segunda-feira, 12 de junho de 2017

Maranharte divulga: GRAÇA ARANHA: um maranhense modernista





Entrevista concedida ao jornalista Samartony Martins (jornal O Imparcial  -10/06/2017) sobre o livro “O sublime sobre estético da vida: ensaios lítero-filosóficos sobre a vida e a obra de Graça Aranha”.

Jornal O Imparcial - Como foi “descobrir” Graça Aranha e fazer um livro de ensaios sobre a sua vida e sua obra?

Flaviano Menezes - Este é o meu segundo livro. No primeiro (“Moradas e memórias: o valor patrimonial das residências da São Luís Antiga através da literatura”, 2016), eu já desenvolvia, em um dos capítulos, uma pequena análise sobre a vida do romancista e diplomata José Pereira da Graça Aranha, mais especificamente a infância deste na cidade de São Luís. Já neste segundo, que é um livro de ensaios, eu trato de temas diversos: a atuação de Graça Aranha no cenário cultural brasileiro no início do século XX, suas produções literárias, o apoio aos modernistas de 22 e o reconhecimento em sua terra natal, realizados por romancistas, críticos literários e políticos locais. Mas venho estudando as obras do Graça Aranha há mais tempo, desde a minha graduação em Filosofia (UFMA), quando eu me dediquei a estudar textos filosóficos (ou de viés filosóficos) produzidos no Brasil. 


Na sua opinião, porque Graça Aranha que também teve participação Semana de Arte Moderna de 1922 ao lado de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, dentre outros não figura como destaque deste episódio da história brasileira?
Este ano, estamos comemorando os 95 anos da Semana de Arte Moderna, um movimento artístico divisor de águas na questão da problematização da identidade cultural do nosso país. O que poucos maranhenses sabem é que tivemos um representante neste evento: Graça Aranha, que, aqui em São Luís, residiu próximo ao Palácio dos Leões, se tornou conhecido por publicar um romance muito singular e original na nossa literatura (Canaã) e era filho de um jornalista abolicionista. Em 1922, juntamente com o empresário e escritor Paulo Prado, ele ajudou os então “jovens” Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, dentre outros, a alugar o Teatro Municipal de São Paulo e realizar a tão célebre Semana de 22. Gratidão reconhecida pelos moços, quando estes concederam ao “senhor modernista” a honra de inaugurar a semana com a palestra “A emoção estética na arte moderna”. É importante frisar que Graça Aranha não produziu, neste período, nenhuma obra literária, musical ou pictórica, mas, sem ele, com certeza, a famosa Semana não teria a mesma visibilidade.
Por conta de questões que envolveram Mário de Andrade, Oswald de Andrade e o interesse de ambos em adquirir uma posição de “líderes” do movimento, Graça Aranha foi posto de lado, e até ridicularizado, depois de ajudar a fundar os primeiros jornais e periódicos modernistas no Brasil, entre estes: a Klaxon. Aqueles confessaram, posteriormente, que não admitiam uma influência intelectual do “velho maranhense” em suas propostas modernistas. Mas as farpas já tinham sido jogadas e nunca foram, totalmente, desmentidas.


Durante a sua pesquisa quais os aspectos mais interessantes que você encontrou sobre a personalidade de Graça Aranha que para a época era considerado um homem de vanguarda?
Depois de uma vida inteira trabalhando com políticos e diplomatas, Graça Aranha volta para o Brasil em 1921, já aposentado, com um novo e “estranho” livro chamado “A estética da vida” (que embaralhava filosofia, literatura e política) e com algumas ideias renovadoras sobre como os jovens deveriam produzir uma “arte brasileira”. Segundo Graça Aranha, ainda na primeira metade do século XX, faltava para o jovem artista brasileiro superar a “cultura da melancolia” (quando o produto da cultura era sempre frio e acadêmico), o preconceito contra o novo e o constrangimento de se esmerar nos cânones europeus. O brasileiro deveria ter sua identidade artística, ter orgulho de suas cores, de suas raças e criar uma arte original. Tudo isto é dito, e problematizado, em sua “Estética da vida”, produzida um ano antes da Semana de 22. Esse vanguardismo de Graça Aranha é uma das questões que discuto em meu livro.


Em sua obra você evidencia que Graça Aranha era um entusiasta para a criação de uma cultura autônoma e de uma literatura nacional “do Brasil”, adotando a língua brasileira, misto das três raças, combinado do erudito e do popular, de dialetos ajustados a um léxico tropical. Como os intelectuais da época encararam esta proposta do escritor maranhense?

Em 1924, Graça Aranha enviou à Academia Brasileira de Letras, um projeto de reforma das regras da língua portuguesa falada no Brasil e das normas da própria Academia, que deveria banir de seus concursos, e de sua atividade crítica (conferências e revistas) tudo o que não fosse “atual” e “brasileiro”, e, por conseguinte, a criação de um “Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa”, onde seriam congregados todos os vocábulos e frases da linguagem corrente brasileira, inclusive a africana e a indígena; a promoção de conferências públicas feitas pelos acadêmicos sobre assuntos atuais, tanto filosóficos quanto literários; e, por fim, o compromisso da Academia de imprimir as obras dos jovens escritores que não encontrassem editores. A reforma não foi aceita. Diante das críticas sobre o seu protesto à imobilidade da literatura nacional, Graça Aranha rompeu definitivamente com a Academia, atitude esta, que se tornou um escândalo na época.
É claro que a ousada proposta de uma “nova” língua portuguesa falada e escrita no Brasil, que Graça Aranha apresentou para a Academia foi bastante criticada pelos seus membros. Depois, seja que interessante, os próprios modernistas da primeira geração também indicaram a importância de se discutir a construção e funcionamento da linguagem em toda a sua dimensão sociocultural e artística no Brasil, a inserção de termos ditos “do cotidiano” (como veremos na obra “Macunaíma” do Mário de Andrade, ou na poética antropofágica de Oswald de Andrade) e até em práticas sociais de letramento. Os créditos à Graça Aranha, infelizmente, nunca foram dados. 


Em sua obra Graça Aranha que era abolicionista proporciona um diálogo, uma abertura de pensamento sobre a problematização de nossa identidade cultural. Como é que ele conseguiu levantar essa bandeira e enfrentar a sociedade brasileira que ainda é muito preconceituosa?

Assim como os seus conterrâneos Aluísio Azevedo e Josué Montello, Graça Aranha incorporou o povo em suas obras. Em seus romances surgem personagens maranhenses, e sempre encontramos lutas de classes e questões até então pouco exploradas com preconceito de gênero e ecologia. Não conseguiu pulverizar todos os preconceitos sociais de seu tempo em suas reflexões, pois ele mesmo tinha lá os seus fantasmas, porém, conseguiu elaborar uma visão estética da vida, mostra-se como um intelectual de ação, e não somente de imaginação, propondo, primeiramente, vislumbrarmos os traços fundamentais da nossa história e, em seguida, mudar o nosso caráter nacional até então forçosamente enraizado em outras culturas.
No homem brasileiro, enxergou uma “alegria dinâmica”, qualidade espontânea ironizada por aqueles que se intitularam “chefes” do modernismo brasileiro, que não imaginavam que tanto a alegria, quanto a simpatia e a cordialidade seriam vistas como predicados natos dos brasileiros por outras nações.
As questões sobre os efeitos da “cultura estrangeira” na formação do homem brasileiro, a tematização e a classificação das culturas (em populares e eruditas), o questionamento da originalidade e da autoconsciência das estruturas culturais de um povo foram discutidas por Graça Aranha e ainda são bastante atuais. 


Qual foi a sua maior dificuldade para escrever sobre este escritor que é desconhecido da maioria das pessoas e qual o próximo projeto literário?

Sobre as obras e a própria personalidade de Graça Aranha encontramos mais considerações que são herdeiras das acusações daqueles que se fizeram opositores do escritor, do que propriamente novas leituras ou análises menos partidárias.
Até mesmo no último capítulo, no qual eu realizo um painel histórico bastante elucidativo sobre as referências de reconhecimento e homenagens ao escritor ocorridas em sua terra natal, encontramos alguns maranhenses reproduzindo o discurso de Mário de Andrade sobre a obra graciana. Acabei por concluir que alguns nem mesmo tinham lido algumas obras do Graça Aranha, repetindo-se o velho hábito de julgar sem conhecer.
A dificuldade talvez tenha sido esta, desconsiderar a maioria das análises e criar novas perspectivas críticas de um maranhense que se tornou um romancista quase inclassificável, terminando por ser considerado “pré-modernista”; grandiosidade póstuma, concedida também a Euclides da Cunha, Lima Barreto e Monteiro Lobato, que também investigaram e questionaram a realidade brasileira e criaram produções de impacto na literatura nacional.
Sobre os meus futuros projetos. Ainda este ano será lançado o documentário “Moradas e memórias”, o qual eu roteirizei e é baseado no meu primeiro livro. O documentário é dirigido por Joaquim Haickel e  Arturo Sabóia e conta a história de catorze casarões importantes da nossa cidade. E outros dois projetos: o primeiro, em parceria com o arqueólogo Deusdedit Carneiro Leite Filho, sobre peças da arquitetura de São Luís, e um outro que também envolve a nossa bela cidade. 


Lançamento do livro “O sublime jogo estético da vida: ensaios lítero-filosóficos sobre a vida e a obra de Graça Aranha”, de Flaviano Menezes da Costa
Data: 10/06/2017  (sábado) 
Horário: 19h
Local: Livraria Poeme-se
Endereço: Rua João Gualberto, 52 – Bairro Praia Grande (Reviver)


Biografia: José Pereira da Graça Aranha nasceu em 1868, na cidade de São Luís – Maranhão, foi romancista, ensaísta e diplomata. Cursou a Faculdade de Direito do Recife e foi embaixador suplente de Joaquim Nabuco (em alguns países europeus). Sua principal obra, o romance Canaã, de 1902, sobre a vida dos imigrantes europeus, ambientado em uma colônia alemã no Brasil, abalou o cenário das letras do país, pelo debate de ideias em torno do descobrimento de aspectos da realidade nas pequenas colônias. Em 1911 publicou a peça Malazarte, escrita simultaneamente em francês e português, e levada à cena em Paris. Nela procurava criar um símbolo para o Brasil, seguindo os modelos de Ibsen. Membro fundador da Academia Brasileira de Letras, em 1922 aderiu ao Modernismo e ajudou a fundar alguns periódicos. Em 1924 rompe com a Academia Brasileira de Letras, conclamando os acadêmicos a modernizarem a instituição ("Se a Academia não se renova, então morra a Academia!", afirmou em discurso polêmico). Faleceu em 1931, deixando incompleta a sua autobiografia “Meu próprio romance”. 



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