terça-feira, 21 de agosto de 2012

Opinião de Pedra: Jomar Moraes



Ronaldo Costa Fernandes


Jomar Moraes



Nestes nossos tempinhos esquálidos, de extrema e irresponsável banalização da palavra escritor, empregada sem qualquer senso de peso ou medida como qualificativo de qualquer lheguelhé que se dê ao desfrute de escrevinhar um livreco, é fato muito auspicioso o lançamento literário de amanhã, a partir das 19 horas, na Academia Maranhense de Letras, que está festejando os 104 anos de sua fundação com noites de autógrafos de gente da Casa, como aconteceu na véspera do dia 10. Nessa data, como é sabido, nasceu nas matas de Jatobá, então município de Caxias, o menino Antônio, que um dia seria, para sempre, Gonçalves Dias, o poeta que se encantou no reino dos mares maranhões, mas não morreu jamais, nem jamais poderia morrer, por força de ser quem foi. Ele mesmo, em carta a seu maior amigo da vida inteira, Alexandre Teófilo de Carvalho Leal, afirmou enfaticamente, desmentindo a falsa notícia de sua morte: “É mentira: não morri! nem morro, nem hei de morrer nunca mais.” E nessa epístola, repetiu uma passagem das Epístolas de Horácio: “Non omnis moriar”.


Corrijo o pequeno desrumo que esta conversa tomou, consignando que na quinta-feira última realizou-se na Academia o concorridíssimo lançamento do livro de Joaquim Haickel, intitulado “Contos, crônicas, poemas & outras palavras”, trabalho sobre o qual já deixei meu testemunho nos umbrais do dito cujo, e que reitero, realçando e ressaltando os talentos múltiplos do fazedor de coisas Joaquim Haickel, um incansável promotor cultural que a Academia em muito boa hora elegeu para seus quadros.


Tal como na última quinta-feira, na quinta-feira próxima, amanhã, também a partir das 19 horas, outra noite festiva realizará a Academia, para o lançamento do livro de poemas “Memórias dos porcos”, do escritor e acadêmico Ronaldo Costa Fernandes, maranhense que atualmente reside em Brasília, onde, pelo brilhantismo de sua militância literária, representa condignamente as altas e centenárias tradições de cultura e inteligência do Maranhão.


Reitero que o lançamento de amanhã na Academia é um acontecimento literário importante e merece ser prestigiado pelos que tenham apreço à literatura. Ronaldo Costa Fernandes é um escritor na verdadeira acepção da palavra. Autêntico homem de letras, que, ao contrário de lançar mão do recurso fácil do instintivo e da improvisação, buscou, sistemática e conscientemente, fazer o seu aprendizado do ofício de escrever, chegando hoje a ser, por tal motivo, o que geralmente se convencionou classificar na categoria, rara, por sinal, de oficial de seu ofício. Ronaldo colocou a serviço de seu talento poliédrico uma formação literária sólida e marcada pela inteireza e completude que procura suprir desvãos e descontinuidades. Fez, a serviço desse objetivo maior, sua graduação e suas pós-graduações, todas sempre substanciadas e enriquecidas pelo fazer literário, desde os trabalhos que escreveu e que, a despeito de premiados, destruiu, por exigências de uma rigorosa autocrítica. Escritor pluritalentoso, Ronaldo Costa Fernandes está absolutamente à vontade nas variadas formas de expressão literária, em todas e em cada uma das quais alcança excelentes resultados. Romancista, quando se dispôs a estrear, disse logo ao que vinha, com “João Rama e suas andanças nas maldições do encantado”, seguindo-se “Retratos falados”, “Concerto para flauta e martelo”, e “O morto solidário”, prêmio em 1990 da Casa de las Américas e primeiramente editado em Cuba no ano de 1991, romance do qual tivemos a edição brasileira era 1998, seguindo-se-lhe “O viúvo”, e a este, “Um homem é muito pouco”, romance denso, não porque seja volumoso, mas em razão de sua carpintaria complexa. Obra de fina engenharia literária, sem concessões nem atalhos fáceis. Por outras palavras: obra de escritor para escritores, representativa da virtuosidade de seu autor, não apenas um doutor em literatura, que para ele seria muito pouco, mas um douto em literatura. Prossegue a bibliografia ronaldiana: ainda no campo da ficção, a novela “O ladrão de cartas”, editada em 1981 como volume 323 da Coleção Vera Cruz, da Civilização Brasileira, e o livro de contos “Manual de tortura”, com o qual Ronaldo se completa como prosador. Um mestre do romance, da novela e do conto.


E também mestre nas artes da poesia, como o comprovam estes livros de poemas: “Terratreme”, “Andarilho”, “Eterno passageiro”, “A máquina da mãos” e “Memórias dos porcos”, a ser lançado amanhã.


Numa demonstração de que Ronaldo faz com maestria sua multifacetada obra, mais um título. E este, comprobatório de que, além de fazer muito bem seu trabalho de escritor, possui plena consciência do que faz e por que faz: o livro de ensaio literário “O narrador do romance”, um compêndio que deixa muito bem patente a inegável competência literária de seu autor.


Fiz questão de enumerar título a título a bibliografia de Ronaldo Costa Fernandes, como tentativa de contribuir para o melhor conhecimento, por parte dos maranhenses, da obra desse conterrâneo muito mais conhecido e sobretudo reconhecido fora do que em sua terra natal, situação que se deve, em parte, à circunstância de Ronaldo viver, desde muito cedo, fora de São Luís: no Rio de Janeiro, durante a fase infanto-juvenil, onde fez sua formação principal; depois, por cerca de sete anos, na Venezuela, como diretor do Centro de Estudos Brasileiros em Caracas; e desde há alguns anos trabalha e reside em Brasília. Também o ensimesmamento de Ronaldo, não devido a pretensão, mas a timidez, responde por considerável parcela de seu desconhecimento entre nós.


Ressalto, finalmente, que a multifacetada e numerosa bibliografia de Ronaldo Costa Fernandes, iniciada em 1979, com o livro de estreia “João Rama”, atesta a constância de seu fazer literário, exercido como permanente compromisso com suavocação verdadeira e irrenunciável.


Fonte: O Estado do Maranhão




Maranharte Informa: V Semana Montelliana





Será realizada pela Casa de Cultura Josué Montello, órgão da Secretaria de Estado da Cultura (SECMA), a quinta edição da Semana Montelliana, no período de 21 a 24 de agosto. Promovido pelo governo do estado o evento é uma homenagem ao aniversário de nascimento do escritor maranhense e patrono da Casa, Josué Montello, que este ano completaria 95 anos de idade.


A V Semana Montelliana terá neste ano de 2012 o enfoque voltado para as comemorações do aniversário de 400 anos da cidade de São Luís. Além de preservar e difundir a arte literária, abrindo portas para o conhecimento dos frequentadores, pesquisadores e estudiosos da literatura maranhense, esta edição da Semana Montelliana desenvolve um leque de atividades culturais que já fazem parte do calendário cultural de São Luís.


Com uma vasta programação compreendendo as exposições fotográficas “Vida e obra de Josué Montello” e “A Eterna São Luís de Josué Montello com seus romances”, terá ainda visitas, ciclo de palestras com escritores maranhenses, apresentações de trabalhos com a temática sobre aspectos sociais e culturais de São Luís, lançamentos de livros, entre outras atividades, é direcionada a estudantes, professores, escritores e comunidade em geral.


Na terça-feira (21) a V Semana Montelliana será aberta às 18h30, no Auditório Josué Montello, na Rua das Hortas, 327-Centro, com uma mesa redonda que abordará o tema Retrospectiva e Atualidade no Teatro Maranhense, será proferida pelos palestrantes Ubiratan Teixeira (escritor e teatrólogo), Charles Melo (professor de teatro da UFMA) e Elves Franco (professor de teatro e escritor), exposição e apresentação do slide: O Teatro de Josué Montello.


No período de 22 a 24 de agosto, no horário das 14h30, visitas guiadas para alunos do ensino fundamental e médio de escolas públicas e privadas de São Luís, e exibição de Vídeo Documentário sobre o escritor homenageado.


Na sexta-feira (24), último dia da programação, com início para às 14h30 terá a palestra “As relações sociais na cidade de São Luís/MA do final do Século XIX e início do século XX”, representada no romance “A Carteira de um Neurastênico”, de Antônio Lobo, proferida pelo palestrante Lunêr Sousa Dequeixes Filho.


Fonte: Secma






O político Josué Montello

Texto de  Benedito Buzar

Amigos e admiradores de Josué Montello não conseguem esquecê-lo e muito menos o dia 21 de agosto. Nesta data, em 1917, portanto, há 95 anos, ele nascia nesta cidade, cidade essa que adorava e fez dela, ao longo da vida de escritor, cenário de numerosos romances, contos e crônicas.


Josué costumava definir-se como um maranhense profissional, fato que o levava a vir com freqüência a São Luís. O mês preferido de suas temporadas entre nós era agosto. Só motivos relevantes poderiam prendê-lo no Rio de Janeiro e evitar que, em companhia da amada e inseparável Ivone, não estivesse aqui, neste período do ano.


Dois motivos o traziam a São Luís em agosto: rever a Casa de Cultura, que tem o seu nome, e passar o aniversário em companhia dos amigos, que sempre fizeram questão de comemorar a efeméride com as pompas e as honras merecidas.


Nesta terça-feira, quando completaria 95 anos, quero lembrá-lo e homenageá-lo não focando a brilhante e marcante trajetória de intelectual e de membro de renomadas instituições culturais, dentre as quais a Academia Brasileira de Letras e a Academia Maranhense de Letras. Prefiro pinçar a outra faceta de sua personalidade: a política.


Ao contrário do que muita gente pensa, Josué não era um homem infenso ou arredio ao mundo da política partidária. Em certas fases da sua vida, no auge do prestígio de escritor, esteve no redemoinho das confabulações políticas e cogitado para assumir cargos importantes na cena pública do Maranhão.


As primeiras marcas de Josué Montello na vida pública maranhense ocorreram na transição da ditadura getuliana para a democracia, quando o empresário Saturnino Belo, indicado por Vitorino Freire, assumiu o cargo de interventor federal no Maranhão.


Em maio de 1946, o interventor convidou o amigo Josué para executar em São Luis um trabalho de fôlego, pois desejava promover uma reforma no sistema educacional do Maranhão, contando, para isso, com recursos federais. Na época, ele ocupava o cargo de diretor de Cursos da Biblioteca Nacional, razão pela qual o ministro da Educação, Ernesto de Sousa Ramos, colocou-o à disposição do Governo do Estado.


Em São Luís, Josué dedicou-se exclusivamente à elaboração do plano até o momento em que o interventor precisou de sua competência intelectual e de sua capacidade de trabalho, para ajudá-lo nas tarefas atinentes à administração.


Sabendo-o habilitado e dinâmico, Satu não hesitou em convidá-lo para o cargo de Secretário Geral do Governo, o segundo mais relevante na estrutura do Estado. Nomeado a 20 de junho de 1946, dedicou-se à elevada função com desenvoltura e eficiência, mas sem prejudicar o trabalho que se comprometera fazer, intitulado “A Reforma do Ensino Normal e Primário no Estado do Maranhão”.


À frente da Secretaria Geral do Governo ainda substituía o interventor nas ausências de São Luís, quando viajava ao Rio de Janeiro, para tratamento de sua debilitada saúde ou resolver problemas referentes ao desempenho da máquina administrativa.


Também avocou o papel de articulador político, com vistas a dar musculatura à candidatura de Satu a governador às eleições de janeiro de 1947, projeto que não vingou, face ao dispositivo constitucional que tornara inelegíveis os que estavam no exercício do cargo de interventor federal.


Inobstante o trabalho edificante que realizava no governo, no final de 1946, deu por concluída a missão que lhe foi confiada pelo interventor. Antes, porém, passou às suas mãos o documento que preconizava novas diretrizes na educação do Maranhão, que lhe valeram merecidas homenagens do chefe do Executivo, em solenidade, na Biblioteca Pública, e do magistério maranhense, no Teatro Artur Azevedo.


Entregou o cargo e retornou ao Rio de Janeiro, sendo lotado no gabinete do presidente Eurico Dutra, o qual, por interferência do senador Vitorino Freire, foi nomeado, em 1947, diretor da Biblioteca Pública Nacional.


Durante o tempo passado nesta cidade, não se descurou da militância jornalística. No jornal Diário de São Luís, assinava a coluna “Dia Sim, Dia Não”, em que comentava assuntos de cunho literário.


Instalado novamente no Rio de Janeiro, mas com o pensamento no Maranhão, aguardava o momento para executar dois projetos. O primeiro, no dia 21 de setembro de 1948, quando tomou posse na Academia Maranhense de Letras, elegendo-se a 21 de agosto de 1946, ocupando a cadeira nº 31, patroneada por Raimundo Lopes da Cunha.


O segundo, em 1950, ao integrar a chapa de candidatos do Partido Social Trabalhista, às eleições para a Câmara dos Deputados. Afastou-se da direção da Biblioteca Pública Nacional e participou da campanha eleitoral, na certeza de que receberia da cúpula partidária e do eleitorado o reconhecimento pelo fecundo trabalho prestado ao Estado.


A campanha eleitoral daquele ano foi das mais violentas quanto à fraude eleitoral. Josué não se beneficiou do esquema fraudulento e nem contou com recursos significativos para a compra de votos, sendo, por isso, inapelavelmente derrotado. Obteve apenas 2.974 votos. O PST elegeu cinco deputados federais, restando-lhe a quarta suplência, mas não assumiu o mandato.


Amargurado, distanciou-se da cena política. Mesmo assim, em duas oportunidades, o seu nome foi apontado para disputar cargos eletivos.


Em 1954, para ser suplente de senador do jornalista Assis Chateaubriand, que perdera as eleições na Paraíba e buscava eleger-se no Maranhão ao Senado da República. Em 1965, na sucessão do governador Newton Bello, teve o nome lembrado para substituir o deputado Renato Archer, vetado pelo regime militar, que enfrentaria nas urnas a candidatura de José Sarney, lançada pelas Oposições Coligadas.



Fonte: Jornal: O Estado do Maranhão





sábado, 11 de agosto de 2012

Maranharte Informa: Concurso de Poesia



A Universidade Ceuma por meio da Coordenação do curso de Letras realiza o Concurso de Poesia – São Luís 400 anos. O objetivo do concurso é estimular a criatividade e a produção literária acadêmica no contexto de comemoração dos 400 Anos de São Luís.

Alunos de todos os campi que integram a Universidade Ceuma podem participar do Concurso. As atividades desde as inscrições até a divulgação dos resultados estão vinculadas à Coordenadoria do Curso de Letras, localizada no campus Anil.

Cada concorrente poderá inscrever até dois poemas inéditos, no idioma português, como máximo de vinte e cinco linhas cada, digitados e impressos em papel A4, entregues em quatro vias não identificadas, em um envelope constando nome completo do candidato, pseudônimo (se tiver), período, curso e turno, endereço completo, telefone e e-mail (se tiver).

Julgamento

Uma banca examinadora composta por cinco membros, professores do Curso de Letras do Campus Anil, selecionados por sorteio pela coordenadoria do Curso, será definida para que julgue e escolha os cinco melhores poemas inscritos no Concurso de Poesia – São Luís 400 anos. Além de poder atribuir menção honrosa, se for o caso.

Os organizadores poderão também convidar para compor a banca examinadora dos trabalhos, autoridades e/ou membros da sociedade civil ligados à temática, tais como representantes da Academia Maranhense de Letras, Professores de outras Instituições Superiores de Ensino (IES), integrantes do Comitê 400 Anos (Prefeitura de São Luís) etc.

Premiação

O primeiro colocado receberá um tablet. Os autores de todos os trabalhos considerados em conformidade com as exigências do Concurso receberão um certificado de participação, com carga horária de quatro horas. Além do Certificado, os cinco trabalhos selecionados pela banca receberão uma placa de homenagem alusiva à participação.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Maranharte Divulga: Seminário de Línguas



TEMA: Da língua nativa às línguas do mundo: o cenário dos 400 e outros anos de São Luís-MA.

DATA DA REALIZAÇÃO: 26, 27 e 28 de setembro de 2012.

LOCAL: Centro de Ciências humanas - CCH/UFMA.

PÚBLICO ALVO: Acadêmicos e público em geral.

Maiores informações: site do evento: http://celaletrasma.blogspot.com.br 

 

Opinião de Pedra: Jomar Moraes


Bustos do Panteon: um assunto recorrente


 Jomar Moraes




Apedeutas dos mais diversificados matizes, graus e quadraturas, tão visceralmente apedeutas que lhes falta a consciência de que o são, fato que de modo algum os dispensa de serem, insistem, persistem e não desistem de (aí vai o primeiro neologismo) apedeutar sob a desculpa ou o pretexto de estarem defendendo esta nossa pobre cidade tão mal e porcamente cuidada pelos mandatários eleitos e pagos para administrá-la com o mínimo de zelo, competência e vergonha. Pobre e desditosa cidade também vítima do vandalismo de muitos de seus habitantes.


Alguns desses habitantes, que além de apedeutas e mentecaptos, apresentam-se travestidos de zelosos defensores de São Luís, embora não protestem contra o roubo de azulejos de nossos casarões, nem lamentem a indecente e malcheirosa poluição de nossas praias, nem critiquem as tábuas de pirulitos em que se transformaram nossas vias públicas, dizem-se muito incomodados com a ausência dos bustos da Praça do Panteon. E já que estamos na citada praça, esses mesmos apedeutas e mentecaptos jamais protestaram contra o fechamento, por mais de dois anos, da única Biblioteca Pública da cidade, e que passa por uma recuperação executada a passos de cágado. E por haver usado a palavra que por último recebeu um ponto continuando, imaginemo-la sem o acento agudo e, em consequência, transformada de proparoxítona em paroxítona. Com mais uma pequena operação mental, mudemos-lhe o gênero, fazendo-a feminina, e teremos o estado geral e permanente da tal Praça do Panteon: suja, imunda mesmo, visualmente poluída, abandonada, degradada e literalmente cag-da.


É nesse espaço cujo estado de completo abandono a todos nós nos envergonha, que apedeutas e mentecaptos insistem em ver os bustos colocados. Pois saibam todos que os bustos foram retirados desse logradouro atualmente rebaixado a uma condição vexaminosa, graças à ação tempestiva da Academia Maranhense de Letras, legitimamente representada por mim, que à época era seu presidente, e por mais 13 confrades.


Na tarde do dia 11 de agosto de 2005 (portanto, há quase sete anos completos), após uma reunião na Academia em que o assunto principal foi a precária situação dos bustos da Praça do Panteon, de onde haviam já roubado o busto de Humberto de Campos e uma grande e bela placa junto ao busto de Corrêa de Araújo, elaboramos e assinamos uma exposição de motivos dirigida ao Dr. Tadeu Palácio, então Prefeito de São Luís. Nessa mesma tarde fomos em comissão levar o documento ao Prefeito, que gentilmente nos recebeu em seu gabinete e, após atentamente ouvir nossa manifestação pela voz do acadêmico José Chagas, além de receber o conjunto de fotografias que documentavam o estado deplorável da praça, indagado se tinha condições de manter vigilância permanente e eficaz daquele espaço, respondeu-nos francamente que não.


Diante disso, postulamos a solução imediata de evitar que os bustos remanescentes fossem roubados, a exemplo do que já acontecera com o busto de Humberto de Campos e a placa sob o busto ao poeta Corrêa de Araújo. Ali mesmo e ato contínuo o prefeito adotou a providências que resultariam na retirada, logo na manhã seguinte, de todos os bustos, que foram recolhidos a lugar seguro e passaram a ser objeto dos cuidados de restauração.


Na tarde/noite de 24 de outubro de 2007, o mesmo prefeito Tadeu Palácio, na companhia de auxiliares seus e presentes alguns acadêmicos, entre os quais Ceres Costa Fernandes e eu, fez a solene entrega à cidade, sob o nosso testemunho agradecido, dos bustos restaurados e acrescidos do busto do escritor Josué Montello, embora, lamentavelmente com o busto de Humberto de Campos ausente, por motivo de roubo. Todos esses pequenos e venerandos monumentos acham-se, desde então, devidamente expostos, porém resguardados de roubos e outros malefícios nos jardins internos do Museu Histórico e Artístico do Maranhão, imponente conjunto arquitetônico situado parte na rua do Sol e parte na rua de São João, sem prejuízo, porém, de ser, como de fato é, uma só e ampla unidade imobiliária.


Essa história, já a contei aqui por mais de uma vez, e desde agora aviso que sempre estarei disposto a recontá-la quantas vezes necessário for. Intriga-me, porque ainda não consegui atinar para o motivo por que os bustos preservados da degradação a que estavam submetidos na Praça do Panteon, tanto incomodam apedeutas, mentecaptos e outros imbecis. Serão eles agentes ou prepostos dos donos de fundições que praticam o crime de receptação de bronze? Ou serão meros espíritos de porco, empenhados em ver a cidade cada vez mais agredida e criminosamente danificada?


Insisto nas perguntas, porque elas verazmente me intrigam. Por que os bustos, tratados com zelo e dignidade nos jardins do Museu Histórico o Artístico do Maranhão, tanto incomodam apedeutas e mentecaptos? Qual a razão de esses mesmos indivíduos desejarem que os bustos sejam removidos do local onde gozam de respeito, incolumidade e segurança, para um espaço conspurcado por dejetos e outras imundícies? Seria pelo torpe motivo de que se comprazem em ver os monumentos representativos de Gomes de Castro,Teixeira Mendes, Urbano Santos, Maria Firmina dos Reis, Bandeira Tribuzi, Arnaldo Ferreira, Silva Maia, Coelho Neto, Gomes de Sousa, Clodoaldo Cardoso, Henriques Leal, Artur Azevedo, Corrêa de Araújo, Raimundo Correia, Dunshee de Abranches e Nascimento Moraes rebaixados à mais infame degradação na verdadeira cloaca em que se transformou a hoje impropriamente chamada Praça do Panteon?


Rápida consulta aos dicionários Aurélio e Houaiss, dos mais autorizados de nossa língua, informa-me que não existe o verbo bustificar, que aqui comparece como outro neologismo, talvez estapafúrdio, mas para exprimir a ação de colocar bustos. E que, na infeliz hipótese de retornarem os bustos à chamada Praça do Panteon, sem que ela esteja devida e eficazmente policiada e posta a salvo de vândalos e outros malfazejos, e mais: sem que ela haja passado por completos reparos e higienização, essa hipotética volta, de infeliz lembrança, nas condições atuais, não seria uma bustificação. Seria, com todas as vênias, pedidos de desculpa e de perdão aos olhos e ouvidos mimosos, suscetíveis e, por isso mesmo, propensos a desmaios e delíquios verdadeiros ou meramente espetaculosos, reitero, com todos os tarrabufados e salamaleques possíveis: nas condições atuais da impropriamente denominada Praça do Panteon, um retorno desses monumentos representaria, não uma bustificação da praça, mas uma bostificação dos bustos.


A Academia Maranhense de Letras atuou tempestivamente para salvar do roubo completo os bustos da Praça do Panteon (de onde, insisto, já fora roubado o de Humberto de Campos e a grande e bela placa sob o monumento do poeta Corrêa de Araújo).


Essa placa,há muito desmanchada na caldeira dos receptadores de bronze e de materiais correlatos, perdeu-se, obviamente, para sempre. Mas aqui reproduzo as extensas inscrições que nela havia, cabendo observar que as barras indicam os parágrafos que no texto não podem figurar, por motivos mais que óbvios.


Lia-se, na referida placa, em primeiro lugar: “A/ CORRÊA DE ARAÚJO, / – O ÚLTIMO SABIÁ DE ATENAS -, / HOMENAGEM DO GRÊMIO CULTURAL CATULLO DA PAIXÃO CEARENSE, / DA GUANABARA, DO MOVIMENTO MARANHENSE DOS TROVADORES / – MOMATRO – E DA PREFEITURA DE SÃO LUÍS, SENDO PREFEITO ODR. / HAROLDO TAVARES. / POR INICIATIVA DE GUIMARÃES MARTINS./ ESCULTURA DE FLORY GAMA”.


Também se liam mais abaixo, estes versos de Corrêa de Araújo, em louvor a Guimarães Martins. Tudo em versais, como a transcrição anterior, que cuidadosa e premonitoriamente copiei, salvando os dizeres da placa, já que me foi impossível salvar a dita cuja. Eis os versos e o que mais havia: “AO GUIMARÃES MARTINS // Ó! GUIMARÃES MARTINS, OS NOSSOS POETAS, / – MAVIOSOS SABIÁS, ÁUREOS VIM-VINS, / DOCES CORRUPIÕES – ALMAS SELETAS, / NAS QUAIS A ARTE ATINGIU TODAS AS METAS, / MORRER JÁ PODEM, GUIMARÃES MARTINS, / SIM. JÁ PODEM MORRER! PORQUE DO OLVIDO / EM QUE OS SEPULTA A NOSSA INGRATIDÃO, / HÁ DE OS TRAZER, DE NOVO, PARA O RUÍDO / E O TUMULTO DA VIDA – TÃO RENHIDO, / TÃO BRUTAL E MORTAL – A TUA MÃO, / E ARRANCADO POR TI, DA MORTE, O BANDO / DE SABIÁS – ALMADA NOSSA GENTE, / E ENCARNAÇÃO DOS PÁSSAROS MAIS TERNOS – / A ALMA INTEIRA NO CÂNTICO DOLENTE / HÁ DE FICAR NOS MÁRMORES ETERNOS, / NAS PALMEIRAS DE MÁRMORE, – CANTANDO, / CANTANDO ETERNAMENTE. // CORRÊA DE ARAÚJO // PEDREIRAS: 29-5-1885 – SÃO LUÍS: 24-8-1957 / (DA ACADEMIA MARANHENSE DE LETRAS) / SÃO LUÍS, 24-8-1974”.


Como as transcrições deixam muito claro, o velho poeta Corrêa de Araújo, sempre muito orgulhoso e convicto das excelências de sua arte, consideravaos poetas membros integrantes de um singular conjunto canoro e polifônico no qual sabiás, vim-vins, corrupiões e outros muitos bichos de pena cumpriam seu ofício de cantar e de encantar, sendo que a ele, o velho poeta Corrêa de Araújo, cabiam as honras e distinções devidas ao último sabiá de Atenas… Pobre e decaída Atenas tropical. A ela aludiu o poeta Inácio Xavier de Carvalho, grande e vigoroso simbolista de “Missas negras”, chamando-a, em nota aposta ao soneto Os Galos e a Águia, do livrinho “Parábolas – para bolas” (1919): “ minha infeliz Apenas brasileira”.


Continuo esta necessária lenga-lenga, aditando uma informação aqui anteriormente já prestada, mas que vem muito a propósitorepeti-la: Na manhã em que os servidores da Prefeitura encarregados de retirar os bustos da Praça do Panteon ali chegaram para executar esse serviço, já encontraram, segundo me relataram, pois lá fiz questão de estar pessoalmente, onze bustos aparentemente incólumes, porém desconectados de seus respectivos pedestais. Sinal evidente de já estarem prontos para serem roubados, quem sabe na noite desse dia.


Tal fato prova e comprova que o roubo do busto de Humberto de Campos e da placa junto ao monumento de Corrêa de Araújo foi apenas e tão somente o início de um arrastão que pretendia subtrair criminosamente, desconheço se de uma vez ou a prestações continuadas, os bustos do Panteon.


Crime idêntico já haviam praticado em 2004, curiosamente, na Semana da Pátria, quando se acredita que reacendem nas pessoas os sentimentos cívicos. Relativamente a tão lamentável fato, escrevi neste espaço por mais de uma vez, porém nenhuma voz, que eu saiba, fez-se ouvir no lamento ou condenação de ato de vandalismo e lesa-cultura.


Já a memória do venerando Pai do Humanismo Maranhense, excelso tradutor de Homero, de Virgílio e de outros autores vinha sendo afrontada por moleques que envolviam constantemente o busto de Odorico Mendes com um pneu velho. Busto digno de verdadeira veneração, porque representativo de um dos maiores e mais respeitáveis maranhenses. Homem de escol, que nas lides políticas e literárias muito e muito engrandeceu o Maranhão, pela honradez moral com que sempre se houve, Odorico Mendes, diante de cujo busto o escritor francês Mauricio Druon ajoelhou-se reverentemente quando de sua primeira visita a São Luís, Odorico, em sua terra natal teve a memória desrespeitada até o extremo de haverem roubado o seu busto, que certamente foi derretido na caldeira de algum receptador. Graças a iniciativa do Dr. Fernando Barreto, atento promotor público de meio ambiente, urbanismo e patrimônio histórico, um busto do Humanista foi recolocado no lugar de onde roubaram o monumento original. Sem demérito algum para quem praticou a boa ação de esculpir esse novo busto, necessário é dizer que a obra está em lugar da original, que foi roubada, e que essa foi a melhor solução possível, diante do fato consumado. Mas não pode deixar de ser lamentada a perda, para sempre, do busto original, que era um belo trabalho de ninguém menos que Rodolfo Bernardelli.


Por força de uma lei resultante de projeto apresentado pelo confrade Ivan Sarney, quando era vereador de São Luís, a Academia Maranhense de Letras precisa, obrigatoriamente, ser ouvida relativamente à colocação de monumentos nos logradouros públicos de São Luís.


Mas não se conclua daí que a Academia, pelo fato de ter voz e voto nos assuntos relacionados com a colocação de bustos e outros monumentos, tem obrigação ou responsabilidade pela guarda desses mesmos monumentos.


Afinal de contas, é imprescindível ficar bem claro que a Academia é uma instituição cultural que não tem, entre suas finalidades, obrigações correlatas ou semelhantes às de departamento municipal de parques e jardins.



Fonte: http://www.academiamaranhense.org.br/blog/
foto: Museu Histórico e Artístico (Foto: Biné Morais/O Estado)