendo realizadas ações de denúncia sobre o abandono desse monumento pelas autoridades e nós iremos debater essa questão do patrimônio histórico como um todo em breve. São Luís completará 400 anos daqui a pouco mais de um ano e não se ouve nada das autoridades até agora sobre o assunto...

Apesar de sempre destacar o nome de uma ou duas figuras para conversar sobre determinado assunto, o Papoético é bem democrático, com todos falando e ouvindo, a experiência acaba se tornando um aprendizado coletivo. Como se dá a escolha dos, digamos assim, palestrantes?

Tudo é feito de forma democrática, e não nos preocupamos também com o tema, pois sabemos que sempre haverá assunto interessante para ser debatido ali. São Luís cresceu muito em termos de produção cultural em relação a 20 anos atrás. O que sempre faltou, e agora não é diferente, é discutir com proficiência essa produção, discutir a cidade. O Papoético facilita essa possibilidade...

Onde o Papoético vai descambar? Ou, melhor perguntando, há pretensões tuas para o Papoético, no sentido de o encontro gerar algo como uma revista, um festival ou coisa parecida?

Como se costuma dizer na gíria, vamos deixar rolar...a criança ainda está verdinha, cheirando a leite. Já se sugeriu ali, acho que foi o Luís Mello, que se fizesse um blog. É uma ideia, vamos ver quem vai assumir a paternidade da proposta...

Como você analisa o cenário da literatura maranhense hoje?

Tanto em termos de nomes, individualmente, como de acontecimentos, a exemplo das Feiras do Livro, do surgimento da revista Pitomba, e mesmo do Papoético. A Feira do Livro de São Luís, para mim, foi um fracasso nas suas duas últimas edições, algo sem tesão, como se fosse uma obrigação. Não vi um escritor que não tenha reclamado da organização, algo mixuruca em relação aos eventos da administração anterior. Não que eu esteja aqui defendendo a gestão do ex-prefeito, que foi precária em vários aspectos. No entanto, reconheço que o trabalho da Lúcia Nascimento foi primoroso. Trazer nomes como Ariano Suassuna, Arnaldo Antunes, Afonso Romano de Sant’anna, dentre tantos outros é o que conta, o que interessa. Trouxeram agora o pré-fabricado Fabrício Carpinejar, que falou o tempo todo da namorada, num discurso evangélico no estilo do fanfarrão Silas Malafaia, foi o cúmulo, uma grande bobagem. Tive que sair às pressas para não vomitar... Sou alérgico ao supérfluo... Não vou falar do Papoético, deixo isso para quem quiser comentar. Vejo novos nomes na literatura maranhense despontando já como escritores de peso, o que considero muito importante, muitos poetas novos, muitos prosadores com uma linguagem vigorosa, outros abrindo espaço. Na literatura infantil, estamos bem servidos, é a minha opinião. Tem gente aqui que estaria bem situado no cenário nacional se estivesse morando e produzindo no eixo Rio-São Paulo.

E o cenário do jornalismo?

O jornalismo impresso é amordaçado pela autocensura nos jornais tradicionais. Poucos escapam, já que a sobrevivência fala mais forte e quem manda são os donos das empresas jornalísticas. Alguns alternativos sobrevivem a duras penas, e ainda são uma opção possível para se exercer um jornalismo que mereça esse nome. Hoje, penso que os blogs são a grande saída para se fazer algo de forma independente e realmente significativa em termos de jornalismo sério e independente.

ATENÇÂO: O Zema informa que o primeiro Papoético de março, dia 3, debaterá sobre Poesia. Poetas habituès do encontro semanal, como Celso Borges, Eduardo Júlio, Bioque Mesito, Rosemary Rego, Lenita Estrela de Sá, Josoaldo Rego, Lúcia Santos e outros, conversarão sobre o assunto com o público presente. Lembrando: o Papoético acontece às quintas-feiras, às 19h, no Chico Discos (Rua Sete de Setembro, Centro, quase esquina com Afogados). De graça (os presentes pagam apenas o que consomem).

Fonte: Jornal Vias de Fato, fevereiro/2011

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Maranharte Prestigia : Lançamento do VII Festival Geia de Literatura


A sétima edição do evento cultural, que acontecerá de 24 a 26 de agosto, foi apresentada ontem pelo presidente do Instituto Geia, Jorge Murad; participaram o prefeito de Ribamar, Gil Cutrim, e o secretário-chefe da Casa Civil, Luis Fernando Silva.

O VII Festival Geia de Literatura foi lançado ontem no Liceu Ribamarense I, na cidade de São José de Ribamar. A expectativa para o evento, que será realizado de 24 a 26 de agosto, é de que cerca de 3 mil pessoas participem das programações diárias. A solenidade de lançamento contou com a presença do presidente do Instituto Geia, Jorge Murad; do prefeito de São José de Ribamar, Gil Cutrim; do secretário-chefe da Casa Civil, Luis Fernando Silva, que no ato representou a governadora Roseana Sarney, e de representantes de instituições parceiras do projeto. Segundo os organizadores, a novidade deste ano é a realização do I Prêmio Geia de Monografia, destinado aos universitários de instituições públicas e privadas do Maranhão. O prêmio selecionará as teses que serão apresentadas durante o festival, e uma será a vencedora. O ganhador deverá ser escolhido por uma comissão julgadora composta por três membros designados pelo Geia. A divulgação do resultado e a entrega do prêmio acontecerão dia 26 de agosto, na Praça da Matriz, na cidade balneária.

Educação – Para o presidente do Instituto Geia, Jorge Murad, o festival, que já faz parte da agenda do município, dá uma contribuição grandiosa à educação de São José de Ribamar. “O festival incentiva a leitura e a relação do estudante com o livro, que, inclusive, é algo mais difícil, pois a garotada tem acesso a muita coisa que o afasta do livro, como a internet, o celular e os games. O esforço que o instituto faz com seus patrocinadores é importante. O festival é uma coisa muito boa, pois toda a rede de ensino participa. É uma atividade extra-curricular que já faz parte do calendário das escolas locais”, disse.

O prefeito Gil Cutrim afirmou que empreenderá todos os esforços para que o festival seja melhor que os anteriores. “Estamos abraçando essa causa e permanecendo com o apoio a esse grande evento do município”, assegurou. “A cada ano que passa aumenta o carinho e o calor humano que envolve esse evento. O Instituto Geia nos brindou, escolhendo nosso município em 2005 para dar início às atividades, e agora se consolida como um grande passo da educação”, completou o secretário-chefe da Casa Civil, Luis Fernando Silva.

O diretor do Consórcio de Alumínio do Maranhão, Nilson Ferraz, falou sobre o apoio da empresa ao projeto desenvolvido na cidade balneária. “Trata-se de um projeto que a gente vê com muito bons olhos e que tem sido uma grande parceria. A Alumar sente-se honrada de poder participar de forma direta deste projeto”, afirmou Ferraz.

Olimpíada – De acordo com a organização do evento, este ano será dado continuidade à Olimpíada de Matemática, iniciada em 2010. A disputa será realizada em três níveis, levando em consideração a escolaridade do estudante. O discente vai se submeter a uma prova de 20 a 30 questões de múltipla escolha e de 8 a 12 questões discursivas. No ano passado foram 1.100 inscrições. Este ano, a estimativa é uma participação ainda maior de estudantes.

Na edição deste ano, também acontecerá o Concurso Professor Pesquisador. Foi escolhida como homenageada a professora Maria Elisa Almeida Silva, nome dado a uma escola pública do município. A concorrência acontecerá entre docentes que apresentarem projetos de relevância pedagógica, desenvolvidos ou em implementação nas escolas. O ganhador será conhecido no dia 26 de agosto, na Praça da Matriz. Participam como parceiros do projeto a Faculdade Atenas Maranhense (Fama) e a Faculdade Pitágoras. Os patrocinadores são Vale, Mardisa, Hyundai, Supermercados Mateus e Consórcio de Alumínio do Maranhão (Alumar). A Prefeitura de São José de Ribamar e o Sistema Mirante apoiam o evento.

Durante o festival haverá também a realização da Gincana do Conhecimento, que integra o Desafio de Literatura. Os estudantes responderão a perguntas sobre os livros “O Bequimão – Esquisso de um Romance”, de Clodoaldo Freitas, e “Canteiro de Saudades”, de Coelho Neto. Os livros já estão sendo trabalhados nas escolas.

Fonte: Publicado em O Estado do Maranhão, edição de 22.02.2011

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Maranharte Informa: Um sopro na ferida

Prédio nº218, na Rua do Egito, sede provisória da Biblioteca Benedito Leite.

A Secretaria Estadual de Cultura (Secma) inaugurou a sede provisória da Biblioteca Benedito Leite, também localizada no Centro de São Luís. Cerca de 40 mil títulos foram transferidos para o novo endereço, na Rua do Egito, nº 218, próximo ao Cine Roxy. As 80 mil obras restantes ficaram guardadas no anexo do prédio em reforma, na Praça Deodoro, que permanece fora de funcionamento. A conclusão das obras da biblioteca está prevista para o próximo mês de outubro.

A reforma da biblioteca demorou 14 meses para começar, desde sua interdição pela Defesa Civil, em agosto de 2009. Segundo a diretora da Benedito Leite, Rosa Maria Ferreira Lima, os motivos do atraso foram à criação de projeto arquitetônico para guiar a reforma, e a licitação de empreiteira. As obras começaram há três meses e estão programadas para terminar em um ano. A reforma está orçada em R$ 4.309.599,42 reais.

Também estão disponíveis 10 mil obras de escritores nacionais, incluindo os maranhenses. A pesquisa pode ser feita tanto em exemplares impressos quanto digitalizados. Nesta modalidade, são 1.500 obras. Usuários podem ler alguns destes arquivos via internet do computador de casa, no site da Secma. Há ainda duas mil obras infantis e três mil obras em braile. A sede provisória abrange ainda o escritório para registro de direitos autorais, administração do órgão, e os serviços de municipalização de bibliotecas no interior do estado, e execução de projetos de incentivo a leitura.

Sem espaço

Literatura de referência, como mapas e enciclopédias, ficaram guardadas no anexo do prédio em reforma, na praça Deodoro. Segundo Rosa Maria, os 120 mil títulos não puderam ser transferidos para a sede provisória. “Tivemos bastante dificuldade de encontrar uma casa que abarcasse o maior número de obras”, disse a diretora da Benedito Leite. Foram 50 imóveis percorridos na região do Centro, até encontrar o casarão 218 da rua do Egito. A limitação de espaço levou a optar pela transferência dos títulos mais pesquisados.

O imóvel passou ainda por adequações na rede elétrica, climatização dos espaços e instalação de rede de informática. Segundo Maria Rosa, a mudança foi realizada em três meses, devido ao cuidado necessário para transportar as obras mais antigas. A sede provisória da Biblioteca Benedito Leite é aberta ao público de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h.

Texto: Carolina Mello do Jornal O Imparcial (foto também extraído da matéria)

Fonte: www.oimparcialonline.com.br

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Opinião de Pedra: Mhario Lincoln

POR QUEM CHORAM OS TAPUMES APODRECIDOS DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO MARANHÃO...

O professor Solano, Domingos Perdigão, o ex-diretor da Biblioteca, choram, o professor Luiz Rego, o professor Sá Valle, a professora Rosa Castro, a professora Zuleide Bogea, a professora Mary Santos estão chorando copiosamente.

Arthur Azevedo, Benedito Leite, Antenor Bogea, Antonio Vieira, Carlos Cunha também estão chorando.

Ana, Paula, Marcia, Bernadeth, João, Casimiro, Sebastião, Ribamar e Maria também choram.

Eu estou chorando lágrimas de decepção e desespero.

O que fazem com a abandonada e fétida Biblioteca Pública de São Luís, localizada na Praça Deodoro, é simplesmente um dos mais tristes episódios daquela que já foi reconhecidamente a Athenas Brasileira.

Ninguém bateu tão forte com tanta estupideza humana no símbolo grandioso da sabedoria maranhense.

Ninguém urinou vergonhosamente nos nossos livros históricos, nem trucidou com tanta violência nossa história. Até Constatinopla choraria ao ver a destruição vagarosa, silenciosa e doentia da mais completa das Bibliotecas Públicas do Maranhão.

As colunas de caráter estão caindo no chão de mármore que alicerçaram a subida épica e sublime de um Bernardo Coelho de Almeida. As cores pálidas mostram uma tuberculose insistente no rumo da dilaceração do pulmão cultural do Maranhão.

Sim, choram os bustos desaparecidos, cuja fileira, à frente da majestosa obra, traduzia um front intelectual disposto a morrer pela cultura.

Onde estão? Levaram o front e abandonaram o Palácio de Clodomir Cardoso, Dilu Melo, Graça Aranha, Cândido Ribeiro, Nina Rodrigues, Sousândrade...

Onde está a Academia Maranhense de Letras e seus novos intelectuais, defensores inertes das letras e artes?

Onde estão os intelectuais da Assembléia e da Câmara de São Luís? Onde estão aqueles que juraram defender os bens patrimoniais da cidade?

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso", diante de tão brutal assassinato a sangue frio do maior relicário público da história do Estado.

Um assassinato impuro, digno de corruptores e ditadores que preferem matar o conhecimento para gerir sobre a ignorância.

Já bastavam os restos mortais do traidor da Inconfidência Mineira, em São Luís, enterrado com glória. Mas a mente assassina e desqualificada de artesãos da ignóbia fome da destruição, invadiram os tacos nobres da sinagoga e implodiram o que restava de mais belo no solo da Ilha.

Hoje, os ratos e as moscas festejam a imundice de cérebros cravejados de pérolas e porcos.

Por isso choram Lago Burnett, Ferreira Gullar que um dia escutaram esta dolorosa frase – “Zé vamos embora de São Luís, aqui ninguém reconhece os valores da terra” – chora Fernando Braga. Chora em acalantos Maria Firmina, Coxinho, Maria Ferreira, Wanda Cristina, Lucy Teixeira, Laura Amélia Damous.

Choram Mata Roma, Rubem Almeida. Choram os irmão, pais e avós que a cada dia vêem seus filhos e parentes se perderem num caminho sem volta, torturados pela ignorância febril do Poder instalado nas cercanias das latrinas.

Onde estão todos? Vislumbro a praça vazia. Dois bêbados dormem no saguão central do mármore apodrecido. Lá, entre urinas e dejetos fétidos, um aluno ainda vestido com sua farda colegial queima um cigarro de maconha, enquanto balança ao vento a camisa da instituição pública de ensino, pendurada no que restou do tapume de madeirite, há anos, esperando por uma solução lógica.

São Luís está infectada e ninguém viu. São Luís sofre de anemia profunda e ninguém lhe dá o sangue. São Luís morre aos poucos e ninguém se cuida disso. São Luís se dissolve na fumaça do desequilíbrio mental e ninguém se apercebe disso.

Saudades de minha infância querida. Do primeiro Mapa Mundi em alto relevo. Saudade de “Meu Pé de Laranja Lima” que esqueci de devolver e fiquei toda a aula de castigo olhando para o quadro negro, norma do velho e tradicional Liceu Maranhense.

Saudade do cheiro de papel-jornal do segundo andar. Do cheiro da diretora que recebia os alunos a porta, como São Pedro aguarda no Céu. Saudades de Aninha, impoluta, impecável, restrita aos livros de Ciências na terceira mesa redonda de quem entra.

Alguns anos depois, quando ficava até fechar a Biblioteca, nas tardes de chuva, meus objetivos se somavam ao conhecimento intelectual e derramavam-se no físico. Por isso, saudades também de Maria Batalhão – empregada doméstica da casa dos barões da Rua das Hortas – transformando o ardor dos corpos suados, por trás da abóbada do suntuoso prédio, em amor. Foram batalhões de jovens efervescentes que por lá sentiram, choraram e viveram momentos físicos inebriantes. Todos, devidamente ancorados nas laterais da velha infância.

Biblioteca Pública de meus sentimentos. Li, reli e sonhei com publicações raras como a Revista Elegante. Vi-me escrevendo em jornais como O Conciliador. Encantava-me com a Revista do Norte. Com os textos de Erasmo Dias, com a força de Nascimento de Moraes Filho, a quem pedia a benção todas as vezes que o encontrava no porão daBenedito Leite incrustado em suas pesquisas para reviver Maria Firmina.

Quantas vezes repassei, eu, corredores e escadas com a professora e espírita Maria de Jesus incansável na conservação de uma das primeiras obras espíritas no acervo da Biblioteca: a Conferência pronunciada por Viriato Corrêa na Federação Espírita Brasileira.

Biblioteca Pública, ah, como esses canalhas são maus. Nos fazem chorar todos os dias: virtuose crítica em O Combate. E com este, lágrimas de Clodomir Milet, Nereu Ramos, Domingos Vieira da Silva, Alves de Souza.

E em um dos artigos que consegui ler na Revista do Norte, de 01 de setembro de 1904, antevia a desgraça emergente de “governantes futuristas”, pertinente à conservação da história do povo do Maranhão.

Em um dos parágrafos, a consumação do fato. Isso se conota de “Crime Político, pois não se sabe onde começa e onde termina”.

Na mosca (e com moscas e ratos): de uns tempos pra cá da era moderna do século XXI não se sabe realmente onde vai acabar esse crime político com o agravante de crime de negligência.

Na solidão imersa no centro cultural da cidade de São Luís, repousa em fase terminal a Biblioteca Pública; corpo hanseniano pela inércia dos muitos e pela mudez dos poucos. Por isso, lá longe, chora igualmente Gonçalves Dias:

“Adeus, portanto, fúnebre recinto!

E tu, amigo, que tão cedo vieste

Pedir pousada na mansão dos mortos,

Adeus! - foste feliz, - que a senda é rude,

O céu é tormentoso, e o pouso incerto.”