terça-feira, 5 de abril de 2016

Opinião de Pedra: Dino Cavalcante e José Neres



O CENTRO HISTÓRICO SOB O OLHAR DAS LETRAS


 Dino Cavalcante (Doutor em Literatura Brasileira e professor do Depart. de Letras da UFMA)
                              José Neres (Professor e membro da Academia Maranhense de Letras)


                     Quem se debruça sobre a história de São Luís descobre que, com a criação da Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, a província experimentou um crescimento econômico jamais visto. O algodão transformou a paisagem urbana da cidade e, em pouco mais de 50 anos, São Luís tornou-se uma das principais cidades da colônia portuguesa, tanto que o botânico Carl Friedrich Philipp von Martius, quando visitou a cidade, ficou deslumbrado com tanta riqueza.


Mesmo quando o algodão já não era o principal produto de exportação do Brasil, na metade do século XIX, a imponência dos casarões de São Luís continuava tendo destaque e enchendo os olhos daqueles que caminhavam pelas ruas e becos da capital maranhense.


Com toda essa majestade e imponência de seu casario, São Luís não poderia deixar de servir de palco para a literatura. E assim o foi. Em quase duzentos anos de literatura, as ruas, os becos, as praças, as pequenas moradas, os bares, os casarões, os sobrados, os palacetes, as meias-moradas, os solares, etc. já serviram de cenário para uma vasta produção literária, desde poemas, até contos, passando pela grandiosidade do romance e da novela, a cidade serviu de pano de fundo para uma infinidade de histórias, recheadas de sangue, lágrimas, dores, saudades, traições, amores, entre tantos outros temas.


Revisitando todo esse casario que serviu como cenário para a literatura em prosa, o pesquisador Flaviano Menezes da Costa fez uma longa caminhada pelos percursos trilhado por diversos personagens da ficção e da memorialística maranhense. O resultado foi uma dissertação de mestrado defendida no ano de 2015, no Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade, sob a orientação da professora Márcia Manir Miguel Feitosa, e que agora foi transformada em livro, publicado pela EdUfma, com o título de Moradas e Memórias: o valor patrimonial das residências da São Luís antiga através da Literatura.


O pesquisador, usando um aparato teórico que vai desde a fenomenologia - com Heidegger -, até a geografia humanista do chinês Yi-Fu Tuan, analisa, com apurado senso crítico, o sentido das moradias na construção do texto literário, isto é, de que maneira o lugar está associado às personagens dessas narrativas.


Damião, de Os tambores de São Luís, por exemplo, é uma das criações montellianas mais mergulhadas no universo de São Luís. Essa personagem caminha não só pelas ruas, praças e becos da cidade, mas adentra o mundo das moradas, seja de casas simples ou de verdadeiros palácios; ora num lugar - como define Yi-Fu Tuan-, ora simplesmente num espaço.



Em Graça Aranha, em Meu Próprio Romance, o autor mergulhou na construção literária através dos mais variados espaços relativos ao casarão em que o autor de Canaã viveu os primeiros anos.


O espaço interno das moradas da São Luís antiga, segundo Flaviano Menezes, não serviram apenas para a boa vida ou boa conversa das personagens de nossa literatura. Serviram também de palco para crimes hediondos, como ocorre em duas narrativas de nossas letras: O Palácio das Lágrimas, de Clodoaldo Freitas, e A Tara e a Toga, de Waldemiro Viana.


Flaviano Menezes mergulha com acuidade no universo das narrativas, vasculhando quartos, salas, ambientes sociais, varandas, para entender o sentido desses ambientes moldados pelos maiores prosadores de nossa terra.


Sem dúvida, a leitura do livro de Flaviano Menezes serve ao leitor como uma espécie de guia, em que vai nos abrindo cada uma das portas, para que possamos compreender o íntimo de Jerônimo de Pádua, de um Damião, de Maude, enfim, de uma infinidade de seres que povoam nossa rica, mas pouco lida, literatura.

         Fonte: jornal O Estado do Maranhão (04/04/2016)