sábado, 24 de setembro de 2011

Opinião de Pedra: José Ewerton Neto


UMA VERGONHA MUITO INCONVENIENTE


José Ewerton Neto


Jornal O estado de São Paulo, edição de 13 de Agosto de 2011. Algumas notícias de primeira página:

“ Juíza é assassinada no Rio, outros 69 estão ameaçados.”

“ Pressionada, Itália anuncia corte de gastos.”

“ Fotos de presos pela PF geram crise”

“O universitário do Maranhão é o que lê menos”. Peraí, O UNIVERSITÁRIO DO MARANHÃO É O QUE LÊ MENOS?

De fato, o jornal, em reportagem interna, lamentava que a pesquisa em várias universidades brasileiras denunciasse aquilo que já se desconfiava: o universitário brasileiro, de um modo geral lê muito pouco, não só comparado a países de cultura tradicional como a França e Alemanha como – para falarmos de países vizinhos – Chile e Argentina. O que não se sabia é que, entre eles, o pior é o maranhense. Só para termos uma idéia enquanto 23 % de universitários gaúchos lêem dez livros, em média por ano, o mesmo porcentual maranhense não chega a sequer um livro. Repito: 23% DOS UNIVERSITÁRIOS MARANHENSES NÃO CHEGAM A LER SEQUER UM LIVRO POR ANO.

Se essa constatação, publicada num dos jornais de maior circulação do país, e por aqui reproduzida, chegasse a nos envergonhar, por que então nenhuma autoridade se manifestou a respeito? E, quando estou falando de autoridades estou falando também, também de interessados próximos: reitores, professores, intelectuais, secretários de estado e... Os próprios estudantes.

Talvez porque essa não passe de mais uma vergonha inconveniente. E bote inconveniente nisso! É preferível falar no sucesso do Geia ( muito justamente, aliás); no reconhecimento (finalmente) do bumba-boi com patrimônio cultural do Brasil; nos projetos para comemoração do quarto centenário de São Luis e , nunca , na verdade acachapante de que NINGUÉM QUER MAIS SABER DE LER NUMA CIDADE QUE SE INTITULA ATENAS BRASILEIRA . Principalmente, seus universitários.

2. Mas, por que a pouca leitura significaria uma vergonha? Aí é que está, fosse eu um jovem universitário, doido para passar no vestibular do BBBrasil ou ávido para curtir shows de Sorocabas na Expoema, ficaria pensando toda vez que um sujeito viesse pela enésima vez falar nesse assunto “abominável” da necessidade de leitura “Por que será que essa turma não para de encher o saco? Puxa vida, tenho muito mais o que fazer do que ficar meia hora penando em cima das páginas de um livro.” E reconheço que, dentro de sua lógica de bobo feliz com sua parvoíce, ele teria razão.

Pois só pode avaliar a fortuna trazida por um livro quem habituou - se, desde cedo a ler. Como dizia um escritor francês, jamais coube ou caberá ao ser humano ser proprietário de sua morte genética, mas de sua morte intelectual sim, e nossa raça se aprimorou em se suicidar da melhor forma. O universitário maranhense, ao que tudo indica, está sabendo muito bem escolher a sua: é também entre todos os universitários brasileiros o que menos freqüenta bibliotecas.

Ora, se estamos lidando com mortos intelectuais prematuros de nada vale evocar frases como as de que “ A literatura não faz alguém mais ou menos feliz, mais ou menos rico, mas é a principal estimuladora da única coisa que diferencia um animal do outro: a reflexão, ou seja, aquilo que o distingue.” O que soa desconcertante - nesse esforço que todo ser humano deveria ter para distinguir-se de outros animais - tanto ou mais que o desapego dos universitários maranhenses pelo instrumento mais rico que possuem para que possam se tornar melhores profissionais, é a indiferença das autoridades a respeito.

Claro, por que tocar na ferida de mais uma vergonha inconveniente?

Fonte: artigo publicado na seção Hoje é dia de... Caderno Alternativo, jornal O Estado do Maranhão (03 de setembro de 2011)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Caminho das Pedras: ILHAVIRTUALPONTOCOM Nº 5


Aqui está o Nº 05 do ILHAVIRTUALPONTOCOM, o informativo destinadoLink a promover e divulgar a literatura maranhense produzido pelo professor José Neres e seus discentes-colaboradores da Faculdade Atenas Maranhense (FAMA). Neres avisa aos interessados que queiram colaborar com artigos, resenhas, contos, crônicas, poemas, etc, que devem enviar seus textos para o e-mail que está no final do jornal.


Uma boa leitura para todos.

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Opinião de Pedra: José Lorêdo de Souza Filho (direito de resposta)

Prezado sr. Zema Ribeiro,

Conforme prometido, tentarei agora refutar, ponto por ponto, suas afirmações a respeito de meu (humilde) protesto contra os quadrinhos blasfemos da revista Pitomba!

Esquematizemos suas afirmações das quais discordo:

I – Soube, da pior maneira possível, que a livraria de Lorêdo, a Resistência Cultural, já está aberta e funcionando: num texto dele sobre a revista Pitomba!

Resposta: Agradeceria, por gentileza, se me indicasse o trecho. Em momento algum disse isso. Suponho que o senhor concluiu assim por conta própria, porque eu havia adquirido livros junto ao sr. Bruno Azevedo.

II – Embora se justifique, afirmando de cara que não defende um retorno a práticas medievais – de tortura, inclusive – Lorêdo evoca um “ordonnance” (decreto) de Carlos VI, rei da França, para comentar a revista Pitomba!, em que deu “uma breve folheada”.

Resposta: A meu ver, quando diz que evoco um decreto do Rei Carlos VI, o senhor dá a entender que defendo, sim, a despeito de eu ter negado, “um retorno a práticas medievais”, tais como a tortura. Uma coisa não exclui a outra. Realmente, o “Ordonnance” de Carlos VI é exemplar e inspirador, pelo que tem de enérgico, de altivo em face dos blasfemadores. O que não quer dizer necessariamente que a sanção prevista no decreto seja a adequada aos nossos tempos. Quanto à “breve folheada” que dei na revista, só tenho a concordar. De fato, foi uma folheada. Em momento algum do meu texto afirmei que a Pitomba! não tem valor enquanto criação artística. Não entro no mérito da questão. O problema, torno a dizer, foram os quadrinhos ridículos e desrespeitosos.

III – Católico fervoroso, Lorêdo julga o todo pela parte e, a seu ver, a revista editada por Bruno Azevedo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha é simplesmente torpe, execrável, repugnante e depravada – para usar adjetivos colhidos ao longo de seu texto. O livreiro-editor, ao se reportar apenas aos quadrinhos Cuidado! Jesus vai voltar, esquece o trabalho de todos os envolvidos – ops! – na feitura do segundo número da publicação: as fotografias de Marilia de La Roche, os textos de Celso Borges e Flávio Reis, os poemas de Dyl Pires, os quadrinhos de Bruno Azevedo, as traduções de Reuben da Cunha Rocha – o Sensacionalista certamente não hesitaria em dizer que os editores da Pitomba! temem a excomunhão.

Resposta: Talvez eu tenha dado a entender que, somente pelos quadrinhos, a revista inteira não tivesse valor. Concordo com o senhor. Se ficou parecendo, retrato-me agora: não foi o que quis dizer; peço desculpas. Os próprios quadrinhos têm um humor negro que adoro. Mas, como sabemos, a sátira não pode prescindir da veracidade dos fatos, sob pena de se transformar em mera piadinha de mau-gosto. Jesus Cristo, mesmo para os não-crentes, é figura cuja dignidade é historicamente comprovada. Mesmo os que não O consideram o próprio Deus, não negam seu respeito e admiração por Ele, não hesitando em Lhe colocar ao lado de outras figuras como Sócrates e Buda, por exemplo. Portanto, convém perguntar: por que retratar Nosso Senhor como beberrão, maconheiro, libertino e ladrão, se não há respaldo documental de que Ele o tivesse sido?

IV – A ação do trio Pitomba! despertou a ira – sei que é pecado capital, mas na falta de palavra melhor – de Lorêdo, que chega a sugerir que um conhecido mostre a revista ao arcebispo de São Luís, D. José Belisário, que a meu ver tem mais com o que se ocupar.

Resposta: Ora, e qual seria o problema se um grupo de católicos agendasse uma reunião com o Arcebispo Metropolitano de São Luís, Dom Belisário da Silva, para lhe mostrar os quadrinhos, pedindo, ao menos, uma declaração pública de S. Exa. condenando e rechaçando blasfêmias contra aquilo que nos é mais sagrado? O grupo só estaria agindo em consonância com o Catecismo da Igreja, o Código de Direito Canônico e o Magistério Pontifício, e dentro da Constituição e, sobretudo, das nossas tradições, eminentemente cristãs. É obrigação dos católicos defenderem a sua Igreja e Nosso Senhor. Ainda, é bom que se diga, contra publicações humorísticas e “despretensiosas”.

V – A reação de Lorêdo foi a pior possível: uma reação reacionária, com o perdão do trocadilho infame, com argumentos vazios – qual teria, aliás, sido sua reação se, em vez de com o catolicismo, o autor dos quadrinhos e os editores tivessem feito piada com, por exemplo, a umbanda ou o budismo? Desqualificar a revista, pura e simplesmente, não a mantendo nas prateleiras de sua livraria é agir como algumas igrejas: não ouvir música e/ou não ler literatura “do mundo”, como eles dizem, é apenas garantir um nicho de mercado.

Resposta: Como disse acima, a sátira só cumpre a sua função se baseada em fatos; do contrário, é leviandade. Eis é o problema. Isto seria um argumento vazio? Quanto a práticas de umbanda ou o budismo, o princípio é o mesmo. Satirizar aspectos condenáveis e comprovados, nada mais natural e estimulante. Se tivessem satirizado os padres pedófilos, que são a vergonha da Igreja, eu seria o primeiro a aplaudir. Mas, não. Preferiram atacar a figura sacratíssima de N.S. Jesus Cristo, que é o próprio Deus! E, se opto por não vender material repugnante, é por fidelidade ao propósito da Resistência de “fazer a circulação dos clássicos”. Compromisso com a qualidade. Temos várias obras de notórios autores anti-cristãos, como Marx, Voltaire, etc. Só não permitimos pornografia, insultos e qualidade duvida. Jamais a Resistência comercializará, portanto, os famosos best-sellers, por serem o que podemos chamar de livros enlatados. O que me coloca na contingência de estar perdendo um dinheiro precioso. Seria interessante ver os que bradam contra as mazelas do capitalismo elogiarem um pouquinho esse projeto inédito e corajoso de livraria que é a Resistência...

VI – Como leio Cuidado! Jesus vai voltar? Como uma piada, livre de patrulhamentos, quiçá uma crítica à fé cega que permite que o povo “se deixe enganar por falsos líderes”, contrariando a letra de Zé Geraldo. Talvez a piada-crítica seja direta demais – algo a que não estamos (tão) acostumados – e choque. Nada que ainda assuste a quem já tenha assistido a um episódio de South Park, por exempo.

Resposta: A sua interpretação não tem o menor cabimento. Os quadrinhos, já de cara, infringem dois mandamentos do Decálogo: “II – Não tomarás o santo nome de Deus em vão; VIII – Não levantarás falso testemunho”. São claramente ofensivos e levantam, realmente, falso testemunho (já expliquei de passagem a função da sátira). Agora, vejamos: o senhor diz que poderiam ser vistos como “uma crítica à fé cega que permite que o povo ‘se deixe enganar por falsos líderes’”. Novamente digo: por que, então, não satirizar os notoriamente hipócritas, demagogos e corruptos? Por que logo o Cristo? Não creio que os srs. Bruno Azevedo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha tenham pensado detalhadamente numa maneira de descer a lenha no Cristianismo; os quadrinhos só são fruto de seu espírito leviano, irresponsável e superficial. Iconoclastia gratuita, muito usada pelas vanguardas do começo do século passado, há muito que já é coisa ultrapassada. E seria eu o reacionário?

VII – Lorêdo erra ainda ao dizer que o trio de editores quer apenas “lavar a burra”, sinônimo de “encher os bolsos”: quem ganha alguma coisa vendando 500 exemplares de Pitomba!? Prazer e sensação de missão cumprida são as moedas de seus salários.

Resposta: De forma alguma quis insinuar cupidez por dinheiro da parte dos editores da Pitomba! Em todo o caso, peço novamente desculpas, porque acabei não me explicando melhor: como disse no post, tomei a expressão “lavar a burra” de precioso livro de meu fraterno amigo, o poeta, ensaísta e professor pernambucano Ângelo Monteiro (de quem editaremos em breve um livro de ensaios inédito, contendo estudos sobre, entre outros, Nauro Machado, José Chagas, Ariano Suassuna, Alberto da Cunha Melo e César Leal), chamado sugestivamente de Tratado da lavação da burra ou Introdução à transcendência brasileira, por meio do qual o autor buscou espezinhar a superficialidade, gratuidade e estupidez que, através dos meios de comunicação e das universidades, tomavam conta do povo brasileiro. Foi precisamente isto o que quis dizer.

Finalizando: ninguém pede aos editores da revista Pitomba! que se tornem cristãos. O que se pede, e se exige, baseado nas leis do país, do bom-senso e da cordialidade, é única e exclusivamente respeito. Imagine se alguém viesse a público ridicularizar a mãe dos srs. Bruno Azevedo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha!

Queria lhe agradecer muitíssimo, sr. Zema Ribeiro, por se ocupar com meu texto. Espero que nossas divergências não atrapalhem a possibilidade de uma amizade sincera. Seu post me deixou funda impressão de honestidade intelectual e desejo de esclarecer. Se precisar, estou à disposição.

Cordialmente,

José Lorêdo de Souza Filho

Proprietário da Livraria Resistência Cultural Editora

P.S.- Apesar de o texto ser endereçado ao jornalista Zema Ribeiro, recebemos uma cópia do “remetente” via e-mail com o pedido de reproduzi-lo. O Maranharte também abre espaço para o Zema e os colaboradores da Revista Cultural Pitomba caso queiram contra-argumentar sobre o eventual assunto.

P.S. 2 - Mais sobre o mesmo.

Pitomba!, Resistência Cultural e que fazer de São Luís « A Fantasia Exata

Pitomba! x Resistência Cultural? « diário do andré