sexta-feira, 27 de maio de 2011

Encontrando as Pedras Nº 49

MINHA TERRA TEM BURACOS

Rosalice Guterres*


Minha terra tem buracos

Onde meu pneu pode estourar

As valas que vivem cheias

...Parecem que ficam a me mirar


Nosso asfalto tem mais crateras

Nosso céu não tem mais cores

Nosso estado é de miséria

A miséria dos horrores


Ao resmungar sozinha de dia

Mais um buraco encontro eu lá

E sentada no chão quente

Fico a espera do borracheiro chegar


Minha terra tem amores

Só não sei onde foi parar

A resmungar sozinha, de dia

Lá vai mais em um buraco eu entrar


Minha terra tem descaso

Porque “CASTELO” foi mandar

Não permita Deus que eu morra

Sem ver minha terra melhorar


Sem que eu desfrute das belezas

Desta ilha do Mará

Pra que eu possa admirar as palmeiras

Sem ter uma vala a me esperar.


* Compositora (possui uma banda) e blogueira

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Caminho das Pedras: Jornal virtual "ilhavirtualpontocom"

Já está disponível o segundo volume do jornal virtual ILHAVIRTUALPONTOCOM, produzido pelo Prof. José Neres e com a colaboração do grupo de estudos intitulado O Sistema Literário Maranhense (FAMA). A edição nos presenteia com a pesquisa “O romance maranhense de autoria feminina”, realizada pelo bolsista Wendel Vinícius de Freitas Santos (Letras/UEMA), um breve perfil literário do poeta Salgado Maranhão e muito mais. O Prof. Neres informa que colaborações serão aceitas, mediante avaliação. O e-mail é ilhavirtualpontocom@gmail.com.

Para baixar o arquivo em PDF, clique AQUI

terça-feira, 24 de maio de 2011

Pedra Preciosa: Salgado Maranhão

O poeta Salgado Maranhão venceu, com o livro A cor da palavra, o prêmio de 2011 da Academia Brasileira de Letras, na categoria poesia.

É um impressionante trajeto, o de Salgado Maranhão. Com muitas vertentes. Do povoado de Cana Brava das Moças (no município de Caxias, no Maranhão), onde nasceu, em 1953, à Universidade de Brown, em Providence, Rhode Island, nos EUA, onde, em 2007, teve a sua poesia estudada. Ou, então, de Teresina, Piauí, onde chegou, aos 15 anos, analfabeto, e descobriu a literatura, ao lançamento de “A cor da palavra” (Editora Imago), volume com sua obra completa – “Até agora”, frisa ele -, nesta quarta-feira, dia 9, na sede da Finep, na Praia do Flamengo.

Será um evento multimídia, com curadoria do poeta Carlos Dimuro (também responsável pelas comemorações dos 80 anos de Ferreira Gullar, conterrâneo e amigo de Maranhão), que terá exposição iconográfica, culinária típica de sua terra e atores e cantores como Zezé Motta, Zeca Baleiro, Camila Pitanga, Cássia Kiss, Alcione, Elba Ramalho e João Donato, entre outros, interpretando algo de sua produção literária.

- Sou um autêntico filho da casa-grande e da senzala – diz Maranhão, num restaurante da Urca, onde vive, revelando um pouco mais de sua admirável história de superação e afirmação. – Meu pai, da oligarquia local, com parentes que governaram o estado, era comerciante e administrador da fazenda onde minha mãe trabalhava. Primeiro filho homem, após três filhas bem mais velhas de seu casamento oficial, ele quis me levar para casa, mas minha mãe não aceitou, dizendo que “quem doa os filhos é cadela”.

E Maranhão foi muito além. A obra agora reunida – sete títulos editados num período de 30 anos, um deles, “Mural de ventos”, vencedor do Prêmio Jabuti de 1999, e poemas já traduzidos para inglês, francês, alemão, espanhol e holandês – impressiona muita gente do meio. Como o escritor e ensaísta Silviano Santiago, que identifica nela a marca de um “poeta autêntico” em meio à diluição contemporânea.

Salgado Maranhão casa- Nesses anos em que o poeta se tornou fabricante de versos à cata de emoções, quando não à cata de mercado e de fama, é salutar a presença de Salgado Maranhão no panorama da poesia brasileira. É poeta que extrai a expressão poética da autenticidade da vida. Poesia é vida. Vida é poesia – diz Santiago.

A infância e a adolescência foram difíceis, mas o poeta tem boas lembranças dos tempos com a mãe. Além do trabalho no campo – “Entre as plantas que cultivávamos estava a maconha, usada como chá para a digestão. Só no Rio, nos anos 70, usei-a por algum tempo para fumar e viajar” -, a camponesa Raimunda Salgado dos Santos era muito ligada às tradições culturais do Nordeste:

- Em nossa casa sempre recebíamos os cantadores, os poetas de cordel. Isso me marcou para o resto da vida.

Fonte: jornal O Globo (19/05/2011)


"Salgado Maranhão é um dos mais brilhantes poetas de sua geração e possui um trabalho de linguagem muito pessoal. "Sinergia" é a palavra que define sua poesia. Uma poesia de palavra, muito embora não ignore o real, pois o traduz em fonemas e aliterações. Que não hesita em ir além da lógica do discurso (ou do enlace com o plausível) se o resultado é o impacto vocabular e o inusitado da fala." FERREIRA GULLAR


DELÍRICA III

Há um rasgo de arco-íris

entre meu cais

e a tua íris,

uma voragem de lâminas

e cetins.

Tramas tua química de azuis

em dorso esplêndido

rosnas a febre líquida

a inundar teus lábios ocultos.

O instinto fez-se mar revolto

e as convulsões de sangue e cio

acordam cavalos em teu haras.

Urge que o fogo avance os limites

urge que o tempo em temporal

desate a trama das águas.



DESAMANHECER

Para Andréia Paola

Agora,

na cidade da tua ausência

outro dia

desamanhece. E súplice

um grito escorre na paisagem.

Todos os lugares

são feitos do teu antes.

Da janela,

a noite chega

com as mãos vazias. E

tudo ao fim se esvai

em volta

como um tecido de ventos.

Só meu coração insiste

em erigir teu nome...

para além do esquecimento.



X. NADIRES

A sanha que aquece a raiz dos úmeros

enseja ao coração um disparate,

ao desvelar o que é de flor em fero,

ao se tornar fiel ao que lhe mate.

São forças que nos raptam a um sem número

de vezes e vieses e desates,

felizes perdedores desse embate;

nem no sonho que enlaça nossa íris

nessa teia de nadas e nadires

em que tudo se rende ao mesmo jogo.

Vem da palavra a sagração dos ritos:

esta relíquia de silêncio e gritos.



LAMBIDAS

as orquídeas que você

guardou em mim

viraram pasto de colibris,

viraram línguas enamoradas,

hospedaria de estrelas,

as lambidas que você deixou em mim,

marcaram mais que as dentadas,

beijinhos após o lanche

trepadas com chantilly.

o que há de grandioso

em tudo isso

é o que não se desgasta

com o tempo,

nem com a erosão da dor,

nem mesmo com o pulso aberto

em goles de tinta viva.

o que há de valioso

nisso tudo,

só se inflam e ferve

com a vida exposta

em plataformas de beleza e fogo,

com a boca triunfando em gargalhadas.



SENTENÇA

faz muito tempo que eu venho

nos currais deste comício,

dando mingau de farinha

pra mesma dor que me alinha

ao lamaçal do hospício.

e quem me cansa as canelas

é que me rouba a cadeira,

eu sou quem pula a traseira

e ainda paga a passagem,

eu sou um número ímpar

só pra sobrar na contagem.

por outro lado, em meu corpo,

há uma parte que insiste,

feito um caju que apodrece

mas a castanha resiste,

eu tenho os olhos na espreita

e os bolsos cheios de pedras,

eu sou quem não se conforma

com a sentença ou desfeita,

eu sou quem bagunça a norma,

eu sou quem morre e não deita.



OS COMPANHEIROS

deixa eu fazer um parêntese,

pode alguém querer

tomar um cafezinho

enquanto eu conto uma piada:

falaram que os companheiros

comiam do mesmo grude,

lambiam a caçarola

cheirando o sexo de esmola,

tremiam no mesmo frio

da mesma noite assassina,

gemiam no mesmo açoite

da mesma nau da chacina,

falaram que um companheiro

esfaqueou o amigo do peito

e foi lavar as mãos

no botequim da esquina.

mas não vamos entrar em detalhes

de crimes passionais,

eu cá por dentro de mim

já trago uma dor tão grande

que nem cabe nos jornais,

e tenho plena certeza

que na casa dos amigos

os fuzis após o lanche

esperam a hora do arroto.