quinta-feira, 1 de março de 2012

Opinião de Pedra: Jomar Moraes


Uma rosa que era violeta

Jomar Moraes


Daqui a um ano, se nóis viva fô, como cantam as caixeiras do Divino, estaremos, nesta data, que cairá numa sexta-feira, de algum modo rememorando os 120 anos do nascimento de Laura Rosa, nome de uma importante educadora que teve atuação destacada durante largo período do século passado, e cuja lembrança sobrevive crescentemente esmaecida pelo desaparecimento das diversas gerações que ela ajudou a educar. Isso, no âmbito das alusões e referências gerais mais correntes, porque em círculos específicos, a exemplo dos estudiosos da educação maranhense, Laura Rosa é presença viva e exemplo edificante, mesmo para aqueles que não a conheceram pessoalmente. Também acontece assim, na Academia Maranhense de Letras, onde ela fundou a Cadeira 26, e fez questão de pô-la sob o patronato de Antônio Lobo, fato que consagrou para sempre a admiração da aluna pelo professor predileto, e a distinção paternal do professor por uma de suas alunas mais estimadas.

Na chamada Princesa do Sertão, Caxias, cidade em que Laura Rosa exerceu por seguidos anos seu proficiente magistério, deixou raízes tão sólidas e profundas, que para lá retornou após cumprir, no sistema estadual de educação, uma das mais longas e exemplares folhas de bons serviços.

Não saberia dizer, pelo tempo decorrido, se a provecta professora já residia em Caxias, acolhida pela hospitalidade de outra mestra de renome naquela cidade: a professora Florzinha, como era por todos conhecida.

Mas o certo é que pela primeira vez me encontrei com Laura Rosa numa casa em que ela se achava hospedada, na Rua de São Pantaleão. E quanto a isso, acredito que não me engano, a despeito dos cerca de quarenta e nove anos decorridos. Eu tinha, de longe, uma especial admiração pela professora que não constituíra família, para dedicar-se inteiramente ao magistério, ocupação que dividia, porém em parcela menor, com a literatura, poetisa que era, e também contista, gênero em que publicou um livro intitulado As promessas. Com esse livro de contos, com os poemas de Castelos no ar, volume que permanece em originais cujo paradeiro é para mim incerto e não sabido, e mais que tudo, graças à sua reputação de competente educadora, Laura Rosa, quando as cadeiras da Academia foram aumentadas de 20 para 25 e finalmente para o número clássico e definitivo de 40, esteve entre os distinguidos para compor o quadro de membros efetivos da Casa de Antônio Lobo. Eleita em 3 de abril de 1943, tomou posse logo a 17 do mesmo mês, pertencendo-lhe, em toda a história da Academia, o segundo menor lapso temporal entre a eleição e a posse. A primeira pertence a Benedito Buzar.

Laura Rosa, recebida por Nascimento Moraes, foi a primeira mulher a ingressar na Academia, porque a primeira eleita, Maria Luiza Lobo, professora distinta e filha única de Antônio Lobo, que cognomina a instituição, não havendo tomado posse no prazo para tal estabelecido, teve sua eleição invalidada.

Acredito que essa posição de pioneirismo de Laura Rosa foi um dos motivos de meu interesse intelectual por ela. O outro, estou bem certo, decorreu de seu bucólico pseudônimo, logo transformado em heterônimo e em nome literário quase que absoluto: Violeta do Campo.

Sempre imaginei que o nome da rosa, constituído, intrigantemente, de apenas dois prenomes, embora ambos impregnados de poesia e de história literária – Laura e Rosa – ficaria bem mais bonito e, de certo modo, algo pomposo, se incorporasse o heterônimo popularizado. E assim teríamos, por exemplo, Laura Violeta Rosa do Campo, Laura Violeta do Campo Rosa ou outra das diversas combinações que os prenomes e o heterônimo ensejariam.

Porque até hoje não me conformo com esse nome constituído apenas de dois prenomes, ao qual ficou faltando o complemento de um apelido de família, fosse ele embora, um surrado silva ou pereira.
Pessoa que conheceu de perto a velha mestra, falecida já nonagenária, disse-me que seu nome era assunto em que ninguém falava.

Uma espécie de tabu. Algo que escondia, talvez, uma situação desconfortável. Mas eu jamais me conformarei com esse nome tão bonito, quanto misterioso, a estimular-me a abelhudice, talvez. Laura Rosa de quê? fica a pergunta.

Fonte: Jornal: O Estado do Maranhão (22 de fevereiro de 2012)


Trechos do discurso de posse da poetisa Laura Rosa (realizado no dia 17.04.1943), no Salão Nobre da Casa de Antônio Lobo.

"Manda a justiça que vos diga, em primeiro lugar, que me trouxeram para esta casa de sábios ilustres as mãos amigas de Corrêa de Araújo e Nascimento de Moraes com a benevolência de seus pares.

Trouxeram-me, porque, de mim mesma, nunca imaginei suficientes os meus versos, para merecimento de tão honrosas credenciais".

"Eis-me, portanto, aqui, Senhores, a primeira mulher que aqui entra, porque assim o quiseram os homens ilustrados desta agremiação, guardas fiéis de nossas tradições literárias".

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