segunda-feira, 20 de junho de 2011

Caminho das Pedras: Café Literário

O evento fará merecidamente uma homenagem à poetisa e membro da Academia Maranhense de Letras, Laura Amélia Damous. Nascida em Turiaçú, no Maranhão, em 1945, teve seu primeiro livro publicado somente em 1985 – Brevíssima canção do amor constante. Que segundo Assis Brasil, compreendia-se uma “obra pequena, mas significativa como ser poético, ela não se parece com nenhum de seus contemporâneos maranhenses, linguagem sintética de um cancioneiro peculiar, ao gosto dos ideogramas japoneses. No Brasil, a sua referência maior seria a Cecília Meireles das Canções, a mesma espontaneidade e rigor ao construir os poemas.” Abaixo, reproduzimos um texto do Alberico Carneiro em homenagem e essa singular poetisa maranhense, publicado no Guesa Errante.


Laura Amélia Damous em traje de luzes

Temos insistido na tônica da necessidade de enfatizar as várias vertentes poéticas das novas gerações de poetas maranhenses, intertextualizando suas peculiaridades, em termos de dicções, no sentido de estabelecer o viés da criação literária que impõe valor, frescor e vigor a este momento que tem compromisso explícito e implícito com o texto experimental.

Hoje já é possível começar a fazer esse mapa, compor esse desenho, levando sempre em consideração suas relações com a tradição quer local, nacional ou internacional. Trata-se de um texto experimental em vias de se consolidar como novidade, navegando naquelas águas do tornar novo.

Por este prisma é que chegamos à obra poética de Laura Amélia Damous, conscientes de que os textos em que ela se inscreve no atual panorama da literatura, por si mesmo dialogam não só com os leitores, mas também com as várias vozes da crítica literária brasileira, bem como com alguns outros textos com os quais são afins por freqüência, convergência, confluência ou recorrência, colocando-se no aceso do discurso poético contemporâneo mais consequente.

É bom conferir algumas opiniões que ilustram o seu último livro, Cimitarra, obra publicada em 2001 e que se compõe de sua poesia reunida, como síntese dos poemas das obras anteriores da autora: Brevíssima Canção do Amor Constante, poesia, 1985; Arco do Tempo, poesia, 1987 e Traje de Luzes, poesia, 1993, acrescidos de novos poemas.

Inscrevendo-se numa genealogia de raros assinalados nesse campo, onde há poucos marinheiros sobreviventes no mar vasto e vário, percebe-se o quanto é difícil o ofício de pilotar as pequenas embarcações. Nessa família de poucos ascendentes e descendentes se inscrevem a poeta grega Safo, o persa Omar Khayyam, e poetas mais próximos dos dias atuais, Emily Dickinson e Rainer Maria Rilke.

Essa opção por poemas pequenos intui uma responsabilidade redobrada sobre o poético e inclui, por isso, Laura Amélia Damous entre os melhores poetas maranhenses da atualidade.

A leveza e a simplicidade, como busca de releitura de difíceis ícones poéticos, recompõem uma tradução moderna de uma maneira singela de antigas verdades. Ela aqui, em pequenos frascos, como se em relicários, vai guardando raros perfumes, verdadeiras miniaturas de conteúdos discretamente exóticos e voluptuosos. É uma tarefa ousada, obstinada: pequenos poemas traduzem, às vezes, até arquetipicamente a imagem captada e capturada por força de experiência ou vivência.

O caminho por onde o texto conduz Laura Amélia Damous é este e, daí para frente, é ele que cria o poeta em suas várias vertentes de conversas e diálogos com outros textos, leitores, estudiosos, ensaístas e críticos. Assim, os poemas de Laura Amélia Damous estão-se fazendo, construindo alicerces para a permanência, isto sem arrogância, mas com simplicidade, humildade, respeito pela verdadeira tradição, que se consolida a partir daqueles que ousam incomodar seus contemporâneos, não de uma maneira arbitrária e equivocada, mas com uma consciência do que seja a responsabilidade e o risco em ousar a alquimia poética no texto, já que o fenômeno poético é uma conquista de séculos ou a soma de conquistas. Daí por que nenhum poeta tem o significado sozinho em si mesmo e em seu tempo, porque todo poeta verdadeiramente poeta é um resultado ou a soma dos poetas que absorveu, dos poetas que transitaram e/ou transitam pelos seus textos através de releituras ou recriações. Um bom poeta são vários.

Os textos de um verdadeiro poeta demonstram por si sós que o fenômeno poético não é uma mistificação, muito pelo contrário, representa uma busca de encontrar um sentido para a vida, numa perspectiva de transcendência, numa necessidade de celebrá-la em todos os seus aspectos, diante da certeza de que ela, sendo precária e provisória, por sua fugacidade e transitoriedade que angustiam, afligem e dilaceram o ser humano em sua rápida trajetória pelo Planeta Terra, o Paraíso Terrestre, prescinde de sobrevivência através da escrita.

Exercício

Tuas mãos desenham
uma estranha geometria
curvas que se encontram retas
em direção a um equacionado desejo
(p.120)

(Poema do livro Arco do Tempo)

Tato

Corpo
cor
de

rosado
rosa
em
mim
plantado (p.118)



Em trânsito
Pessoas passam na chuva
Temo pela gota d’água parada
na calçada (p.119)

(Poemas do livro Arco do Tempo)

Misericórdia
Já não posso dizer
te amo
floresce em minha boca
um punhal (p.142)
(Poema do livro Traje de Luzes)

Cimitarra
A lua afiada
decepa
a noite
Estamos órfãos (p.33)

Memória do Tempo
Brevíssimo verão
frágil e fugaz
perpassa o coração trêmulo e assustado
O outono é a certeza (p.41)

Quiromancia
A mão do poema
é a que me cabe
inteira
A outra
eu a carrego,
pesada e alheia (p.61)

Noturno
Tudo é tão simples
que poderia ser pedra (p.64)

Ratoeira
Tremo em pensar
que a saída
vai dar em tua boca (p.116)


Texto de Alberico Carneiro para Suplemento Cultural e Literário Guesa Errante (Ano 01, Edição 31) do Jornal Pequeno.

domingo, 5 de junho de 2011

Opinião de Pedra: José Ewerton Neto

A ÚLTIMA DO BOM PORTUGUÊS

José Ewerton Neto

Lembram daquela do português? A de que houve um dia um “melhor português do Brasil” e era, justamente, falado no Maranhão? Pois é, está virando piada. Primeiro, porque ninguém está nem aí para essa tal de tradição histórica de falar bem e, segundo, porque, como querem os gramáticos do Ministério da Educação, sequer se precisa mais falar um bom português.

Tudo já foi dito sobre essa discussão, portanto “lá vem a lua saindo, redonda como um botão, se ela virar coalhada nóis come”, como dizia o caboclo. Melhor negócio é sair atrás desse português que, a muito custo descobri, cansado, depauperado e, algo revoltado, em um cantinho qualquer da Praia Grande.

- Ainda estás em São Luis, bom português?

- Aos trancos e barrancos.

- Mais trancos ou mais barrancos?

- Tantos trancos que nem ligo mais para os barrancos. Por exemplo, o de você me chamar de bom português, quando fui, indiscutivelmente e durante muito tempo, o melhor português do Brasil.

- Oh, desculpe. Mas os trancos têm vindo da parte de quem?

- Ora, de quem deveria zelar por mim, dos órgãos oficiais, dos planos culturais, das escolas, dos próprios professores que se recusam a admitir que eu ainda existo, que fui parte do que se chamou Atenas Brasileira, enfim que ainda estou aqui.

- Você se queixa, então que a nova geração não o conhece?

- Não só não me conhece, como está completamente indiferente a mim. Em matéria de português eles prestam muito mais atenção ao português - pra lá de chato! - da tevê, que anda comendo uma atriz da outra, nas novelas e fora delas.

- Ouvi dizer que você está a ponto de desistir de tudo e ir embora.

- Ir embora? Como, se não tenho alternativa? Outrora, era bem recebido em toda parte. Toda vez que um maranhense visitava outro estado, as pessoas de lá diziam logo: “Já ouvi falar em tua terra. É lá que mora o melhor português do Brasil.” Hoje é mais fácil que perguntem: “ Maranhão? Não é a Jamaica Brasileira”?

- Isso sugere que não te adaptaste aos novos tempos.

- Recuso-me a isso. Se adaptar significa falar as besteiras que falam Faustão, Luciana Gimenez e o ex-presidente Lula, estou fora. O idioma deles eu não consigo entender. Aliás, dá para acreditar no que estão tentando fazer?

(Desde o início da entrevista evitava tocar no assunto para não entristece-lo, mas, agora, não havia outro jeito)

- Sei, existe uma turma de idiotas que está propondo que se ensine o português errado nas escolas.

- Ouvi falar disso, claro, mas essas coisas não me entristecem mais. Faz muito tempo que a televisão é a melhor cartilha do mundo para ensinar besteira e sacanagem para crianças e ninguém jamais se importou com isso. Estava falando de coisa muito pior.

- Pior?

- Sim, pior é o que estão tentando fazer no quarto centenário desta nossa cidade Segundo ouvi falar contrataram uma escola de samba do Rio e nela vai ter lugar (ala) para tudo: para bumba-boi, para tambor de crioula, para Alcione, para o Beco da Bosta e até para reggae, só não vai ter lugar para lembrarem de mim: aquele que foi durante muito tempo o melhor português do Brasil.

(Temi pelo pior, ao perceber sua tristeza. Evitei lembrar que ele, de fato, talvez já nem existisse, era quase uma sombra, apenas uma lembrança)

- Talvez reconsiderem isso, Melhor Português. Não fique assim, tenha esperança!

- Sei o que estás pensando, amigo, mas... Não se preocupe, não corro o menor risco de morrer na sua frente de depressão, infarto, ou apoplexia. Sinto-me resignado e calmo, embora sem vontade de viver e resistir. Eu não saberia continuar a viver num país em que as pessoas fazem questão de não serem mais burras, não só porque o dia tem apenas vinte e quatro horas, mas, agora também, porque o alfabeto só tem 23 letras.

Fonte: Artigo publicado na seção Hoje é dia de... Jornal O Estado do Maranhão (04/06/2011)