terça-feira, 26 de junho de 2012

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Maranharte Divulga:-PUBLICAÇÕES DO III SEMINÁRIO LINGUAGEM E IDENTIDADES: MÚLTIPLOS OLHARES



Artigos sobre a linguagem e a literatura maranhense apresentados nos III SEMINÁRIO LINGUAGEM E IDENTIDADES: MÚLTIPLOS OLHARES e divulgados posteriormente no site do encontro.
O Encontro ocorreu nos dias 05, 06 e 07 de outubro de 2011 na Universidade Federal do maranhão.

Entre os artigos, destacamos:

- A LINGUAGEM DA COMPANHIA DE JESUS NO MARANHÃO: A AÇÃO DE PADRE ANTÔNIO VIEIRA, de Joyce Oliveira Pereira (PIBIC/CNPq – História//UFMA);

- FEIRA DA PRAIA GRANDE: as peculiaridades mantidas através de séculos, de Ana Jéssica Corrêa Santos, Ildeneia Borges Abreu e Sarany Rodrigues Da Costa;

- A VARIANTE REGIONALISTA COMO RECURSO ESTÉTICO-ESTILÍSTICO DE CATULO DA PAIXÃO CEARENSE, de José Ribamar Neres Costa;

- AS CARTAS DE ATENAS E DE VENEZA: DOS DIÁLOGOS COM AS POLÍTICAS DE PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL DE SÃO LUÍS, de Kláutenys Dellene Guedes Cutrim;

- COMPETÊNCIA E MERCADO NA PRODUÇÃO DOS SENTIDOS DO ESTILO LITERÁRIO ENTRE INTELECTUAIS MARANHENSES, de Franklin Lopes Silva.

sábado, 23 de junho de 2012

Maranharte Prestigia: Lançamento da edição atualizada de O Guesa, de Sousândrade




O lançamento da reedição de O Guesa, de  Joaquim Manuel de Sousa Andrade (1833-1902) – o Sousândrade, no último dia 21 na Academia Maranhense de Letras foi resultado de cinco anos de pesquisa da  professora, pesquisadora e escritora carioca Luiza Lobo. A reedição desta obra tem introdução, organização, notas, glossário, fixação e atualização do texto da edição londrina feita pela escritora e revisão técnica de Jomar Moraes. O interesse pelo poeta maranhense, entretanto, não se resume a esse período de pesquisa, deste 1974 a escritora carioca vem estudando e produzindo vários artigos e livros sobre aquele que a mesma considera como sendo o autor da “maior obra épica brasileira”. Por sua dedicação a obra poética sousandradina a AML prestou a devida homenagem (que já deveria ter feito desde o ano de 2000), empossando-a como membro correspondente da AML.

Possuidora de uma espontaneidade cativante e de uma produção acadêmica absurda a professora da UFRJ, com doutorado em Carolina do Sul e pós- doutorado em Nova York e Berlim, Luiza Lobo ministrou, nos dias que antecederam a posse, o Curso A Épica na Literatura Brasileira, apresentando a definição do gênero épico, os modelos épicos brasileiros, a análise do Guesa e o seu estilo metafísico-existencial.  Um presente inesperado para um público que estava acostumado a pesquisadores que apenas querem mostrar o resultado de suas pesquisas, sem se preocuparem com a elevada tradição que acompanha qualquer produção.


“PARTIR SEMPRE SEM CHEGAR NUNCA.”


Talvez o que mais tenha me impressionado no discurso da professora Luiza Lobo foi a humildade de reconhecer que esta não é uma edição definitiva. Não se pode falar de uma edição “acabada” (ao que se refere a fontes primárias) da obra O Guesa, pois a mesma possui em si um mundo linguístico e metafórico que parece destinado a não ter um fim satisfatório na compreensão de sua intencionalidade, de sua formação etimológica e no mosaico de referências literárias e mitológicas. “Estamos diante de um épico como nunca se produziu mundo afora”, elogiou a escritora, um épico existencial que, entretanto, amedronta muito literato a repensar sua leitura, tamanha complexidade de termos de línguas diversas e referências a culturas distintas, é um poema à frente do seu tempo em muitos aspectos; linguístico, formal, temático e melodioso, por isso Lobo não se sentiu incomodada em apresentá-lo como uma “épica carnavalizada”, onde a intertextualidade produziu uma obra literária que rompe a barreira entre o épico, o trágico e a comédia. 

A lenda do jovem Guesa que seria sacrificado para servir de oferta aos deuses, mas que consegue escapar e foge para uma Nova Iorque (o Novo Mundo?), onde começa a “habituar-se” com os capitalistas tornou-se um gênero híbrido que talvez nem o próprio Sousândrade esperava render.  E desta forma, o poeta maranhense oferece mais da metade de sua vida na produção esta obra poética, tendo a(s) mitologia(s) como uma força que prende o corpo e a alma, mas  que dialeticamente proporciona  a construção do mithos de um guerreiro tal qual o Índio Tupi, o Guerreiro das  Encruzilhadas, o Navegante Português. 

A obra foi publicada pela primeira vez no Semanário Maranhense, em 1868, contendo apenas a “Dança de Tatuturema”. O primeiro volume de impressos sai em São Luís contendo os Cantos I e II (em 1869) e o segundo volume contendo o Canto IIII. Em 1874 é publicado em Nova York as Obras poéticas, com fragmentos do Canto III, e pouco depois a versão londrina. Segundo Luiza Lobo; “ele costumava alterar a grafia de seu nome a cada nova obra ou edição. Por vezes, também, mudava o título dessas obras. Assim, após passar cerca de duas décadas escrevendo seu poema épico Guesa errante, que saiu em São Luís e Nova York, renomeou O Guesa, na edição londrina definitiva, [...].” (LOBO, 2012)

A complexidade da obra inicia já nas palavras e expressões escolhidas pelo autor. Sousândrade utiliza oito idiomas na obra: o tupi, o quíchua (língua Inca), espanhol inglês, holandês, grego e o latim, mas segundo a pesquisadora; “muitas destas línguas ele falava ‘de ouvido’, por isso algumas expressões e algumas grafias estavam erradas”, o que dificultou a “tradução” da obra.  

A obra também tem a sua singularidade na retomada da épica clássica (observada nos trechos em homenagem as obras de Homero) e a modernização estilística que será preconizada apenas por um Voltaire, na semelhança da narrativa com aspectos autobiográficos, quando o próprio Sousândrade fora um cidadão do mundo, viajando (ao custo da vendo dos seus escravos) pela África, Europa, América do Norte e, antecedendo um Gonçalves Dias e um Mário de Andrade, pela própria Amazônia. O poeta refere-se à sua viagem (ocorrida em 1858) à Amazônia  no Canto IX do  Guesa, ao descrever a sua primeira viagem ao coração do Brasil:


Atravessando,
Avista ao longe as amazoneas águas,
Oiro agitado ao sol, e as verdes ilhas
Que de ha treze annos d'este canto as mágoas
Resoaram — eternas maravilhas.


Nos últimos anos, Sousândrade, viveu de aluguéis e do pequeno salário de professor de Língua  Grega, no Liceu Maranhense.  Reza a lenda que foram seus alunos que o encontraram doente em sua casa e o levaram ao Hospital Português, aonde viria a falecer pouco depois, a 21 de abril de 1902, véspera de completar 70 anos de idade. O reconhecimento é póstumo, mas não tardio e talvez com essa obra reeditada os pesquisadores desta nova geração se interessem em produzir “novas”’ leituras sobre a obra, como fizeram Silvio Romero, Oswaldino Marques, Humberto de Campos, Augusto e Haroldo de Campo, Antônio de Oliveira (que primeiro divulgou a certidão de batismo do poeta, tendo também publicado uma entrevista com uma neta do peta) , Jomar Moraes, Frederick Williams e Luiza Lobo.  


Flaviano Menezes




A obra pode ser encontrada na Livraria da AML, localizada na Rua Paz, 84 – Centro de São Luís (fone: 3231-3242)  ao preço de R$ 50,00


domingo, 17 de junho de 2012

Maranharte Informa: Minicurso sobre a Épica na Literatura Brasileira


A Academia Maranhense de Letras abriu inscrições para um minicurso de Épica na Literatura Brasileira. O minicurso será realizado pela professora doutora Luiza Lobo, que é docente de Pós – Graduação na Faculdade de Letras da UFRJ, da Academia Brasileira de Filosofia e correspondente da Academia Maranhense de Letras.

O curso é destinado ao público em geral, e especialmente a alunos de Letras. O objetivo é examinar os mais importantes escritores da Literatura Brasileira que escreveram epopeias, tais como Domingos Gonçalves de Magalhães. Será proposta uma comparação entre o Indianismo de Sousândrade e Os Timbiras de Gonçalves Dias. Com base no conceito de Emil Staiger, de que o épico existe como gênero ou como uma característica geral presente também em outros gêneros, será discutido o romance Iracema de José de Alencar, visando definir a importância da épica cristã romântica neste autor, assim como no poema Guesa.

O minicurso será realizado de 18 a 21 de junho, das 17h às 20h. As inscrições podem ser feitas na Secretaria da Academia Maranhense de Letras, que fica Rua da paz, nº 84, centro de São Luís.

Terá direito a certificado quem tiver 75% de comparecimento. A taxa de inscrição é de R$20.

No último dia do evento (21), haverá o lançamento da reedição de O Guesa, de Sousândrade.

Introdução, organização, notas, glossário, fixação e atualização do texto da edição londrina, por Luiza Lobo. Revisão técnica de Jomar Moraes.


Fonte: http://imirante.globo.com




segunda-feira, 11 de junho de 2012

Opinião de Pedra: Jomar Moraes



Já algumas décadas o escritor, crítico literário e cronista Jomar Moraes vêm também acumulando o título de nosso maior pesquisador sobre a literatura maranhense. Possuidor de uma das maiores bibliotecas particular de São Luís, Moraes poderia ter já se “debandado” para outros horizontes literários ou se aventurado em diversas pesquisas mais “universalizantes”, até já o fez, mas a busca em fontes primárias sobre a arte literária de sua terra e o instigante mergulho do norte criativo dos seus devidos autores sempre o empurraram de volta. Nunca é demais reverenciar o pesquisador Jomar Moraes, pois a revisão e a crítica literária produzida por esse “moço da Academia” tem papel basilar no trabalho acadêmico que nós, aprendizes, sempre acabamos por ir ao encontro quando não temos um argumento mais consistente e mais problematizador. E é através dessas pesquisas, hoje, publicadas em jornais (e infelizmente ao lado de “companheiros” que falam de futebol, brigas de trânsito e fazem campanha política ao falar do “estado lamentável” na qual se encontra a nossa cidade)  que  Jomar Moraes situa seu trabalho dentre das grandes obras de pesquisa sobre a nossa literatura maranhense.  Reproduzimos aqui duas pesquisas de sua autoria: a  primeira sobre o livro “A Casca da Caneleira” (publicada nos dias 18 e 25 de abril de 2012 no jornal O Estado do Maranhão) e “João Francisco Lisboa e a vida de Vieira” (publicada nos dias  23  e 30 de maio no mesmo jornal).

Flaviano Menezes




Sobre a “casca da caneleira”

Jomar Moraes


Sob muitos aspectos é acertada a apreciação que Wilson Martins faz sobre a novela maranhense intitulada “A casca da caneleira”, quando vê, entre os motivos determinantes da supervalorização dessa novela, o desconhecimento, por alguns, de seu conteúdo, e o prestígio literário dos que a escreveram.

Acredito que decorrem, sobretudo, do conhecimento “por ouvir dizer” as inexatas noções que muitos têm d’ “A casca da caneleira”, e que continuam a circular com foros de verdades incontestes.

Há quem afirme, com ares de quem acabou de descobrir a pólvora, mas na verdade simplesmente repetindo um dos enganos de Fran Paxeco, que “as doze esperanças eram apenas onze”. Isso porque “descobrem” flagrante contradição no fato de estarem relacionados 11 pseudônimos que ocultam igual número de coautores de um livro publicado “Por uma boa dúzia de “esperanças”, conforme se lê logo em seu frontispício. Ora, é de clareza não somente meridiana, porque também elementar, que a expressão uma boa dúzia de “esperanças” não quer dizer o mesmo que uma dúzia de “esperanças”. Boa, aí, ao contrário de dar uma qualidade a dúzia, empresta-lhe o sentido de indeterminação, de modo que uma boa dúzia, cujo sentido equivale a mais ou menos uma dúzia, aproximadamente uma dúzia, tanto poderiam ser onze, como doze ou treze “esperanças”, não importa. E, a quem ainda não atinou para os propósitos de mero divertimento dos coautores, que a si próprios chamaram “sportsmen”, advirta-se, antes de recomendar uma leitura atenta da novela, e porque continuamos em sua portada, que as aspas de “esperanças” não devem ter sido usadas sem algum específico objetivo, e este me parece plenamente atingido quando, desde a folha de rosto, se entrevê a truanice que está clara no “Exórdio Dispensável” e no “Caleidoscópio Final”.

Fran Paxeco também afirma, apoiado não se sabe em que ou em quem, que apenas Sousândrade, Joaquim Serra e Gentil Braga efetivamente escreveram “A casca da caneleira”. Certa vez, em seriado que intitulou “Trajano Galvão não é coautor da Casca da Caneleira”, e que expressamente classificou como “ensaio histórico-literário”, um certo intelectual conterrâneo, através de “O Imparcial”, pretendeu provar a não participação de Trajano Galvão na famosa novela coletiva, estribado, principalmente, na simplória constatação de que o livro apareceu em 1866, ao passo que Trajano Galvão morreu em 1864. Seria este um argumente irrespondível, se ficasse demonstrado que a novela foi escrita no ano de sua publicação ou pelo menos depois de 14 de julho de 1864, data da morte do sarcasta de “O Nariz Palaciano”. Lamentavelmente, porém, ao longo das sete partes que compõem esse trabalho em que mais de dois terços são meras transcrições, muitas das quais, despropositadas para o fim buscado, mas não atingido, nada fica demonstrado acerca da época de composição dos capítulos.

Posso afirmar, sem receio algum de incorrer em engano, que entre a composição dos capítulos e sua publicação em livro um bom tempo correu. E não se diga que as referências à Guerra do Brasil com o Paraguai ou à Questão Coimbrã, fatos sabidamente posteriores a 1864, seriam um bom argumento para a tese de que a novela foi escrita posteriormente à morte de Trajano. Esclareça-se logo que referências à Questão Coimbrã, que os autores chamam pejorativamente de “célebre rusga literária”, só as encontramos no “Exórdio dispensável”, no “Cadeidoscópio Final” e nos capítulos II e III. Galante de Souza, cuja autoridade no assunto logo será mostrada, aventa a hipótese de composição da novela em dois períodos: antes e depois da morte de Trajano. Da Guerra do Paraguai só se fala no capítulo XI, provavelmente dos últimos a ser escrito.

Voltando a Wilson Martins, eu me proponho a acrescentar aos motivos que deram notoriedade à novela (por ele injustamente, me parece, classificada como “curiosidade de museu”), o que decorre da circunstância de não sabermos, durante muito tempo, quem havia escrito o quê. E isto em razão de figurarem 11 pseudônimos num livro de 13 capítulos, se considerarmos como tal o “Exórdio dispensável”.

Essa curiosidade, porém, já não existe há muito tempo, pois é do início de 1971 o excelente “A Casca da caneleira e seus autores”, que Galante de Souza publicou na revista “Cultura”, nº 1, órgão oficial do MEC. O trabalho, esse, sim, pequeno, porém verdadeiro ensaio histórico-literário, pela precisão e clareza das informações e pela sequência lógica das ideias, põe termo a qualquer dúvida até então existente. É que Galante de Souza encontrou no jornal “O Publicador”, da capital paraibana, onde Joaquim Serra, secretário do Governo daquela província, publicava, desde 1865, a seção “Terra a terra (Cartas a Flávio Reimar)”, assinada, a princípio, com as iniciais P. C., do seu pseudônimo Pietro de Castellamare, e, posteriormente, com o pseudônimo por inteiro. (Fonte citada). A respeito deste pseudônimo, assim como do de Gentil Braga (Flávio Reimar), nunca houve nenhuma dúvida ou algum mistério no Maranhão. A rigor, nem chegam a ser pseudônimos, tão conhecidos se tornaram. Seria bem mais próprio classificá-los como heterônimos.

É fora de toda dúvida que já em 1865 Joaquim Serra tinha em mãos todos os capítulos da novela, visto que o “Terra a terra” de 1° de janeiro de 1866 anuncia sua publicação, explicando que a ideia de escrevê-la coletivamente tomara como exemplos La Croix de Berny, romance coordenado por George Sand, e um folhetim coletivo aparecido em 1858 no “Diário do Rio de Janeiro”. Diz expressamente que fora emprazado por companheiros residentes no sul e no norte, por onde se conclui que o projeto, numa época de comunicação morosa e difícil, não poderia ser realizado senão em tempo mais ou menos longo. É bastante provável que o grupo se haja movimentado ainda em fins dos anos 50 do século XIX, por sugestão do folhetim publicado no Rio de Janeiro.

A15 de janeiro novamente se refere à próxima publicação da “cousa”, o que só teria início a 9 de fevereiro, não obstante o parágrafo final afirmar: “Ditas estas palavras, começa a história”. É que Joaquim Serra levaria ainda algum tempo, talvez ocupado em ligar e desligar, coordenar e destramar os incidentes, que a tal o autorizavam seus declarados “poderes papais”.

Como poderiam pessoas que moravam no sul e no norte escrever uma novela em que o capítulo seguinte mostra o pleno conhecimento dos anteriores, não fora o decurso de tempo suficiente para tal? Tudo faz crer que ainda Joaquim Serra morava em São Luís quando surgiu a ideia desse empreendimento coletivo, cujo título não seria o que acabou adotando, e que não passa, na verdade, de uma fantasia romântica, como expressamente indicava um subtítulo entre parênteses da publicação em jornal, e é dito no primeiro parágrafo do último capítulo.

Por outro lado, não se pode negar credibilidade a estudiosos da categoria de Manuel de Melo, cuja autoridade não decorre apenas dos estudos que fez na específica área da bibliografia, mas também de sua contemporaneidade com os fatos.

Seria possível que “Manuel de Melo, dois anos depois da publicação da novela em livro, pudesse errar na identificação dos pseudônimos? tê-lo-ia feito sem consulta a nenhum dos co-autores, já que, exceto Trajano Galvão, todos continuavam vivos e alguns até residiam no Rio de Janeiro, onde também morava o bibliógrafo? Lembre-se que Joaquim Serra, o principal articulador do passatempo literário e quem para ele mais escreveu, já que além do cap. II, que assinou, são-lhe atribuídos o “Exórdio Dispensável” e o “Caleidoscópio Final” mudou-se para o Rio de Janeiro pouco depois da publicação do livro e ali residiu até 1888, ano em que faleceu.

Contrariamente ao que supõe o intelectual conterrâneo, não foi Sacramento Blake, em seu “Dicionário bibliográfico brasileiro”, “quem primeiro registrou os nomes dos co-autores (…) com os respectivos pseudônimos do romance “Casca da caneleira”’. (Sic)

Iniciando a publicação de seu valioso trabalho em 1883, Sacramento Blake não poderia ser o primeiro a identificar os pseudônimos dos coautores d’”A casca da caneleira”, pois isso já fora feito desde 1868 (portanto logo dois anos depois de publicada em livro a novela) por Manuel de Melo. No verbete correspondente a Marques Rodrigues, Sacramento, ao relacionar, com os respectivos pseudônimos, os autores d’”A casca da caneleira”, parece que o fez seguindo Inocêncio Francisco da Silva, pois lhe repete dois erros pelos quais se desconfia que um e outro não chegaram a ler o livro. Enquanto Inocêncio diz que no livro “se incluem trechos muito espirituosos acerca da chamada escola coimbrã”, Sacramento assegura que nele “se veem trechos os mais espirituosos da vida coimbrã.” Felizmente o livro está aí para provar que nada disso é verdade. O outro erro de Inocêncio que Sacramento repete diz respeito ao pseudônimo adotado por Sousândrade, que não é Conrado Rotanski, mas Rotenski.

Galante de Souza anotou, entre as publicações em jornal e em livro, as seguintes modificações: uma explicação assinada por Pietro de Castelamare, e que antecedia o cap. I, foi substituída pelo “Exórdio Dispensável”; o cap. XII, intitulado “Uma carta e um aparte”, no jornal, foi substituído pelo texto do “Caleidoscópio final”, da edição em livro, indo para o cap. XI a carta de Salustiano ao Comendador Fabrício das Neves. Fica-se, assim, informado de que no cap. XI são de Sousândrade apenas as duas primeiras cartas, ou seja – a de Américo para Carlos e a de Júlia para Américo.

Ao pé da página que inicia cada capítulo está indicada, nesta reedição, a data de sua inserção n’ “O Publicador”, sendo de observar que os capítulos l e II foram republicados n’ “A Coalição”, de São Luís. Mas a republicação não teve prosseguimento em virtude, certamente, da interrupção que o jornal sofreu em sua circulação.

Em seguida a esta introdução reproduzimos os dois folhetins de Joaquim Serra, alusivos à novela.

A ortografia foi atualizada e alguns evidentes erros de revisão, corrigidos. Também certas impropriedades de pontuação foram retocadas, mas nos limites permitidos pelo respeito ao texto original.

Julgo desnecessário explicar a novela, reproduzir seu enredo, pois ela aí está para ser lida. E uma simples leitura bastará para que alguns equívocos se desfaçam definitivamente. Entre eles, o de que “A casca da caneleira” é a primeira repercussão da Questão Coimbrã entre nós, no sentido em que isso signifique dizer adesão ao movimento chefiado por Antero de Quental. Muito pelo contrário, a empresa, inicialmente planejada e executada com o simples intuito de divertir leitores através de uma historieta romântica, toma o sentido de uma reação à Questão Coimbrã pelo cunho chocarreiro que lhe dá Joaquim Serra. Antero e seus seguidores são, no “Exórdio Dispensável”, no “Caleidoscópio Final” e nos caps. II e III, tratados com fina ironia, zombados até.

É a conclusão a que levará a leitura do livro. É também o que seria de esperar de um grupo marcadamente romântico, antes e depois d´ “A casca da caneleira”.






João Francisco Lisboa e a vida de Vieira


Jomar Moraes


Neste ano que já quase vai chegando à sua primeira metade, tenho dedicado especial atenção a um ramo predileto de minhas atividades intelectuais: a edição de textos, principalmente de autores consagrados e há tempos fora de circulação pelo completo desaparecimento de suas obras do mercado que lhes corresponde.

Após concluir e mandar ao prelo a terceira edição (que vem a ser a primeira edição em livro, pois as duas anteriores circularam em revistas especializadas do “Poranduba maranhense”, obra escrita em 1820 por frei Francisco de Nossa Senhora dos Prazeres Maranhão, abri duas frentes principais de trabalho: a reedição da obra poética de Gonçalves Dias, cuja reedição contará com o apoio cultural da Universidade Federal do Maranhão, e as Obras de João Francisco Lisboa, sob a chancela editorial da já consagrada coleção Documentos Maranhenses, dirigida pela Academia Maranhense de Letras e patrocinada pela ALUMAR.

E tudo isso sem falar em cinco outros livros a serem reeditados pelas Edições AML, da Academia, entre os quais sobreleva mencionar o poema épico “O Guesa”, obra principal de Sousândrade, para cuja reedição, atualizada ortograficamente, versos numerados, introdução e notas da professora doutora Luiza Lobo, contribuí na condição de consultor técnico.

Voltando, porém, a João Francisco Lisboa, cujo bicentenário de nascimento transcorre este ano, alegra-me haver chegado ao quarto volume de suas obras, segundo o cânon para elas estabelecido por seus editores Luís Carlos Pereira de Castro e Antônio Henriques Leal, dois amigos e admiradores do grande polígrafo, para cuja glória muito e decisivamente concorreram.

O primeiro foi emérito mestre da língua portuguesa. Ensinou-a, entre outros acreditados estabelecimentos educacionais de São Luís, no Colégio de Nossa Senhora de Nazaré, de D. Rosa Laura Parga Nina e D. Luísa Lisboa Parga, no Instituto de Humanidades, de Pedro Nunes Leal, e no Liceu Maranhense. E teve, na meritória parceria com Antônio Henriques Leal, participação que este assim registra:

“O Sr. Luís Carlos Pereira de Castro, que, com aquela clara inteligência, muita familiaridade com o estilo de Tímon, e conhecimento não vulgar da língua e de sua construção, que todos quantos o praticam lhe reconhecem e admiram, salvou-a do nimbo dos borrões, estrelinhas, saltos e frases mal-acabadas.” (Referia-se especificamente ao livro “Vida do Padre Antônio Vieira”).

Quanto a Antônio Henriques Leal, com inteira justiça cognominado o Plutarco maranhense, basta lembrar o monumento erguido à glória das dezenove notáveis figuras de nossa terra, cujas biografias traçou, com vivo entusiasmo e grande riqueza de detalhes, no “Panteon maranhense”, a par do gosto pela atividade editorial, comprovado, entre muitos outros exemplos, através dos jornais que redigiu e dos livros alheios que editou, dos quais é imperioso adicionar, ao exemplo da publicação das “Obras de João Francisco Lisboa”, o da organização e edição das “Obras póstumas de A. Gonçalves Dias”, em 6 volumes.

Ao falecer, com 51 anos de idade, João Francisco Lisboa deixou vasta produção esparsa nos jornais que redigiu em São Luís (“O Brasileiro”;” Farol Maranhense”, última fase, de José Cândido de Moraes e Silva;”Eco do Norte”; “Crônica Maranhense”; “Publicador Maranhense”) e, em muito menor quantidade, no “Correio Mercantil”e no “Jornal do Comércio”, ambos do Rio de Janeiro, nos quais colaborou durante os meses de 1855, em que viveu naquela cidade, até viajar para Portugal.

Além da biografia de Manuel Odorico Mendes e dos folhetins A Festa de Nossa Senhora dos Remédios, A Festa dos Mortos ou A Procissão dos Mortos, e Teatro São Luís, de um artigo político intitulado A Questão do Prata e do célebre discurso parlamentar sobre a Anistia aos Pernambucanos Revoltosos, integra esse quarto volume, como sua matéria principal, a Vida do Padre Antônio Vieira.

Além da seleção realizada por Josué Montello, de matéria publicada na “Crônica Maranhense”, e que resultou em dois volumes editados com o mesmo título, muito do que João Francisco Lisboa deixou na imprensa está acima do meramente circunstancial, e reclama a providência de uma seleta à qual seja dada a unidade de livro.

A biografia de Odorico Mendes, três folhetins, o discurso sobre a anistia aos pernambucanos revoltosos e um artigo político foram incluídos no presente volume, que em sua maior parte é ocupado pela Vida do Padre Antônio Vieira.

Os três primeiros volumes destas Obras correspondem, ressalvada a parte do fascículo 10, relativa ao Padre Antônio Vieira, aos 12 fascículos publicados, a espaços irregulares, subtítulo de Jornal de Tímon,5 no período de 1852 a 1858. Acerca do conteúdo de cada número do Jornal de Tímon, das datas e locais de sua publicação e de como foram eles distribuídos pelos

Diz, abaixo do titulo: “Ensaios biográficos dos maranhenses ilustres já desaparecidos.”

Esta obra foi reeditada pela coleção Documentos Maranhenses, em 2 tomos. I, 1987. 407p.; II, 1987, 479p.

A 1ª ed. desse volume e dos precedentes foram graficamente confeccionadas nas oficinas da Tipografia de Belarmino) de Matos, então situadas na Rua da Paz. Mede o exemplar utilizado 13 por 21 centímetros, sendo de prever que o refile, quando da encadernação, haja diminuído algo de seu formato original. Consta de 760 páginas, mais uma de sumário, no final, chamada índice. A mancha tipográfica mede 8,2 centímetros de largura, e tem, de altura, 14,7 centímetros, ressalvadas pequenas variações para mais ou para menos, e nesse cômputo incluído o cabeçalho. Este repete, nas páginas pares e ímpares, os títulos dos trabalhos constantes do volume. A revisão é, no geral, cuidadosa, mas não totalmente isenta de algumas “gralhas”, pelo comum de fácil correção.



A reedição das “Obras de João Francisco Lisboa”, cujo quarto e último volume estou a concluir,respeitou integralmente a pontuação do texto de apoio, que sofreu modificações apenas quanto à atualização ortográfica, nela incluída a modernização de nomes próprios, a exemplo de Souza para Sousa, Menezes para Meneses, Theodosio para Teodósio; de Vizeu para Viseu, Niza para Nisa, Aviz para Avis, etc. Também houve certa padronização no emprego de maiúsculas, que o texto de apoio utiliza sem critério e contraditoriamente. Os títulos de livros, de outras publicações e de suas partes foram conformados às normas que atualmente regem sua citação; as notas, como na edição de apoio, foram mantidas ao pé das páginas a que se referem, mas a numeração, que tinha sequência restrita ao âmbito de cada página, teve tal limite ampliado em função das seções pelas quais se reparte este volume, considerados, para esse fim, unidades autônomas. Ainda sobre notas: sempre que necessário, o dirigente desta reedição aditou-as, italizadas, precedidas de um asterisco e, no fim, seguidas, entre parênteses, das iniciais J.M., de seu nome. Todas as variantes mereceram acolhida. Caso do ditongo oi, de raríssima incidência em comparação com o ou de cousa, dous, etc., e casos outros, como longíquo e longínquo, contravertidas e controvertidas, recusar, refusar, declive, declívio. O mesmo se diga das formas variantes, porém não concorrentes no texto (v.g. frecha, esquipar), e de arcaísmos, a exemplo de gingivre. Também assim no que respeita a topônimos ora precedidos, ora não, de artigo: a Sabóia, Sabóia; da Espanha, de Espanha; a França, França; a Itália, Itália. E ainda este caso único de grafias concorrentes: Amsterdãoe Amsterdam, por serem ambas admitidas. Por isso foram mantidas segundo aparecem no texto de apoio.

Não será descabido lembrar estas indicações dos editores: a “Vida do Padre Antônio Vieira”é um conjunto formado por duas partes compostas em períodos distintos. A primeira, escrita por último e não publicada em vida do autor, que nem chegou a dar-lhe forma definitiva, reproduz, com o tratamento que lhe ministrou Luís Carlos Pereira de Castro, o manuscrito sobre cujo invólucro JFL lançou esta observação: “Estes papéis devem ser queimados, sem serem lidos, quando eu o determinar.”* Seu trecho inicial, porém, integrava, até onde indicado, a segunda parte, que originalmente apareceu no fascículo 10, do “Jornal de Tímon”.

Ambas as partes, como é fácil verificar, têm pontos de coincidência temática, embora com tratamento diverso quanto ao aprofundamento. E não obstante se intitularem Na Europa, a primeira, e No Brasil, a segunda, tratam da vida de Vieira tanto lá quanto cá, apesar de o fazerem com ênfase claramente diferenciada. É muito para crer que João Francisco Lisboa, que deixou os manuscritos sem revisão final, fundisse a obra num todo mais harmônico e mais fluente, caso chegasse a promover-lhe a publicação.

Corre que o autor, depois de novas e mais fundadas pesquisas em Portugal sobre o Padre Antônio Vieira, teria resolvido não mais publicar a biografia em que tanto trabalhou.

Talvez a versão tenha origem na declaração, já transcrita, de que os manuscritos deveriam ser queimados, mediante determinação de seu autor, sem que ninguém os lesse.

Procede, entretanto, especular se essa observação não a teria escrito João Francisco Lisboa sob o peso de grave desânimo e irritação, pois que então era vítima da doença que progressiva e irremediavelmente lhe minava o corpo e abatia a alma. Ademais, tenha-se em consideração o testemunho de médico de Antônio Henriques Leal, grande amigo, desvelado biógrafo e editor do JFL, sobre quem informa que nunca foi de humor alegre e folgazão, que tinha acessos hipocondríacos e que era de temperamento bilioso e nervoso, facilmente irrítável, e que, com a progressão dos males físicos, iam, suas maneiras algumas vezes rudes e desabridas, cada vez mais aumentando.

Provavelmente, já então, não se sentisse animado à imensa tarefa que se propusera, de “ler e reler todas as obras do Padre Antônio Vieira antes de dar o juízo final”, conforme o mesmo Antônio Henriques Leal encontrou escrito no espólio literário do amigo.

Bem haja a lucidez de Olegário José da Cunha, compadre e dos mais íntimos amigos de JFL, que dissuadiu a sua viúva de queimar os manuscritos da primeira parte da Vida do Padre Antônio Vieira.

Salvou-se, assim, uma das mais honestas e perspicazes biografias que o célebre jesuíta inspirou. Graças a ela é-nos possível apreciar, em sua imensa grandeza moral e também nas muitas fraquezas de um caráter cortesão e áulico, esse homem que brilhou nos palácios e nos templos europeus, admirado de príncipes, ministros, reis e rainhas. E que, por outro lado, ali conheceu os sofrimentos físicos e morais do processo, da prisão e da sentença condenatória da Inquisição. E ainda: que também muito deixou de si ao Brasil e ao Maranhão particularmente.

Tão admirável, tão extraordinária figura de nossa vida colonial, figura que, por ser imensa, é glória perpétua da cultura de Portugal e do Brasil, merecia, com certeza, o biógrafo que lhe deu o Maranhão.

E foi singular fortuna que o padre, após tantas dilações, patranhas e maranhas em que se enredou para não vir dar com os costados nestes maranhões, terminasse aqui vindo ter, ao cabo de uma viagem iniciada muito a seu contragosto, tanto que vinha dentro da caravela, mas fora de si.

Nossas igrejas, pelo comum desataviadas de belezas arquitetônicas, e ainda bem mais modestas naqueles tempos da nascente colônia, têm, de notável e de eterno, o verbo de Vieira, que em muitas delas pregou. Na do Carmo, o Sermão de Nossa Senhora do Carmo; na das Mercês, o de São Pedro Nolasco; na de Santo Antônio, quatro sermões de seu orago, um dos quais, o que ficou celebrizado pela antonomásia de Sermão aos Peixes; na Matriz, os da Quarta e da Quinta Dominga da Quaresma, o do Dia de Ramos; na da Companhia de Jesus, o do Espírito Santo, o de Nossa Senhora do Rosário, o das Exéquias do Sereníssimo Príncipe de Portugal D. Teodósio de Saudosa Memória; na de Nossa Senhora da Luz, o do Nascimento da Virgem.







segunda-feira, 4 de junho de 2012

Maranharte Divulga


Resultado do I Festival de Poesia do Papoético

Melhores Poemas: Ante o espelho, de Rodrigo Pereira (1º. lugar, R$ 1.000,00 em dinheiro); Poética, de Kissyan Castro (2º. lugar, R$ 500,00 em livros); e Desencontro, de João Cobelo Foti (3º. lugar, R$ 300,00 em livros).

Melhores intérpretes: Keyla Santana, interpretando o poema Alfama, de César Borralho (1º. lugar, R$ 500,00 em dinheiro); Nuno Lilah Lisboa, interpretando o poema Eu comi Oswald de Andrade, de Kátia Dias (2º. lugar, R$ 300,00 em livros); e Roberto Froes, interpretando o poema Flor caída, de Sílvio Rayol (3º. lugar, R$ 200,00 em livros).

A Comissão Julgadora de Melhores Poemas conferiu ainda menção de destaque para quatro textos concorrentes: Alfama, de César Borralho; Uma faca só lâmina, de André Rios; Bagagem, de Rafael de Oliveira; e Paisagem Vertigem, de Elias Ricardo de Souza.




ILHAVIRTUALPONTOCOM   N°13

O 13º número do Ilhavirtualpontocom trás os seguintes destaques:

- Entrevista com Wilson Martins

- A Faca e o Rio

- Poema de Gonçalves Dias

- Convocação para Projeto Gonçalves Dias

- Curso na Academia Maranhense de Letras