segunda-feira, 30 de abril de 2012

Maranharte divulga: Ilhavirtualpontocom N° 12

Já está on line o 12º número de nosso Ilhavirtualpontocom. Desta vez os editores nos presenteiam com:

- Um perfil literário de Laura Amélia Damous, por Arlete Souza Menezes;
- Entrevista com Claunísio Amorim, por Ricardo Miranda Filho;
- Poesia de Ricardo Miranda Filho;
- Cronica de José Luís Carvalho dos Santos;
- Chamada para colaboração no Projeto Gonçalves Dias.


Ilhavirtualpontocom N° 12

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Caminhos das Pedras




A Semana será aberta na segunda (23), às 9h, na sede da Rede Leitora Ler pra Valer, no Coroadinho, onde as atividades acontecerão até às 17h. No dia 24, a programação movimentará o Viva Vinhais, das 8h30 às 11h30. O evento também acontecerá no Desterro (dia 25, das 14h30 às 17h30), na Biblioteca Pública (dias 26 e 27, das 8h30 às 12h), na comunidade Rio dos Cachorros (dia 28, das 8h30 às 12h) e no Teatro Arthur Azevedo (dia 30, das 8h30 às 12h), onde acontecerá o encerramento – no domingo (29), não haverá atividades.

 

X Semana de Letras UFMA
Comunicações que falarão sobre a literatura e a linguagem maranhense

Estudos Literários

A METÁFORA DA MORTE NO ROMANCE HISTÓRICO NOITE SOBRE ALCÂNTARA, DE JOSUÉ MONTELLO.
Anne Karoline Bezerra Dias

UBIRATAN TEIXEIRA E A POESIA DO COTIDIANO: UMA ANÁLISE DA LINGUAGEM EM CANTANDO NA CATRACA.
Anne Karoline Bezerra Dias
Jocília de Jesus Alves Mota

JOSUÉ MONTELLO E O ROMANCE HISTÓRICO EM NOITE SOBRE ALCANTÂRA.
Marília Milhomem Moscoso Maia


VOO PANORÂMICO DA REVOLUÇÃO DE BECKMAN SOB A ÓPTICA DE “O BEQUIMÃO” DE CLODOALDO FREITAS.
Railson Costa Santos

O CONTO POPULAR: A ANÁLISE DE UMA PRÁTICA CULTURAL DE COMUNICAÇÃO.
Ingrid Vanylle Santos Silva
Diana Milhomem Sampaio
Ana Paula Pinheiro Silva
Emanuelle Klyss Santos Rocha

OS NOVOS ANTENIENSES E A (RE)CONSTRUÇÃO DO DISCURSO DA ATENAS BRASILEIRA.
Maria Aparecida Conceição Mendonça Santos
Horácio de Figueiredo Lima Neto

VOZ QUE CANTA A SAUDADE DE SEU LUGAR NATAL: UMA LEITURA DO POEMA SUJO, DE FERREIRA GULLAR, À LUZ DA PERCEPÇÃO DA PAISAGEM.
Alessandro Barnabé Ferreira Santos

ANÁLISE POÉTICA DAS RELEITURAS DE “CANÇÃO DO EXÍLIO”
Gercivaldo Vale Peixoto
Viviane Santos Mendes


CASA DE PENSÃO: O ESPAÇO NA CONSTRUÇÃO DA PERSONAGEM AMÂNCIO.
Jamilly Katarina Fonseca Silva
Kassianne Mendes Silva

A VIRTUDE, A CONSCIÊNCIA E A DECADÊNCIA NO SER NEGRO NO ROMANCE ÚRSULA, DE MARIA FIRMINA DOS REIS.
Paloma Veras Pereira

LITERATURA E HISTÓRIA: UMA ANÁLISE DA OBRA A BALAIADA DE VIRIATO CORREA.
Renata Costa Dos Santos

A INFLUÊNCIA AFRICANA NO FALAR MARANHENSE: NÍVEL SEMÂNTICO-LEXICAL.
Tatiana do Nascimento Cunha
Fabiana Rocha do Nascimento Fournier
Sandra Mara Ramos Mendes

EXPRESSÕES LINGUÍSTICAS EM CRÔNICAS DO COTIDIANO SOBRE A IDENTIDADE CULTURAL DO BRASILEIRO.
Polyana Ribeiro Matos

MARCAS DA ORALIDADE NA ESCRITA EM REDAÇÕES DE ALUNOS DA UEB JOSUÉ MONTELLO.
Klécia Veloso Pinto dos Santos
Ivane Santos Diniz
Sheila Cristina Castro dos Santos

MARCAS DA ORALIDADE NAS PRODUÇÕES TEXTUAIS DOS ALUNOS DO ENSINO MÉDIO DA ESCOLA C.E HUMBERTO DE CAMPOS NA CIDADE DE HUMBERTO DE CAMPOS – MA.
Sânia Tereza Costa
Vandinalva Coelho Campos

A PRODUÇÃO DE SENTIDOS PELO/NO DISCURSO E SUAS RELAÇÕES COM A HISTÓRIA E A MEMÓRIA NA CONSTRUÇÃO DAS IDENTIDADES QUILOMBOLAS EM JAMARY DOS PRETOS – TURIAÇU – MA.
Claudemir Sousa

A IDENTIDADE LUDOVICENSE NAS TOADAS DE BUMBA-MEU-BOI: UMA ANÁLISE DISCURSIVA.
Thalita Castro Pimentel

400 ANOS DE SÃO LUÍS: PROPOSTA DE ANÁLISE DE  DISCURSOS PRESENTES EM PROPAGANDAS E CAMPANHAS PUBLICITÁRIAS.
Juliana Matos Lavra

O DISCURSO DA DOCUMENTAÇÃO MUSEOLÓGICA SOBRE INDUMENTÁRIA DO MUSEU HISTÓRICO E ARTÍSTICO DO MARANHÃO.
Cláuberson Correa Carvalho

“ESTE É O MEU SABOR DE VIVER O MARANHÃO”?
Thayane Soares da Silva

VARIAÇÃO LEXICAL: DENOMINAÇÕES DE HOMEM TRAÍDO, NA FALA DOS LUDOVICENSES.
Ivane Santos Diniz
Klécia Veloso Pinto dos Santos
Sheila Cristina Castro dos Santos

UM ESTUDO DO LÉXICO DOS PESCADORES DO MUNICÍPIO DE RAPOSA
Marcos Adílio Oliveira Moraes
Zuleica Barros

APAGAMENTO DO /R/ FINAL NA CONSTRUÇÃO DE REDAÇÕES DE ALUNOS DO CURSO DE INCLUSÃO SOCIAL PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO.
Gabriella Alves Ferreira
Joeline Santana de Melo

O LENDÁRIO MARANHENSE INSERIDO NA LEITURA ESCOLAR: A LEITURA COMO INSTRUMENTO DE PRESERVAÇÃO DA CULTURA POPULAR.
Fernanda Câmara Maciel
Thays Mara Louzeiro Mendes


A RELAÇÃO COTIDIANA PROFESSOR/ALUNO NO CURSO DE LICENCIATURA EM LETRAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO (UFMA).
Gabriella Alves Ferreira

PRODUZINDO TEXTOS E LEITORES NO PROJETO DE EXTENSÃO ENTRETEXTOS.
Camila Nascimento Lima Silva


MODALIDADE : PÔSTER

 DE “FAZER SALIÊNCIA” A “BRINCAR”: VARIAÇÃO LEXICAL PARA O ATO SEXUAL, NO CENTRO HISTÓRICO DE SÃO LUÍS – MA.
Rafael Moura Santos Coelho
Fernanda Marques dos Santos

O SEBASTIANISMO PRESENTE NA POESIA PESSOANA.
Fabiana Rocha Nascimento Fournier
Gabriela Liliana Medeiros Suarez
Sandra Mara Ramos Mendes


LINGUAGEM NA CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADE: A IOTIZAÇÃO DO / ʎ/ NA FALA DE VENDEDORES AMBULANTES DE SÃO LUÍS – MARANHÃO.
Fernanda Marques dos Santos
Adriana Santos Brito
Rafael Moura Santos Coelho




domingo, 15 de abril de 2012

Maranharte: 300 posts


Opinião de Pedra: Jomar Moraes

Poranduba maranhense

Jomar Moraes

Dentro da programação da Academia Maranhense de Letras, realizada com o apoio do Consórcio de Alumínio do Maranhão-ALUMAR, novos títulos serão lançados este ano, em continuidade à coleção Documentos Maranhenses. O primeiro deles é o volume 23 da mencionada coleção. Tem por título “Poranduba maranhense” e é de autoria de frei Francisco de Nossa Senhora dos Prazeres Maranhão, um frade franciscano que residiu em São Luís no primeiro quartel do século XIX, e que deixou, sobre nossa terra, esse importante trabalho que muito enriquece a bibliografia maranhense de seu gênero.

Longo tempo faz que vinha sendo reclamada, cada dia com premência maior, a reedição desta notável obra da bibliografia historiográfica maranhense.

Editada em 1891 e reeditada em 1946, “Poranduba maranhense ou Relação histórica da Província do Maranhão”, por haver aparecido e reaparecido em revistas especializadas, conforme no lugar próprio se indica, teve sempre a circulação restrita dos periódicos que lhe serviram de suporte.

À vista do que acima ficou sucintamente exposto, facilmente se haverá de inferir que esta 3ª edição de “Poranduba maranhense” bem poderá ser a que reúne maiores e mais propícias condições de desempenhar a função proativa que suas congêneres anteriores não exerceram.

Uma das circunstâncias ensejadoras do novo papel a ser exercido por esta reedição, tem a ver com o fato de ser ela a que, pela primeira vez, aparece sob a forma de livro provido das qualidades básicas de portabilidade e manuseabilidade, a que se soma confecção gráfica minimamente aparelhada para proporcionar uma leitura cômoda e, portanto, proveitosa da obra.

Com a finalidade de oferecer ao leitor deste livro, logo em seu vestíbulo, uma notícia das idas e vindas que por pouco não resultavam no definitivo descaminho dos respectivos originais, desloquei do final para o início deste volume o esclarecedor texto da lavra de César Augusto Marques, nosso benemérito pesquisador, incansável e persistente, sempre que se lhe oferecia uma oportunidade de prestar mais um relevante serviço a seu amado Maranhão, desafio para o qual nunca jamais conheceu limites.

É quanto, do fato, resta cristalinamente demonstrado após a leitura da “Nota sobre o “Poranduba maranhense””, breve, porém útil notícia biográfica acerca do autor da mencionada obra, dados esses provavelmente recolhidos do monumental “Dicionário bibliográfico português”, a que seu autor, o notável bibliógrafo lusitano Inocêncio Francisco da Silva (Lisboa, 1810-1876), deu o subtítulo de “Estudos aplicáveis a Portugal e ao Brasil”. No terceiro dos nove tomos editados em vida do dicionarista vêm, às páginas 38 e 39, os dados biobibliográficos do autor de “Poranduba maranhense”, que encabeça o verbete

FR. FRANCISCO DOS PRAZERES MARANHÃO. Embora incompleto, o nome do frade inclui o topônimo Maranhão, fato que ratifica a informação de César Marques neste trecho da “Nota sobre o Poranduba maranhense”:

Respaldado na autoridade de César Augusto Marques e Inocêncio Francisco da Silva, concordes em consignar que o frade autor de Poranduba maranhense incorporou a seu nome religioso o topônimo Maranhão, pareceu-me justo, nesta obra maranhense que ora é reeditada no Maranhão, adicionar-lhe ao nome indicativo da consagração à vida monástica, o nome adotado em sinal de seu amor à terra em que viveu, e à qual consagrou importante item de sua bibliografia, que é a seguinte, com base em Inocêncio Francisco da Silva (op. cit., loc. cit.), além de “Poranduba maranhense, obviamente”:

• “Dicionário numismográfico lusitano”, em que se descrevem as moedas antigas de Portugal. Lisboa: Galhardo & Irmãos, 1835.

• “Breve notícia de Panoyas”, cantão famigerado na antiguidade, do qual se formou a melhor parte da comarca de Vila Real. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1836.

• “Index histórico do Elucidário de Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo Gradis” etc. Lisboa: Galhardo & Irmãos, 1836.

• “Tábua geográfico-estatística lusitana, ou Dicionário abreviado de todas as cidades, vilas e freguesias de Portugal” etc., etc. Porto: Tip. Comercial, 1839.

Em 2ª ed., essa última obra republicada no mesmo ano de falecimento de seu autor, tomou o título de “Dicionário abreviado de Portugal e suas possessões ultramarinas, no qual se dá notícia de todas as cidades, vilas e freguesias de Portugal, com sua população, léguas de distância, correios e feiras principais; seus rios, montanhas, portos etc. E juntamente se descrevem todas as ilhas e porções continentais que Portugal possui atualmente no Ultramar; suas povoações, plantas, animais, minas, rios, portos, comércio etc”. Por um flaviense etc. Porto: Tip. de Sebastião José Pereira, 1852.

Fonte: Jornal: O Estado do Maranhão (11 de Abril de 2012 )

Maranharte: Divulguem

sábado, 14 de abril de 2012

Opinião de Pedra: João Dias Rezende Filho


CEMITÉRIO: UM MUSEU A CÉU ABERTO


João Dias Rezende Filho


A morte iguala a todos, não importando o nível social, econômico, intelectual ou qualquer outro critério que diferencie as pessoas no decorrer de suas vidas. Entretanto, o modo de tratar o morto e de sepultá-lo, bem como onde e como será sua sepultura, trará à tona as diferenças que a indesejada das gentes parecia anular. Em tempos de novas descobertas médicas, de aumento da expectativa de vida, de busca pela juventude através de cosméticos e tratamentos rejuvenescedores abordar o assunto morte é estar na contramão da cultura pós-moderna que se afirma contra a natural finitude humana revelada nas próprias faces vincadas dos que se deixam envelhecer.

Segundo estudos e pesquisas, sobretudo da escola francesa dos Annales, que se debruça sobre a história da mentalidade de cada época, o tratamento dado aos mortos, desde tempos imemoriais, é sinal de crença no transcendente e indica uma religiosidade. Fustel de Coulanges, historiador francês do século XIX, em sua obra “A Cidade Antiga”, delineia a gênese dos sepultamentos, embalsamamentos e cuidados com os mortos que surgem há milhares de anos com os povos chamados indo-europeus e, mais tarde, entre os etruscos, egípcios, romanos e gregos. Este cuidado com os mortos que originou um verdadeiro culto aos antepassados durante a Antiguidade nos legou monumentos perenes como as pirâmides do Egito. O culto aos mortos, com o fim do paganismo e a propagação do cristianismo foi aos poucos desaparecendo para, na Idade Média, dar lugar a certo indiferentismo quanto aos cuidados do sepultamento e ao local da sepultura. Para o historiador francês Philippe Ariès (2003, 73) “Na Idade Média, os mortos eram confiados, ou antes abandonados à Igreja, e pouco importava o lugar exato de sua sepultura que, na maior parte das vezes, não era indicada nem por um monumento nem mesmo por uma simples inscrição” No fim do Medievo, a situação começa a mudar e, já no século XVIII, com as chamadas Luzes, a sociedade dita esclarecida passa a se importar mais com o destino dos corpos de seus mortos. Os sepultamentos, antes realizados nas igrejas e pelas igrejas, o que em latim se dizia ad sanctos et apud ecclesiam, começam a ser feitos nos cemitérios a céu aberto, em geral afastados das cidades, fora de seus muros. A justificativa dos iluministas e médicos sanitaristas para que os enterros não fossem nas igrejas estava no temor de contaminação que os vivos poderiam sofrer pela proximidade, durante os ofícios religiosos e orações, dos gases e emanações pestilentas que se desprendiam dos cadáveres sepultados em grande quantidade no chão dos templos.

Na São Luís de 400 anos atrás, quando aqui aportaram os homens da Corte do rei-menino Luís XIII, já tínhamos, obviamente, pessoas por cá. Eram os indígenas, que tinham sua religião e, certamente, seu modo de compreensão do fenômeno da finitude humana. Não entraremos na questão do sepultamento indígena a qual antropólogos e historiadores do chamado período pré-cabraliano estarão mais afeitos a falar com mais propriedade.

O nosso primeiro sepultamento após o 08 de setembro de 1612, ao menos o conhecido de todos e registrado na história, será o do missionário capuchinho Ambroise d’Amiens, segundo relato de Frei Claude d’Abbeville em sua obra História da Missão Capuchinha no Maranhão. Frei Ambroise, a quem Abbeville chamou de Apóstolo, faleceu em 09 de outubro de 1612, e foi sepultado “em nossa residência [no convento dos Capuchinhos franceses] de São Francisco, junto ao Forte de São Luís, na Ilha Grande do Maranhão”. (ABBEVILLE, 1945, 34).

O primeiro cemitério de São Luís, segundo o Dicionário de César Marques (2008, 331) data do início do século XVIII, onde hoje está a Rua de Nazaré aos fundos da Igreja da Irmandade da Misericórdia, que administrava o referido campo santo. Contudo, é óbvio, houve sepultamentos antes da criação deste primeiro cemitério. Os enterros eram feitos dentro das igrejas, perto dos altares e nas naves principais quando o morto era da nobreza, do clero, sobretudo bispos e membros do alto clero, ou da alta burguesia comercial e do lado de fora das Igrejas, no adro, quando da pequena burguesia comercial e próxima aos seus muros e oitões, quando escravos, ou negros libertos ou pessoas livres, mas pobres ou com poucas posses. Muitos escravos e pobres eram enterrados nas beiras das estradas e caminhos.

Em ofício à Câmara, em 25 de abril de 1788, o Capitão general Fernando Pereira Leite de Foios diz: “como a todos os corpos se dão sepultura no estreito recinto do adro da matriz da mesma capital, sucedendo encontrar-se ao abrir das sepulturas vestígios de não estarem bem consumido os cadáveres, aconselhava ele que, à vista da presente epidemia de bexigas, em que se tem perdido infinitas pessoas, elegessem um sítio e terreno próprio para um cemitério, e cercá-lo de madeira, ficando em estado de se poder benzer e habilitar para sepultura de católicos” (2008, 331). À esta altura, os sepultamentos eram feitos no largo da matriz (Sé) e no antigo cemitério da Irmandade do Senhor dos Passos no fim da Rua Grande, onde é hoje o Estádio Municipal Nhozinho Santos. Um dos motivos para o fechamento do cemitério dos Passos foi a sua localização próxima à nascente da fonte do Apicum, que estaria sendo prejudicada pela contaminação proveniente dos cadáveres sepultados naquele cemitério.

Em 1855, o antigo cemitério da Irmandade dos Passos, ao fim da Rua Grande e o chamado cemitério novo da Irmandade da Misericórdia, cujo engenheiro responsável pela planta foi José Joaquim Rodrigues Lopes, futuro Barão de Matoso, e que segundo Jomar Moraes na terceira edição do Dicionário de César Marques, localizava-se onde hoje é o Hospital Socorrão I, entre as ruas do Norte e do Passeio, foram desativados e foi comprado o terreno da antiga Quinta do Gavião, “comprado por 6:400$ réis proveniente da venda de uma casa pertencente a Januário Martins Pereira, que deixou de legado para a Misericórdia e, através de financiamento governamental” (BOGÉA, 2008, 186). A nova necrópole, que por causa da antiga quinta, logo ganhou o apelido de Cemitério do Gavião, começou a funcionar em 06 de setembro de 1855. Quem iniciou a edificação do cemitério do Gavião foi o procurador geral João José Lopes de Sousa, segundo placa no alto do frontão da capela. As outras placas dizem o seguinte: “Instituído em 06 de setembro de 1855 sob a invocação de São José” e “Reedificado pelo mordomo Adriano Duarte Coutinho, nos anos de 1869 a 1873” Por cima da capela, no frontão, há três estátuas de mármore representando as virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade, atualmente, todas elas em péssimo estado de conservação.

O cemitério do Gavião é um vasto campo para a investigação e pesquisa constituindo-se em uma fonte multidisciplinar, abrangendo ciências como a História, a Arquitetura, as Artes Plásticas, a Sociologia, a Antropologia Social e muitos outros campos de conhecimento. Em um só jazigo, podemos vislumbrar o estudo da vida do sepultado, as relações sociais dele e de sua família, a arquitetura e as influências artísticas contidas no jazigo dentre outras abordagens possíveis. Já se compararam os cemitérios, muito apropriadamente, a museus a céu aberto. Um túmulo evoca não somente aquele que ali jaz, mas toda a mentalidade a respeito da morte em uma determinada época e lugar. Os símbolos que os ornatos de pedra, mármore, bronze e outros materiais representam são expressões da relação das sociedades com a morte.

No Cemitério mais antigo de São Luís atualmente, o Gavião, as sepulturas nos contam parte da História de nossa urbe. Logo à entrada, duas placas com pitorescas e, para muitos, macabras inscrições, nos recordam a finitude do gênero humano: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos” e “Nós fomos o que tu és e tu serás o que nós somos”, versões de origem portuguesa para o antigo provérbio latino memento moris, lembra-te que morrerás, fazendo eco nas Escrituras judaicas traduzida na Vulgata de Jerônimo como “Memento quia pulvis es et in pulverem reverteris” e que ecoa nas Quartas de cinza após os desregramentos carnavalescos. No alto do portão de entrada eleva-se um crânio com dois fêmures cruzados, símbolo antiquíssimo da morte.

Arrolaremos agora, sucintamente, alguns ilustres moradores do velho Gavião e seus jazigos. Dentre os políticos destacamos os jazigos do Governador Luís Antônio Domingues da Silva nascido em Turiaçu, em 11 de junho de 1862 e falecido em São Luís, em 10 de julho de 1922. Imponente sobre seu jazigo, abrigado por um baldaquino de mármore branco encimado por uma cruz, está o busto de bronze de Luís Domingues e logo abaixo as armas do estado esculpidas em mármore. Outro túmulo que se destaca é o do político e também comerciante, Saturnino Belo, conhecido como Satú Belo, que dorme o sono eterno em um grande jazigo de granito escuro encimado por uma escultura de grandes proporções do artista plástico maranhense, natural de Vargem Grande, Flory Gama.

Governadores sepultados no Gavião, além de Luís Domingues, estão Benedito Pereira Leite, do partido federalista, em um rico jazigo adornado por um grande anjo, vasos funerários de onde saem pequenas tochas, que representam a separação da alma do corpo e tochas invertidas que simbolizam a morte, o desembargador Manoel Lopes da Cunha que não concluiu o mandato passando ao seu vice, Alexandre Colares Moreira Júnior que assumiu o governo de 1902 a 1906 e também jaz no Gavião, Pedro Neiva de Santana, o jornalista e político João Pires Ferreira, o J. Pires, que foi deputado estadual constituinte em 1947 e na qualidade de presidente da Assembleia assumiu interinamente o governo, dentre outros. Infelizmente, a despeito da posição que estes homens ocuparam e de como atuaram na História de nossa Cidade e nosso Estado, suas sepulturas, em sua maioria, estão em estado de abandono, o que não é surpresa, pois, em comentário ao Dicionário de César Marques, Antônio Lopes ao se referir ao velho cemitério dos Passos diz: Nada mais resta deste cemitério. No correr dos tempos os túmulos, muitos de pedra de cantaria ou mármore trabalhado a primor, foram violados, para a retirada de pedras, cruzes e ornatos. Custa a crer que uma cidade desprezasse a tal ponto um campo santo, onde havia em inscrições lapidares mais de um século de história do Maranhão e foram sepultados os restos mortais de ilustres maranhenses. Vê-se que o descaso com esses monumentos fúnebres não é de hoje. Ao fundo do mausoléu de Benedito Leite, encontra-se o de seu filho, Dr. Antônio Pires Ferreira Leite, que era médico recém-formado, falecido precocemente, em 26 de março de 1918, aos 28 anos. No seu túmulo ergue-se uma coluna quebrada ou partida, símbolo antigo que representa a morte durante a juventude ou até os 30 anos. É também um símbolo associado à maçonaria.

Da nobreza maranhense, destacamos o jazigo do médico e político Dr. Carlos Fernando Ribeiro, o célebre Barão de Grajaú, que governou o Maranhão na época do Império, falecido em 10 de setembro de 1889 e sepultado envolto na opa da Irmandade do Senhor dos Passos, e de seu filho Carlos Fernando Vianna Ribeiro, falecido em 25 de abril de 1895, e também de Dona Ana Rosa, a malvada baronesa de Grajaú que, tresloucada e cruelmente, matou um escravinho seu à garfada, o túmulo da Baronesa de São Bento, e juntamente o seu neto historiador Jerônimo de Viveiros, em uma carneira ou carneiro, sepultura que se localiza na parede, coberta por uma pedra mármore branca onde estão esculpidos os nomes de vários membros da Família Viveiros ali sepultados. Há, ainda, o jazigo de mármore branco encimado por uma imagem de Nossa Senhora da Conceição da família de José Joaquim Seguins de Oliveira, que, titulado barão de Itapary em 1888, no ocaso do Império, incorporou o título ao nome de família.

Muitos epitáfios interessantes podem ser encontrados no Gavião, inclusive alguns escritos em línguas estrangeiras, como este em inglês:To the Dear Memory of Wilfrid James Hampton only son of James and Maude Hampton, Southfields, London. Born February 17th 1901. Died February 15th 1928. (À querida memória de Wilfrid James Hampton filho único de James e Maude Hampton, Southfields, Londres. Nascido em 17 de fevereiro de 1901 e faleceu em 15 de fevereiro de 1928). Recorrendo ao Jornal a Pacotilha, temos a notícia do falecimento do jovem bretão que nos esclarece a sua identidade e o que fazia em São Luís: Luto – W. J. Hampton – Faleceu hontem às 18 horas, no Olho d’Água para onde fora, há pouco transferido, o telegrafista da Western Telegraphic Co. Ltd. W. J. Hampton. O extincto, que era de nacionalidade inglesa, dispunha de largo círculo de amizades nesta capital, onde se impusera pelas suas qualidades de espírito e coração. Era filho do sr. James George Hampton, residente em Kent ( Inglaterra). Contava apenas 27 anos de idade. O enterro do malogrado cavalheiro realisou-se hoje às 8 horas, tendo sido o féretro transportado do logar onde se deu oóbito até a estação de bondes, em caminhão. Dahi em deante, mudado para a carreta, os colegas e inúmeros amigos do inditoso jovem acompanharam-lhe os restos mortaes ao Cemitério Municipal. Enviamos aos seus parentes os nossos sinceros pezares, extensivos aos seus colegas da Western e à distinta colonial inglesa aqui domiciliada. Eis um exemplo onde se colhem dados históricos quanto à presença de uma colônia ativa de ingleses mesmo depois do século XIX, período do apogeu da presença dos anglos no Maranhão em razão do comércio, quando São Luís teve um cemitério só para eles, o Cemitério dos Ingleses construído por volta de 1815, e localizado em frente à Igreja de São Pantaleão, onde hoje funciona uma escola pública.

No início do século XX, a presença inglesa e americana devia-se, sobretudo, à Companhia de Telégrafos comandadas pelos ingleses e à Ullen Company, responsável pela iluminação e pelos bondes de nossa provinciana capital. Sendo uma cidade de intenso comércio, uma das praças mais movimentadas do Brasil em fins do século XIX e início do XX, não é de estranhar o grande número de comerciantes sepultados no Gavião. Na alameda principal, está o jazigo do comerciante português Luiz Manoel Fernandes e sua Família, erguido como capela de mármore de Carrara em estilo neogótico, obra do escultor português António Moreira Rato. Luiz Manoel foi importante comerciante em meados e fins do século XIX e faleceu de beribéri, quando em viagem, na Bahia, sendo seu corpo transferido para São Luís, onde foi sepultado em seu jazigo. Sua filha, a maranhense Isabel Fernandes, veio a casar-se com o cônsul português e intelectual, um dos 12 apóstolos das letras fundadores da Academia Maranhense, Fran Paxeco. Do casal Fran-Isabel descende ilustre prole dentre as quais se destacam a sua filha Dra. Elza Paxeco Machado, primeira mulher a doutorar-se em Letras pela Universidade de Lisboa e sua neta Maria Rosa Pacheco Machado, Mestra em biblioteca e documentação, que ocupa atualmente uma cadeira de membro correspondente da Academia Maranhense, cadeira que foi ocupada por sua Mãe, a Dra. Elza. Registre-se que, Maria Rosa, bisneta de Luís Manoel Fernandes e neta de Fran Paxeco, é também filha do grande filólogo, dicionarista e arabista português Dr. José Pedro Machado, falecido em 2005. Jazigo de Luiz Manoel Fernandes e Sua Família.

Outros comerciantes e industriais sepultados no Gavião: Crispim Alves dos Santos, nascido em 1851 e falecido em 1905, Orfila Cavalcanti (1881-1922), que está em um jazigo adornado com um grande anjo de mármore branco esculpido pela afamada Marmoraria Carrara de São Paulo, Manoel Mathias das Neves, falecido em 20 de agosto de 1925, Joaquim

Júlio Corrêa, nascido em 1857, em Portugal e falecido, em São Luís, em 1937, quando era o decano do comércio maranhense em um imponente jazigo de granito escuro, o industrial Cândido José Ribeiro, cujo jazigo é ornado com seu busto e Marcelino Gomes de Almeida. Há, ainda, sepulturas de religiosos, como a do Monsenhor João dos Santos Chaves, falecido em 1948, antigo pároco da velha Igreja de Nossa Senhora da Conceição, localizada na Rua Grande, onde está atualmente o Edifício Caiçara, de Monsenhor Lemercier, falecido no mesmo ano de 1948, de Padre João Mohana, sepultado no túmulo de sua família e muitos outros clérigos e também religiosas, como as Irmãs Dorotéias de Santa Paula Frassinetti e as Irmãs Capuchinhas.

Dentre os intelectuais sepultados no Gavião estão o grande poeta do Guesa Errante, Joaquim de Sousa Andrade, o Sousândrade, o escritor e fundador da Academia Maranhense Antônio Lobo, o professor e historiador Domingos Vieira Filho, nascido em 1923 e falecido em 1981 e o jazigo de mármore branco com uma bela escultura de um anjo, um pergaminho e uma cruz onde jaz o escritor Aluísio Azevedo.

Não apenas personalidades célebres e importantes dormem o sono eterno no Gavião. Na parte da frente, antes da Capela do Cemitério e nos seus arredores estão os jazigos mais nobres, em sua maioria de mármore branco, granito escuro, ornados com estátuas de anjos, de santos da devoção do defunto ou da família e à medida que se vai adentrando o cemitério aparecem os jazigos simples onde pessoas menos abastadas, pobres, jazem em seus túmulos de alvenaria, caiados de cal branco, encimados com singelas cruzes de ferro ou madeira. Há, ainda, os que jazem enterrados diretamente no chão, às vezes em covas rasas... Como já dissemos, a morte iguala todos, mas o local onde os corpos permanecerão, bem como os materiais e ornamentos de um jazigo revelam muito da condição social do morto e de sua família.

Na Igreja de São Pantaleão, de mármore de Carrara, circundado de folhas de acanto e encimado com as esculturas de um crânio humano, uma ampulheta e um pequeno anjo, tem-se um dos túmulos mais bonitos que encontramos em Igrejas de São Luís. Transcrevo aqui o epitáfio deste túmulo: Aqui jaz Manoel João Corrêa de Souza, natural da Villa de Monção na Província do Minho, em Portugal. Filho legítimo de Izidro Domingues e Izabel Caetana Corrêa de Souza Montenegro. Falleceo nesta Cidade aos 17 de julho de 1937 de idade de 65 annos onde rezidio desde o ano de 1788, e nella exerceu a profissão de comerciante. O crânio simboliza a própria personificação da morte, a ampulheta representa o fim do tempo humano e o recomeço de um novo tempo, a vida eterna e o anjo, o desejo de que a alma do morto vá para o paraíso.

Em várias outras Igrejas há túmulos, jazigos e ossuários, como na Capela do Senhor dos Navegantes, anexa à Igreja de Santo Antônio onde estão sepultados os membros das antigas Irmandades do Senhor do Passos e do Senhor dos Navegantes. Dentre as figuras mais conhecidas está o Barão de Anajatuba, doutor José Maria Barreto, que era médico, militar e político. Também na Sé, na sacristia, jazem muitos clérigos e alguns leigos e no chão diante do retábulo-mor, próximo à Cátedra arquiepiscopal, muitos bispos que governaram a Igreja Católica de São Luís, dormem debaixo de artísticas pedras tumulares com inscrições e elogios fúnebres e brasões eclesiásticos.

Esperamos despertar a atenção, sobretudo neste ano em que se celebram os 400 anos da chegada dos franceses (para muitos, fundação, para outros, invasão), sobre importância histórica e social dos cemitérios, sejam eles a céu aberto, como o velho Gavião, ou dentro dos templos, como é o caso da capela mortuária ao lado da Igreja do Senhor dos Navegantes. Os cemitérios são espaço de pesquisa, fonte de conhecimento e cultura e até lugar de lazer, como, por exemplo, em Paris, no famoso Cemitério de Père- Lachaise e em outras cidades onde há passeios turísticos. Redescubramos a nossa História lá, onde ela parece ter acabado.

Referências Bibliográficas: ABBEVILLE, Claude d’. História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1945. ARIÈS, Philippe. História da Morte no Ocidente. Tradução de Priscila Viana de Siqueira. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003. COULANGES, Fustel de. A Cidade Antiga. São Paulo: Edirora Hemus, 1975. BOGÉA, Kátia Santos et alii. Arquitetura e Arte Religiosa no Maranhão. São Luís: 3ª Superintendência Regional/IPHAN, 2008. MARQUES, César Augusto. Dicionário Histórico Geográfico da Província do Maranhão. 3ª edição. São Luís: Edições AML, 2008. Fonte Primária: Jornal “A Pacotilha” de 16 de fevereiro de 1928. Acervo da Biblioteca Benedito Leite.

João Dias Rezende Filho é bacharel em Direito e atualmente cursa bacharelado em Teologia, prepara-se para ser sacerdote católico romano.

Blog do autor: http://joaopecegueirodias.blogspot.com.br

Fonte: Publicado no Suplemento Literário e Cultural Guesa Errante do Jornal Pequeno de hoje, sábado, 24 de março de 2012.